Alguns curtas-metragens exibidos durante o 20º Festival Comunicurtas, em Campina Grande (Paraíba), nos levam a pensar nas diferentes maneiras de representar o luto (ou a perda, em chave mais ampla). Determinados projetos partem do princípio que o trauma pode representar uma bela oportunidade para aprendermos mais a respeito de nós mesmos e da moral vigente. Já outros preferem pensar que experiência da morte nos fere de tal maneira que seu impacto nos acompanhará para sempre, através de cicatrizes, fobias e vícios. Uma visão mais otimista, e outra mais pessimista, portanto.

A Menina que Amava Gatos, de Maria Tereza Azevedo Aparecida, decorre da constatação (quantificada em estatísticas, durante os letreiros finais) que, durante a pandemia de Covid-19, muitas pessoas abandonaram seus animais de estimação. Em determinados episódios, chegaram a assassinar os bichos, com receio de que portassem o vírus letal. Por isso, a cineasta elabora uma animação demonstrando um caso exemplar da garota gentil, que cuida dos gatinhos da região, e de seu colega malvado, que os envenena. Há cenas de cadáveres de gatos pelo chão.
A diretora se preocupa em associar o adversário ao bolsonarismo: ele porta uma camiseta com as cores da bandeira do Brasil, e faz o sinal da arminha com a mão. Diante das mortes, responde “Lamento”, como havia feito o ex-presidente. Trata-se de uma maneira de remeter o conflito diretamente ao real, impedindo a leitura mais aberta, ou de duplo sentido. Partindo de um exemplo plausível (o rapaz que maltrata os animais), propõe uma solução tão otimista quanto fantasiosa: o inimigo é facilmente detectado, capturado e punido. Salva-se o dia. O imperativo do final feliz faz com que a justiça ocorra de maneira imediata, implacável, bastando a boa vontade dos moradores locais. Muito mais fantasioso do que a sequência com gatos atacando ferozmente o motoqueiro seria a garantia natural da lei e da ordem no Brasil.

Algo semelhante ocorre com Cinema Sem Teto, de Denise Szabo — selecionado em outros festivais recentes, como o Curta-SE (SE). Diante da perda das salas de cinema de rua em São Caetano do Sul (SP), a autora compreende que precisamos extrair uma lição desta ausência. Partindo do dispositivo funcional das poltronas de uma antiga sala de cinema, colocadas diante de supermercados e outros estabelecimentos onde antigamente havia salas exibidoras, ela denuncia o descaso da cidade para com a cultura independente.
Almeja-se, em consequência, que esta lacuna sirva de exemplo, de lição de moral — vai saber para quem. Este talvez seja o principal problema do discurso, enquanto articulação política: ele se mune de uma legítima reivindicação, porém, não sabe a quem encaminhá-la. Poderia reclamar à prefeitura local, ao governo, ou conversar com antigos distribuidores de filmes para descobrir suas versões da história. Poderia questionar órgãos federais, responsáveis por incentivos ao circuito comercial. No entanto, prefere disparar o alerta a-quem-interessar-possa: a falta de cinemas é uma pena. O curta-metragem tem razão. Mas ele não consegue elaborar esta ausência. Entristece-se, e termina com tantas informações quanto possuía a princípio, por falta de investigação pessoal acerca do tema.

Tamarindo Seco possui uma visão muito menos edulcorada das carências. O implacável drama de Dinorá Melo aponta a uma série de violências — a ausência do pai e marido em casa, os abusos no lar, a perda de um bebê. Em alguns casos, prefere a mera alusão (a imagem assustadora do sujeito de chapéu baixo), em outros, opta por planos explícitos, nada subentendidos (o perverso enquadramento do cadáver infantil na cova). Nota-se certa indefinição entre aquilo que pode — e deve — ser mostrado, e a violência que se beneficiaria do poder da sugestão.
O curta vai além, ao colocar uma arma gigantesca na mão da garota pequena, sugerindo o tiro. Ao final, proporciona o combo completo: a criança com o bebê no colo, e a arma em punho. A Pietá infantil segura cadáveres e armamento pesado ao mesmo tempo — em cena que dialoga, perturbadoramente, com o menino de arminha na mão em A Menina que Amava Gatos. A cena final do filme cearense (mais uma construção amarga, explícita, violenta) insere a garota, de maneira literal, no espaço da morte. Talvez o desejo de denunciar e de chocar tenham se sobreposto ao convite para a reflexão, neste caso.

