Anistia 79 | “Eu trato arquivos como sobreviventes da História”, explica Anita Leandro

O grande vencedor da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi o documentário Anistia 79, de Anita Leandro. Considerado o melhor filme da mostra Olhos Livres pelo júri oficial, ele também surpreendeu com o prêmio principal pelo júri popular, que embarcou em quase duas horas de densa discussão sobre memória e história brasileiras.

O projeto parte de um encontro inesperado: pesquisando imagens de brasileiros exilados na Europa, durante a ditadura militar, a cineasta descobriu um arquivo inédito. Eram 90 minutos de filmagem em película, conservada em excelente qualidade de som e imagem, a respeito da Conferência de Roma — evento em que os grandes nomes do ativismo de esquerda, de diversas correntes políticas, discutiam a modalidade da Anistia que se desenhava no horizonte.

Em seguida, os registros feitos por Hamilton Lopes dos Santos foram mostrados às pessoas que participaram do importante evento, e também para seus filhos, hoje adultos, e nascidos no exílio. As reações foram captadas por Leandro, e colocadas em diálogo com o material de quase 50 anos atrás.

A reunião entre o presente e o passado permite entender algumas falhas estruturais da democracia brasileira, assim como as estratégias e discursos da esquerda da época. Anita Leandro conversou com o Meio Amargo sobre o filme:

Você afirmou que sentia grande responsabilidade pela maneira como utilizaria o material de arquivo. Como enxerga sua relação com esta filmagem alheia?
Anita Leandro: A questão do material de arquivo é muito delicada. Eu trato os arquivos como sobreviventes da História, e um sobrevivente muito particular. Esse material sobreviveu por um triz, quase por infração — afinal, ele se relaciona com um período da ditadura muito particular, que nós conhecemos pouco ainda. Nós ainda ignorávamos a Conferência de Roma, o conteúdo dela e a magnitude desse encontro, ou seja, a importância dele para as esquerdas brasileiras e o debate sobre democracia no mundo. Este é um registro raro da diáspora brasileira no exílio. As pessoas ali foram muito importantes na resistência da ditadura, e não restava nenhuma imagem em movimento.
Então, como trabalhar este material, que é testemunho vivo de um período desconhecido, com tantas pessoas importantes para a gente? Você tem ali nomes importantes da luta armada, como Apolônio de Carvalho, um dos maiores intelectuais brasileiros da luta política. Você tem Manoel da Conceição, pedagogo, um dos maiores líderes camponeses que esse país já conheceu. Naquele encontro, nós temos três gerações. Você tem os veteranos, esses que eu acabei de citar. Você tem a geração de 1968, e tem a nova geração, nascida no exílio. São quatro ou cinco crianças que aparecem.

Com um personagem, você pode inventar alguma coisa. No documentário, você só pode inventar a forma.

Então é uma tautologia falar de responsabilidade na montagem, tanto no documentário quanto em qualquer forma de cinema. Eu não faço muita distinção entre documentário e ficção em termos éticos, enquanto representação. Mas com o documentário, tem este acréscimo: antes de tudo, são pessoas presentes ali. Com um personagem, você pode inventar alguma coisa. No documentário, você só pode inventar a forma. Nossa invenção está na forma, não nas histórias contadas

Um fator determinante no seu filme vem do fato de você não fazer perguntas. As pessoas estão livres para reagirem àquele material, da maneira que for.
Anita Leandro: Eu não faço entrevistas. Fui jornalista por tempo suficiente para entender que a entrevista, no documentário, é de pouca valia. Ela vale no documentário estritamente informativo, mas aí não é mais documentário, é reportagem, é outra coisa. O próprio Coutinho não fazia entrevistas, ele mesmo falava: “São conversas”. Não tem pergunta, exatamente. No nosso caso, o arquivo é essa delimitação. As pessoas falam diante e a partir da imagem. Elas vão e voltam a essa imagem o tempo todo — toda fala gira em torno daquele evento.
Mas ali as pessoas estão livres para lembrarem de outras coisas, do que veio antes, do que veio depois, e, sobretudo, para elaborarem uma memória que às vezes é muito mais afetiva do que histórica. Aquele material afeta cada espectador de uma forma diferente. O espectador jovem de hoje vai ver com um olhar de curiosidade, de identificação ou não. A pessoa que viveu aquilo ali, que está presente nas imagens, recebe esse material com muita emoção. São os amigos delas, ou são elas próprias quando eram jovens. Tem vários amigos, parentes, pessoas queridas. Essa memória afetiva constitui a memória histórica também. Porque uma pessoa como a Heloísa Greco, que é historiadora de formação, assiste à mãe dela presente, e fica muito emocionada. Mas, ao mesmo tempo, ela tem o recuo de historiadora.

