A Última Lágrima: Uma Lenda Perdida no Tempo (2025)

A fantasia ostensiva

título original (ano)
A Última Lágrima: Uma Lenda Perdida no Tempo (2025)
país
Brasil
gênero
Fantasia
duração
14 minutos
direção
Victoria Zolli
elenco
Yasmin Aimée, Bárbara Aquino, Artur Trindade, Giovanna Santos, Lariza Squeff, Rodrigo Caldeira
visto em
24º Curta-SE (2025)

Em primeiro lugar, o filme dirigido por Victoria Zolli impressiona pelo preciosismo na produção. Ciente do caráter fabular e fantástico que têm em mãos, os criadores tratam de iluminar e, principalmente, sonorizar as cenas a contento. Não existe uma única imagem sem cuidado evidente de fotografia, ou algum instante menosprezado pela criação de sons e da trilha sonora. Ao referenciar a lenda caiçara da Gruta que Chora, todos buscam uma forma de cinema grandioso, de “encher os olhos” — e ouvidos, neste caso, dada a importância da orquestração. Ainda que trabalhe em pequeno escopo narrativo e orçamentário, a equipe sonha bem alto.

Em muitos aspectos, o resultado funciona. Entre todos os curtas-metragens apresentados no primeiro dia do 24º Curta-SE — Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe, este foi aquele que se destacou, positivamente, pela sofisticação e profissionalismo da obra. Curiosamente, a ambição pode mesmo ser considerado excessiva. Através de enquadramentos pensados para transparecer o rosto da atriz através de um buraco na porta, ou os olhos da mãe por baixo da cama, a direção reflete uma estética do controle e da precisão que, em alguns instantes, beira o aspecto publicitário (a materialização do dragão em efeitos visuais) e do videoclipe (o corte da manhã para a noite, despertando a cena musical).

Logo, a representação da lenda chama mais atenção para a linguagem do que para a narrativa em si. A presença de três casais, envolvendo relacionamentos homoafetivos, pessoas indígenas e negras, além da repressão das famílias e do feitiço pelos animais mágicos, resulta saturada para um roteiro tão curto. O projeto deseja condensar mais conflitos, reviravoltas e personagens do que consegue trabalhar a contento. Neste processo, corre o risco de reduzir o elenco a arquétipos, desprovidos de subjetividade precisa — a garota lésbica, a menina indígena, o rapaz negro, etc. Em se tratando de grupos minoritários, teria sido importante conferir maior intenção à psicologia dos mesmos, conferindo-lhes voz e protagonismo, ao invés de tratá-los como meros representantes de seus grupos sociais.

O curta-metragem também se enfraquece ao explicar a metáfora que acaba de elaborar: “A lenda nasceu para nos silenciar”, esmiúça a narração. Ora, é preciso confiar nas próprias imagens e sons, na narrativa e no trabalho dos atores e, sobretudo, na capacidade do espectador de interpretar por si mesmo. Em outras palavras, A Última Lágrima: Uma Lenda Perdida no Tempo transparece uma forma de cinema que ainda carece de maturação e depuração — precisamos do devido espaço e tempo para contemplar os cenários, os personagens e as simbologias. Mesmo assim, revela uma equipe de forte potencial e coragem ao abraçar o cinema fantástico. As melhores iniciativas decorrem de tal segurança do gesto.

A Última Lágrima: Uma Lenda Perdida no Tempo (2025)
6
Nota 6/10

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