Dentro de um evento dedicado, em sua ampla maioria, ao cinema brasileiro, interessa prestar atenção à única sessão de títulos estrangeiros, que justifica o nome do Fest Aruanda — Festival do Audiovisual Internacional da Paraíba. A organização promove uma rara exibição de curtas-metragens universitários de diferentes países, no intuito de aproximá-los dos curtas brasileiros realizados em instituições de ensino.
Assim, a Universidade Lusófona, de Portugal, selecionou seis filmes, além dos seis curtas-metragens da Universidade de Comunicação da China, dos cinco curtas da Academia Franco-Alemã e dos três curtas da San Diego University. Vistos lado a lado, permitem enxergar abordagens radicalmente distintas do cinema de ficção, com grande foco na animação por parte dos chineses e portugueses.
É tentador, neste caso, pensá-los enquanto projetos coletivos, mesmo que não tenham sido concebidos inicialmente com esta finalidade. Os três projetos norte-americanos, por exemplo, apostam numa linguagem pop e confessional, inexistente nos curtas de outras localidades. A questão do eu, da minha família e da minha saúde mental vem em primeiro lugar, conforme se representa a neurodivergência, a gordofobia e o preconceito contra vietnamitas nos Estados Unidos.

Ga Lavabo, de Duy Do; Peter, de Audrey Daynes, e Punkie, de Laura Skokan, utilizam muita trilha sonora, à medida que brincam entre o colorido e o preto e branco, entre a animação e o live action, fragmentando a narrativa e acreditando na humildade (ou na autoexposição) enquanto valores intrínsecos à obra. Este foi o único conjunto de filmes apresentado, título a título, por um professor da instituição, descrevendo o valor e o orgulho destes testemunhos em primeira pessoa. Certamente, a linguagem das redes sociais e da Internet exerce um impacto direto sobre este trio, muito mais do que em qualquer outro filme apresentado.
Do lado dos franceses e alemães, encontram-se os filmes mais clássico-narrativos, numa linguagem pensada para a aceitação em festivais de cinema, servindo de possível portfólio aos autores em busca de oportunidades para passar ao longa-metragem. Fala-se, nestes casos, de mini longas, ou seja, fragmentos de dramas que se acomodariam melhor numa narrativa mais extensa. Mesmo assim, comprovam o talento dos cineastas iniciantes em sua capacidade de dirigir o elenco, além de articular imagens e sons.
O opressor ambiente estudantil serve de ponto de partida tanto para Lucas’ Situation, de Lilian Fanara, quanto para A Question of Honor, de Nicolas Schönberger. A pressão para pertencer a um grupo social leva uma criança a matar aula e se ferir, no primeiro filme, e um garoto a desrespeitar seus limites pessoais para integrar uma fraternidade, no segundo filme. O curta em língua francesa, um dos melhores de toda a exibição, encerra-se na sugestão de um pacto silencioso entre os jovens alunos (algo que os adultos jamais compreenderiam), enquanto o equivalente alemão prefere suspender a trama em momento de profunda gravidade, sem um desfecho de fato.

Relacionamentos familiares e conjugais dominam as tramas de Let’s Call It Love, de Sejad Ademaj; The Fool, de Hannah Weissenborn, e Kavalyé O Dam, de Sacha Teboul. Os projetos lidam, respectivamente, com um divórcio, o afastamento do marido durante uma doença, e a perda de memória da avó doente — em outras palavras, concretizações da perda e do luto. Possuem seus bons momentos, junto de outros desajeitados, como de costume em obras de autores que ainda tateiam os seus caminhos.
Assim, os instantes do adolescente com a avó são excelentes em Kavalyé O Dam, embora os flashbacks soem novelescos, e pouco convincentes enquanto reconstituição de época. Em The Fool, a metáfora da doença assumindo a forma de um monstro infantil interessa bastante, no entanto, o próprio relacionamento da protagonista com o marido soa mal elaborado, encerrando-se abruptamente. Já Let’s Call It Love remete, nas primeiras cenas, ao brilhante longa-metragem Custódia, apenas para enveredar pelo melodrama menos inspirador nas sequências do parque.
Em geral, os melhores curtas-metragens da sessão vieram da Universidade Lusófona. Duas animações profundamente radicais demonstram um nível de profissionalismo digno de qualquer grande festival de cinema. Lights, Haze, de Tata Managadze e Mãe da Manhã, de Clara Trevisan (este último, em coprodução brasileira, aparentemente), mergulham por universos abstratos, às vezes sinistros, dispensando a busca tão explicativa e descritiva de outros filmes. Mãe da Manhã, em particular, vislumbra um gigantesco monstro espacial, composto de lã e pérolas, movimentando-se pelas galáxias. Trata-se do título mais surpreendente do Fest Aruanda até o momento, e também um daqueles com uma mão autoral mais assertiva, sem qualquer forma de concessão ao gosto médio. Aqui, ficção científica, terror e abstração se unem de maneira deslumbrante.