Eu não faço entrevistas. Fui jornalista por tempo suficiente para entender que a entrevista, no documentário, é de pouca valia.

A imagem está sempre mediando esse encontro entre o passado e o presente. Ela serve também como uma espécie de janela para as pessoas filmadas. Caso elas não queiram falar nada, podem ficar totalmente em silêncio, e isso é lindo também. Afinal, as imagens da história não contam tudo. Elas são permeadas de lacunas, elas são restos, elas são sobrevivências. São o que sobrou da ditadura. Então, o que você faz com as sobras? O que resta da ditadura? Restam algumas imagens. Restam algumas pessoas. Por exemplo, acabamos de perder o Sílvio Da-Rin, que foi preso, torturado.
O material de arquivo exige nos desvencilharmos de ideias pré-concebidas, e do nosso discurso sobre a história. É por isso que eu renuncio às perguntas, que já condicionam a uma resposta possível. A pessoa te ouve e pensa: “Ah, ela deve estar querendo saber isso”. Então fala da tal jeito. Se, ao contrário, você não faz entrevista, e coloca as pessoas diante de imagens, cada espectador vai reagir de um jeito. Se você mostra a imagem duas vezes, eles vão reagir de forma diferente. Porque nós não somos os mesmos diante de uma imagem hoje, e de uma imagem amanhã.

Anita Leandro. Foto: Leo Lara/Universo Produção
Anita Leandro. Foto: Leo Lara/Universo Produção

Acho muito interessante te ouvir falar sobre emoções, porque a descrição dos crimes e torturas poderia levar a um filme melodramático, ou de indignação e acusações. Mas não tem nada disso em Anistia 79.
Anita Leandro: O filme nos chama ao debate. Isso acontece porque o material da Anistia, esses 90 minutos de material sobre o qual eu me dediquei na montagem, com a Isabel [Castro, co-montadora], já traz esse debate. Esse material mostra um momento de alegria. As pessoas já sofreram tudo que podiam em relação à luta, desde 1964. Alguns deles eram combatentes desde os anos 1930. Apolônio de Carvalho lutou na Guerra de Espanha, lutou na resistência francesa, tem uma medalha de honra ao mérito do governo francês, medalha da Espanha, e depois veio a luta armada no Brasil. Então, 90% daquelas pessoas foram presas, torturadas, aviltadas, perderam os parentes, perderam toda a sua juventude. Tudo isso em nome de uma causa. Então ali é um momento de encontro. Encontraram pessoas que estavam vivas, mas achavam que estavam mortas, e afluíram de vários lugares, trazendo notícias quentinhas do Brasil. O pessoal no exílio era ávido por notícias, porque na época, não tinham notícias, a censura estava por todo lado.

Aquele acontecimento é único na história das esquerdas brasileiras, o maior encontro da diáspora brasileira no exílio.

Quando fiz a pesquisa, tropecei nessas imagens por acaso. Estava na França e na Alemanha, buscando imagens de exilados, mas não tinha nada, ou quase nada. No meio de 14.000 reportagens dos arquivos franceses, 13.950 deviam ser sobre Carnaval e Amazônia. O resto era futebol e os ditadores visitando a França para fazer acordos econômicos. Então aquele acontecimento é único na história das esquerdas brasileiras, o maior encontro da diáspora brasileira no exílio. E as pessoas estão felizes de se encontrar. Isso passa para o espectador de hoje. Por isso, o conteúdo das conferências, apesar de dramático, não convoca de forma nenhuma a piedade.

