
A Rede parte da ambição de reunir diversas gerações de mulheres, de diferentes etnias e classe sociais. A diretora Beatriz Lima demonstra uma curiosa compreensão histórica, evitando tanto a linearidade (a noção estrita de causa e consequência, como se uma geração possuísse tais características por causa da anterior) quanto a noção de progressismo (pensando que as coisas tendem a melhorar naturalmente, com o passar do tempo). Acredita-se que suas personagens se sucedem umas às outras, meramente — cabendo ao olhar da direção constatar sua existência ao longo das décadas.
O objeto escolhido para tecer tal rede é, justamente, uma rede. De maneira tão direta quanto literal, a tessitura do tempo se converte em tessitura do tecido utilizado para a confecção do item. Ao menos, compreende-se com impressionante complexidade a noção de um saber ancestral, e de uma cultura negra, sendo reapropriada por pessoas brancas e pelas classes privilegiadas, que ignoram a origem do símbolo que possuem em mãos. O filme aborda a descontextualização desta cultura, e sua posterior reivindicação por mulheres negras.
Logo, partimos de um contexto de escravidão a um apartamento moderno, onde livros de Ailton Krenak empilham-se sobre os móveis. A Rede aborda a transmissão de conhecimento entre gerações, e também a conexão entre as feridas de um passado violento e a busca pela configuração, orgulhosa e crítica, de uma negritude contemporânea. Trata-se de um escopo particularmente ambicioso para um projeto de duração sucinta. Compreende-se, portanto, a escolha pelas ferramentas da alegoria e da fábula, capazes de proporcionar o devido distanciamento do real. (É preciso se afastar da realidade para observá-la em sua totalidade).
A estética específica do stop motion contribui a este estranhamento, e também à ludicidade necessária para abordar tais feridas históricas. Interessa, em particular, que os bonecos tenham sido confeccionados por diferentes artistas, de distintos Estados brasileiros, que atribuem traços e texturas próprias a cada parte da narrativa. Através desta representatividade geográfica, busca-se uma forma de abarcar o Brasil inteiro neste panorama.
É claro que tais saltos implicam numa simplificação dos contextos sociopolíticos, diluídos pelas lacunas da montagem elíptica. No entanto, a narrativa assume a alusão a períodos determinantes, sem necessariamente buscar justificá-los, nem apresentá-los pela primeira vez ao espectador. A rede possui o escopo ideal para um curta-metragem, e se destaca pelo belo tratamento de luz sobre os cenários e objetos. Por trás da aparente docilidade dos bonecos e dos contextos, aborda de maneira particularmente instigante as falhas estruturais da nossa sociedade.