Já Caio, de Vasco Nico G, se destaca ao trabalhar com dois dos maiores atores portugueses da atualidade: João Nunes Monteiro e Anabela Moreira. Nada mau, para um projeto universitário. Talvez a condução se ressinta de ritmo na montagem e, sobretudo, de maior cuidado com sons diretos e ruídos. No entanto, volta-se a um luto clássico e bem resolvido por meio da fantasia do jovem em um programa de televisão. Nesta toada, Um Adeus a Baco, de Margarida Kalinichenko e Vasco Souto, explora sobriedade e dependência do álcool utilizando unicamente as fotografias. Apesar do belo trabalho do ator principal, ainda esbarra na dependência excessiva de falas, mais importantes ou impactantes do que as imagens.
As animações infantis também se mostraram excelentes em sua simplicidade e ambição. Lembra de Mim, em particular, promove o encontro entre uma garotinha portuguesa e outra brasileira no parquinho, à tarde. Os diretores Barbara Barreto, Caroline Soares e João Cadima constroem uma fábula melancólica, excepcionalmente bem construída e pensada para o formato curtíssimo de quatro minutos. Pelas Costuras, de Adriana Andrade, Luana Rodrigues, Daniela Tietzen, mira voos mais altos ao discutir a identidade de gênero, embora nunca tenha a coragem de explicitamente abordar a transexualidade, que parece consistir seu tema central.
No caso das seis animações chinesas, alguns procedimentos se repetem, denotando excessos na curadoria. Cigarra Vermelha, de Wang Yini e Li Yang, despertou os aplausos mais entusiasmados da plateia no Fest Aruanda, graças à trajetória linear de vingança de uma cortesã contra o tirânico imperador. Os adolescentes na sala vibraram com o banho de sangue, raríssimo em meio a tantas produções pensadas para o público familiar.

Esta abordagem se mostrou excepcional mesmo face às demais animações, que privilegiam a fantasia e o delírio. Bom Apetite, de Wang Ziyu e Yu Jinhong, apresenta uma ovelha em relação claramente erótica com as plantas que devora. Neste caso, as rosas representam vaginas evidentes, com o detalhe do clitóris lambido avidamente pelo animal. A mesma liberdade fabular, decorrente do mergulho no mundo animal, é percebida em Pele de Lobo, de Yin Xihan e Zeng Peng.
Em contrapartida, Buscar Água, de Chen Hongxu, Liu Yudi, Yang Chunxue, Chen Shiyao e Wang Luyi, mostra-se bastante infantil e iniciante em termos de estrutura narrativa e técnicas de animação. Na trama, um garoto busca aprender a técnica para extrair água de um poço seco, e um quiproquó envolvendo seu mestre e uma mosca o levam acreditar numa coreografia improvável. Em paralelo, o violento Echo, de Duan Cefu, decorre diretamente do imaginário dos videogames, e Rejeitado, de Li Keyi, soa tão curto e inexpressivo que jamais desenvolve o tema proposto.
No final, o Fest Aruanda promove, com esta iniciativa, uma experiência raríssima aos espectadores e aos críticos. Existiria algum outro festival brasileiro, atualmente, com espaço para curtas-metragens universitários internacionais? A projeção se torna relevante para detectar tendências, introduzir novos autores e pensar as formas como o audiovisual é elaborado por estudantes de outros países. E despertam uma questão fundamental: diante de tantas ficções em live action e animação, por onde andam os documentários universitários estrangeiros?

Em contrapartida, alguns ajustes ainda precisam ser feitos para acomodar este grupo de filmes na grade de programação regular. Os vinte curtas-metragens foram apresentados ao público numa única sessão de 3h30 de duração. Em consequência, diversos espectadores abandonaram a sala escura antes do término, e os últimos filmes foram prejudicados pelo cansaço. Teria sido fundamental adotar outra estrutura, seja dividindo os curtas em duas exibições distintas, seja efetuando uma curadoria dentro dos filmes enviados pelas universidades estrangeiras, de modo a costurar um diálogo mais coeso e dinâmico entre as propostas.
Além disso, a exibição sofreu com problemas na legendagem. Alguns filmes lusófonos continham palavras e trechos em inglês (caso de Mãe do Amanhã), exibidos sem a devida versão em português. Já os projetos dos demais países foram claramente traduzidos do texto em inglês, sem o suporte do filme para os devidos ajustes. Isso implicou em erros simples de gênero e concordância, além de traduções sem sentido. Por exemplo, quando a madrasta perversa de Punkie pergunta se a heroína terminou de comer o bolo, a questão Are you done? deveria ter sido interpretada como “Você terminou?”, ao invés de “Estão prontos?”. Diversos estranhamentos similares decorreram da tradução inadequada.
Ressalvas à parte, o Fest Aruanda pode se orgulhar dessa proposta, que visa justificar a denominação de festival internacional ao evento paraibano. Cabe esperar que, nas próximas edições, os filmes sejam inseridos de maneira mais coerente à programação, de modo a honrar a excepcionalidade desta projeção.