O filme menciona de maneira ampla as demandas por anistia ainda hoje, mas você escolhe não fazer nenhuma ponte direta com Bolsonaro e a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro. Por quê?
Anita Leandro: O que acontece no Brasil de hoje está intimamente ligado à Lei da Anistia. No artigo primeiro, a lei determina que estão anistiados todos aqueles que cometeram crimes políticos e conexos com este. Isso é muito importante de explicar no Brasil de hoje. O que é o crime conexo, do ponto de vista jurídico? Se você é um guerrilheiro, você organiza a captura de um diplomata e, no caminho, você rouba um carro para chegar até o consulado. A captura do diplomata é um crime político. O roubo do carro é um crime comum — um crime conexo com o crime político. Isso é conexidade.
Os militares, de forma bastante perversa, interpretaram essa conexidade como reciprocidade, ou seja, você é torturador, você me torturou; eu sou anistiado, e você também. Essa reciprocidade teve como consequência a impunidade dos torturadores, e teve como consequência Bolsonaro e o 8 de Janeiro. Por quê? Porque o crime compensa. Ninguém foi punido, ninguém foi preso, nenhum general. Não houve justiça de transição no Brasil. De todas as ditaduras da América Latina, o Brasil é o único país onde não houve justiça de transição permitindo a punição dos responsáveis. Todos os outros países julgaram.

O que acontece hoje no Brasil é uma grande ignorância em relação ao que significa anistia. O termo foi apropriado pela extrema-direita, que pede hoje anistia para golpistas.

A Argentina está na pior hoje, mas é aquilo o Jean Marc van der Weid diz no filme: “Na Argentina não tem tentativa de golpe militar. Aqui tem todos os dias”. E aqui tem tentativa de golpe todos os dias, porque a justiça brasileira não fez o dever de casa. A sociedade brasileira não fez o dever de casa. Ou seja, não continuou a luta pela Anistia. Depois de 1979, as pessoas saíram da prisão, todo mundo voltou, todo mundo se engajou nas lutas populares. Foi o momento da criação do Partido dos Trabalhadores, do Movimento dos Sem Terra, o movimento negro, o movimento das mulheres, o movimento estudantil.
Então, as pessoas querem virar essa página e viver outra coisa. Foi preciso chegar nos anos 2000 para começarem os esculachos na porta das casas dos torturadores, em algumas capitais brasileiras. O esculacho ainda é uma coisa gentil, perto do que eles mereciam, que é a prisão. O que acontece hoje no Brasil é uma grande ignorância em relação ao que significa anistia. O termo foi apropriado pela extrema-direita, que pede hoje anistia para golpistas. Pede anistia para pessoas que organizaram o assassinato do presidente da República, do presidente do Supremo e do vice-presidente da República. É em cima da ignorância que vem esse discurso de anistia para torturador, para golpista, para pessoas que atentaram contra a democracia.
Acho que o filme fala disso tudo, sem falar. Como não pensar no que é feito hoje? A anistia que a extrema-direita reivindica, hoje, é vazia de sentido, não tem ancoragem na história. É anistia para os amigos.

Heloísa Greco. Foto: Leo Lara/Universo Produção
Heloísa Greco. Foto: Leo Lara/Universo Produção

Essa anistia solicitada hoje se vende como um perdão, num teor quase cristão — embora ninguém tenha se desculpado por nada do que fez.
Anita Leandro: Mas é um perdão. A anistia é um perdão. Agora, esse perdão tem que ser solicitado, para pessoas que já foram julgadas e condenadas. Aqui, já pediam anistia para Bolsonaro antes mesmo de ser julgado, e para todos os participantes do golpe. Inventaram uma anistia prévia, uma licença para cometerem crimes, um direito nato à impunidade.
No filme, o que não está claramente discutido, como essa questão da justiça hoje, é o que o espectador vai trazer. Eu conto com o espectador, por isso fiquei muito feliz no momento da estreia aqui em Tiradentes, quando o público aplaudiu a conferência da Linda Bimbi. Aplaudiram junto com as pessoas de 1979 , e junto com o Zé Pedro, que também está aplaudindo. O espectador entra no filme como se fosse um teatro. Pensei nisso quando estava montando. A gente realmente pode se colocar no lugar das pessoas em contextos diferentes; e é a montagem que constrói esse lugar para o espectador.

Aqui, inventaram uma anistia prévia, uma licença para cometerem crimes, um direito nato à impunidade.

Nós temos que construir isso enquanto pensamos na filmagem e na montagem. Como filmar alguém, deixando o espaço vazio na cena para o espectador encontrar o seu lugar? Preservando o intervalo intransponível entre duas imagens, de forma que o espectador, vendo esse intervalo, se aproprie e faça ele próprio a sua montagem. É algo assim que eu e Isabel procuramos fazer. Discutimos muito sobre a importância dos intervalos, de uma história lacunar, cheia de buracos. Nós temos uma história que começa apenas a ser contada.

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