Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky (2025)

Análise da autoimagem

título original (ano)
Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
86 minutos
direção
Liliane Maia, Jorge Bodanzky
visto em
30º Festival É Tudo Verdade (2025)

Um filme sobre Jorge Bodanzky, dirigido por Jorge Bodanzky (junto de Liliane Maia). Um primeiro elemento que salta aos olhos neste projeto diz respeito ao caráter de filme-testamento, quando o cineasta decide falar de si próprio, recriando seu percurso ao espectador. Alguns artistas veteranos se esforçam para realizar uma obra-prima em fase avançada da vida (visando provar a perenidade do talento e renovar a apreciação do público); enquanto outros preferem controlar por completo o discurso a respeito de sua vida. 

O longa-metragem se sobressai pela percepção do autor de que: 1. Sua vida era digna de um filme; 2. Esse filme precisaria ser feito por ele mesmo (ainda que em codireção); 3. Esta era a oportunidade de sublinhar seus melhores filmes, seus desejos e balizas morais, éticas e artísticas. Ao longo das décadas, Bodanzky sempre pareceu muito aberto aos acidentes de percurso, incorporados enquanto parte do processo de criação. Aqui, em contrapartida, ele deseja restringir o alcance e a interpretação de cada palavra, agindo também como narrador em off.

O dispositivo em moldes de “querido diário” permite inclusive que o autor descreva diversos filmes codirigidos sem dar nenhum mérito aos companheiros de direção, às vezes nem mesmo mencionados no texto. Que papel teve Hermano Penna em Caminhos de Valderez (1971), ou Orlando Senna em Iracema, uma Transa Amazônica (1965) e Gitirana (1965)? Qual foi a função de Wolf Gauer em O Terceiro Milênio (1982)? Mistério. De acordo com esta perspectiva autobiográfica, o cineasta concebeu, filmou, finalizou e lançou estes projetos sozinho. Todas as decisões aparentam ter emanado dele.

Um projeto desigual. Um Olhar Inquieto se destaca quando elenca informações valiosas do cinema direto. Mesmo assim, existe uma indefinição conceitual nesta empreitada, visível sobretudo pela montagem.

Além disso, o autor se coloca em cena, dando depoimentos e sendo filmado por uma câmera amadora, inexplicavelmente tremida e indecisa, conforme entrevista outras pessoas. Ele está presente na frente e atrás das câmeras, no som e na imagem, na captação contemporânea e no material de arquivo. Analisa seus próprios passos (“Essa é a imagem que abre meu primeiro longa-metragem”), explica-se e resume-se tal qual um professor cuidadoso, a partir de um texto lido com parcimônia (“A câmera era meu modo de registrar o mundo, uma continuação do meu corpo”). 

Esta pedagogia de si suscita alguns momentos interessantes. É certamente muito válido entender o valor que Iracema adquiriu no percurso do artista, e quais motivos que levaram ao desaparecimento de Gitirana, filmado no mesmo ano — ambos exibidos no Festival de Cannes. O texto é mastigado de tal modo que Bodanzky apresenta a filha, “também cineasta”, Laís Bodanzky, supondo se dirigir a um espectador que desconheça uma das diretoras mais importantes em atividade no cinema brasileiro. Existe um caráter curioso de “a quem interessar possa”: está tudo ali, do básico ao razoavelmente analítico.

O documentário aproveita para decretar a coerência no discurso político-ambiental de Bodanzky, insistindo que ele sempre se posicionou junto aos povos originários, filmando as florestas e comunidades indígenas. Em consequência, sua vida inteira teria sido dedicada a uma atualização deste gesto que visa preservar as raízes brasileiras. Evita-se o elogio direto à filmografia do diretor, no entanto, insiste-se numa sucessão lógica e orgânica de projetos. Caso o autor tenha expressado dúvidas, confessado equívocos e arrependimentos, estes trechos não sobreviveram à montagem.

É uma pena que a captação contemporânea seja tão fraca, superexposta e francamente amadora, incapaz de se decidir sobre o que deseja filmar, em qual ângulo, e por quanto tempo. Os segmentos atuais prejudicam muito o conjunto, provocando uma falha na pretensão de unicidade autoral que o longa-metragem deseja sustentar. A afirmação de Bodanzky a respeito da vantagem dos telefones celulares enquanto câmeras contemporâneas tampouco conduz a uma discussão aprofundada acerca da democratização do acesso à imagem ou à transformação estética no contato com o real.

Resta um projeto desigual. Um Olhar Inquieto se mostra muito frutífero quando o autor elenca informações valiosas na construção do cinema direto, a exemplo da importância das câmeras leves e do som direto. Em contrapartida, enfraquece-se na tentativa cândida e simplificadora de se explicar por meio de frases retóricas (“Hoje percebo que o espírito da aventura estava em mim”). Após mais de uma hora se resumindo e revisitando arquivos, Bodanzky afirma que não considera este filme autobiográfico. Declara preferir que “os filmes falem por si mesmos do que eu ficar falando”. Ora, o que foi todo o documentário até este momento, senão uma extensa narrativa metalinguística e autofágica?

Nota-se uma indefinição conceitual nesta empreitada, visível sobretudo pela montagem, perdida entre o público e o privado, o confessional e o fatual. O documentário se valoriza ora por meio da qualidade dos filmes, ora pela consistência do gesto (o fato de continuar filmando). Bodanzky certamente tem muito a dizer a respeito de si próprio e de sua extensa trajetória, porém não fica muito claro o que ele e Liliane Maia pretendem através desta iniciativa em particular. Desejam apresentar o cineasta a um espectador que nunca tenha escutado seu nome? Confirmar sua importância histórica na cinematografia brasileira? Fornecer materiais raros, pontos de vista inéditos? Não sabemos.

Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky (2025)
5
Nota 5/10

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