
O reputado maestro Thibaut (Benjamin Lavernhe) sofre um colapso durante um ensaio de orquestro. Na linguagem do drama, todos sabemos o que isso significa: doença grave. Na cena seguinte, ele busca um doador de medula óssea. Faz os testes com a irmã, porém, recebe a notícia da incompatibilidade — até porque, para a surpresa dele, não são irmãos biológicos. Thibaut se descobre adotado, o que implica na necessidade de encontrar a família de origem para realizar a cirurgia. Descobre um irmão, que — vejam só — também é apaixonado por música. E compatível à doação. A cirurgia se faz.
Este poderia ser o resumo de um longa-metragem inteiro, embora ocupe somente os 20 minutos iniciais de A Fanfarra. O diretor Emmanuel Courcol demonstra uma pressa injustificável em acumular conflitos enquanto ponto de partida para a jornada tanto do músico profissional quanto de seu irmão recém-descoberto, Jimmy (Pierre Lottin), músico amador. Ele interpreta o drama na acepção mais tradicional do termo, ou seja, doenças, sofrimento, duras revelações familiares, reconciliações, lágrimas, redenção por meio da arte. Este seria o coquetel perfeito para uma telenovela — inclusive, pelo acesso direto e nada discreto às emoções, conquistou surpreendentes 2,6 milhões de espectadores na França.
O roteiro pretende unir amplas diferenças sociais: o campo e a cidade, o bruto e o sensível, o rico e o pobre, o patrão e o operário, o erudito e o popular. A arte constituiria a liga mágica.
A aproximação entre ambos se torna uma evidência, mesmo uma promessa. Através deste encontro, o roteiro pretende unir amplas diferenças sociais: o campo e a cidade, o bruto e o sensível, o rico e o pobre, o patrão e o operário, o erudito e o popular. A arte constituiria a liga mágica, permitindo acalmar as feras e promover a empatia entre sujeitos tão diferentes, ainda que unidos por uma medula. “Você tem o sangue do meu pai?”, pergunta a sobrinha. O texto ainda sugere que a paixão pela música seria curiosamente hereditária, reservando ao irmão pobre o dom do ouvido absoluto, que ele mal pode exercitar em sua pequena fanfarra de bairro. Mais do que uma novela, a premissa se presta à fábula.
De repente, os trabalhadores sindicalizados da pequena usina de Wilancourt, onde trabalha Jimmy, precisam de um maestro para a sua fanfarra. Ora, ora, quem poderia assumir a função? A bela Sabrina (Sarah Suco) anda às voltas do colega de trabalho — o que poderia acontecer entre os dois? O projeto se baseia numa previsibilidade sublinhada, na forma de um cinema de reconforto. Ninguém vai a uma sessão de A Fanfarra esperando surpresas e provocações, unicamente a confirmação de que o mundo pode ser melhor, e as dificuldades desapareceriam caso todos dessem as mãos e entoassem uma melodia juntos. Trata-se de uma visão ingênua, sonhadora, e adequada a um segmento da arte que assume a função de escapismo. Segundo esta forma de criação, deve-se retratar o mundo como ele poderia ser, ao invés do mundo tal qual o percebemos.
O sucesso da empreitada depende bastante da atuação da dupla central. Felizmente, ambos estão ótimos em seus papéis. Embora Lottin esteja cada vez mais preso aos tipos agressivos e malandros (vide Quando Chega o Outono e A Noite do Dia 12), ele se mostra confortável neste interesse pela música com ares de despreocupação. O rapaz precisa ser tão apaixonado pelas artes quanto cansado dos fracassos nesta área, algo que o ator transmite sem esforços. Entretanto, quem rouba os holofotes é Benjamin Lavernhe, oscilando entre a gentileza e o privilégio de classe, entre a austeridade do músico treinado e uma disposição sincera a se misturar ao povo.
Assim, a narrativa sugere que ambos atenuem suas arestas até encontrarem um meio-termo em comum: o irmão arisco se torna mais dócil, enquanto o outro, um tanto esnobe, baixa as guardas e compreende a realidade dos ativistas. De certa forma, os dramas de reconciliação entre diferenças, sobretudo aqueles banhados por música, constituem um gênero à parte no cinema francês. Estes projetos dominam o terreno importante dos filmes do meio — aqueles nem ousados demais para incomodar o público médio, nem apelativos demais para incomodar os críticos. Efetuam a ponte entre o cinema hermético, pensado para festivais, e as comédias rasgadas envolvendo personagens que tropeçam e caem. Ao sugerirem um mundo melhor, passam a impressão de humildade e generosidade. De Intocáveis a A Fanfarra, passando por A Voz do Coração, A Riviera Não É Aqui, A Família Bélier e Entre Dois Mundos, entopem o circuito comercial francês.
Courcol comanda as imagens e sons com a segurança de quem não pretende ofender, e recusa-se a chamar atenção para si próprio. Por isso, trabalha com planos e contraplanos simples, abrindo os enquadramentos somente na hora de abarcar orquestras e fanfarras inteiras. Opta por músicas seguras (o Bolero de Ravel, é claro), paisagens seguras (a união na praia, o cais à noite), quiproquós inconsequentes (a noite na prisão, quando Thibaut e Jimmy se conhecem de fato), e uma utilização de som, fotografia e direção de arte meramente funcionais. Nenhuma escolha estética provoca, perturba, ou recorre a metáforas. Em paralelo, nada se exige do espectador, a quem é oferecida uma mensagem devidamente esmiuçada. Pode-se falar numa linguagem cartesiana e acadêmica, reduzindo à mise en scène à funcionalidade de um excelente eletrodoméstico.


É improvável que o cineasta se interesse de fato pelas lutas trabalhistas — o fechamento da usina serve como mero pretexto para aumentar o sofrimento e catalisar a união dos heróis —, ou pela psicologia do sujeito, que se descobre adotado aos 37 anos, e mal tem tempo de digerir esta informação. Pelo menos, ao navegar em terreno melodramático, o projeto corre igualmente na parte dos sentimentos, avançando com implacável pragmatismo. Em outras palavras, ele explora todos os motivos clássicos da chantagem emocional (novas doenças e colapsos em público no terço final), porém, com tamanha rapidez que nunca permite aos personagens (ou ao espectador) se apiedar por quem quer que seja.
Ao final, A Fanfarra produz uma espécie de humanismo funcional, empacotado num produto eficaz. Trata-se de um filme que dificilmente desagradará a quem quer que seja — tanto conservadores quanto progressistas, tanto as gerações mais velhas quanto as mais jovens. Apela a sentimentos universais, formas conhecidas e recompensas esperadas. Courcol investe num cinema utópico, menos no sentido de experimentar alguma ousadia, do que na busca por agradar moderadamente ao máximo número de pessoas possível. Talvez não fique na mente por muito tempo após a sessão, mesmo assim, desperta diversos sorrisos durante a experiência. Para muitos criadores, e para muitos espectadores, isso é o bastante.