O quarto projeto da sessão encontra uma maneira grave, embora lúdica, para representar a obsessão da perda. O Colecionador de Cheiros de Nucas Femininas imagina a trajetória do sujeito mencionado pelo título. As diretoras Natália Damião e Ana Clara Vidal de Negreiros se divertem com o desafio de representar o odor em imagens, ilustrando um catálogo íntimo e imaterial. (Entretanto, retiram de cena o elemento mais interessante da proposta: a descrição textual dos cheiros. O que o homem teria escrito no caderninho? Que termos utilizou para descrever cheiros? Foi fatual, poético, metafórico?).
A narração explicativa em off — sempre ela, cada vez mais presente nesta produção recente — nos apresenta ao sujeito efeminado e antissocial, de cabelos lambidos e presença intimidadora. (Encontramos, novamente, a figura do sujeito queer perigoso, sexualmente predador, tão comum na produção homofóbica dos anos 1970 e 1980). Elas investigam, em seguida, seu impressionante arquivismo, e também a possível leitura de “cafajeste” e “ninfomaníaco” a partir de suas ações — o roteiro se antecipa ao espectador nesta questão.
A lacuna do anti-herói se constrói desde a infância. Em chave assumidamente psicanalítica, as autoras leem o gesto do personagem enquanto “inveja do clitóris”, e sugerem que uma carência afetiva familiar teria se sublimado na obsessão erótica. (Foi curioso assistir a este filme em meio a uma plateia repleta de jovens alunos da escola pública local, e pareado com curtas-metragem de linguagem tão inocente quanto Cinema Sem Teto e A Menina que Amava Gatos). As imagens chegam a representar vaginas na forma de rosas, e apostam em outras analogias sexuais evidentes. Adiante, encerra-se com uma gaveta fechada, com o plano focado na virilha do personagem.
É difícil dizer ao certo o que as diretoras teriam a dizer acerca desta perseguição libidinosa. A exemplo dos demais títulos da sessão, encontra-se um problema na hora de terminar, ou de transmitir um ponto de vista sobre os temas abordados — algo muito semelhante à conclusão de Tamarindo Seco. Os jovens cineastas notam personagens e comportamentos fora das normas morais (assassinos, fetichistas, crianças armadas, cidades que desprezam a cultura) e decidem alertar a respeito a existência destes fenômenos e/ou fatos. Logo, focam-se na constatação.
No entanto, pouco sabem o que fazer a respeito destas indignações legítimas que os motivam: o filme deveria investigar as causas do problema? Suas possíveis soluções? Devemos temer a presença do fetichista, ou nos indignar com a criança de arma na mão? Ou lamentar que ele tenha se tornado assim, e apoiar a força da menina destemida? Seria o caso de meramente chorar o fechamento de cinemas e o descaso com gatinhos?
O próximo passo, na carreira destes autores, seria concluir o mecanismo dialético de suas exposições iniciais. Eles partem de uma tese (a sociedade possui falhas graves, que precisam ser conhecidas), de uma antítese (ainda há pessoas boas que lutam contra isso — incluindo os próprios cineastas), porém carecem de uma síntese (Como lutar? Contra quem? Para quem gritar?). A raiva e a tristeza são emoções fundamentais a qualquer transformação política. Falta saber canalizá-las, enquanto indivíduos, e representá-las, enquanto artistas.



