A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero (2024)

Dois animais agonizando

título original (ano)
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero (2024)
país
Brasil, Argentina, Canadá, México
gênero
Drama, Fantasia
duração
14 minutos
direção
Rodolpho de Barros
elenco
Luiz Carlos Vasconcelos, Ingrid Trigueiro
visto em
20º Comunicurtas

Nos palcos do Cine São José, durante a apresentação no 20º Comunicurtas, o ator Luiz Carlos Vasconcelos descreveu este curta-metragem como “o encontro de duas pessoas”. Trata-se de uma descrição surpreendentemente simples, e também precisa, para um filme de exceção, navegando entre a fantasia, o suspense, o romance e a fábula filosófica. No caso, um homem encontra, de fato, uma mulher. O único cliente de um café minúsculo (Luiz Carlos Vasconcelos) começa a interagir com a triste garçonete do estabelecimento (Ingrid Trigueiro). 

O crachá com a palavra Marta, colado ao peito, o motiva a chamá-la incontáveis vezes pelo nome. “O senhor gostou do meu nome, né?”, ela brinca. A cena é descrita pelo personagem masculino, que se dirige com frequência ao espectador, quebrando a quarta parede. Para nós, ele descreve a presença feminina no local enquanto figura deprimida, perdida, de aparência carente. Com ela, começa a discutir a natureza e os hábitos das moscas (o díptero braquícero do título), a partir do instante em que o inseto cai em seu prato.

Ao contrário da mosca, que luta desesperadamente para sobreviver, Marta parece ter aceitado sua sina, ele conclui. A mulher escuta suas falas por simples distração, já que, aparentemente, não possui outras atribuições no café naquele momento. Algo neste dispositivo nos remete à dramaturgia de A Mais Forte, de Strindberg, onde duas mulheres se confrontam num café. Uma fala demais, e a outra, nenhuma palavra sequer. A primeira insulta a segunda, que a escuta sem parar. Quem detém o poder, entre as duas? Aquela que parte para o ataque, ou a outra bastante confortável na defesa? Algo semelhante ocorre aqui: quem de fato controla o espetáculo? (Enquanto isso, o gesto de devorar o inseto nos remete à Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector).

Outras referências seriam possíveis neste cruzamento tão complexo de sentimentos e falas. O texto denso e provocador, adaptado do livro de Bruno Ribeiro, faz com que a interação entre eles passe da arrogância à sedução, da empatia à provocação. Luiz Carlos Vasconcelos devora um monólogo longuíssimo, através de um personagem que se esforça até demais para impressionar. Já Ingrid Trigueiro evita o estereótipo da melancolia, ocultando o olhar cansado por baixo do súbito interesse na fala deste cliente histriônico. Ele constitui o típico narrador em off, com a exceção de estar bem presente em cena, tal qual um mestre de cerimônias, buscando entreter a única figura da plateia.

Rodolpho de Barros suspende o realismo por meio de escolhas formais que apontam ao horizonte de fantasia: o cinemascope bem elegante, o preto e branco distante do naturalismo, a fala empolada do ator. Este mundo representa claramente um cenário, uma espécie de ringue previsto para o enfrentamento entre ambos. Nada virá interrompê-los — nem a chegada de outro cliente, uma ligação telefônica, ou semelhantes. Durante a curta duração da narrativa, existem somente os dois em cena, com o acréscimo da importante mosca no prato. Adiante, o animal asqueroso e combativo apodera-se, quase literalmente, da trama.

Assim, A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero se converte numa fábula kafkiana, tão romântica quanto asquerosa, tão divertida quanto sinistra. O cineasta demonstra domínio impressionante da mise en scène — especialmente quando opta por deixar uma frase fundamental no texto sobreposta a um black, à tela preta, para que o espectador se projete naquela lacuna e construa por si mesmo as imagens que faltam. A narrativa possui a duração ideal para seu formato, assim como a compreensão de que o curta-metragem implica numa linguagem própria, ao invés de se contentar em ser um mini longa-metragem. Poucos filmes adaptariam tão bem um conto de natureza mais introspectiva do que imagética, com tamanha potência de imagem e som.

A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero (2024)
10
Nota 10/10

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