
A premissa é capaz de despertar sorrisos por si própria. March (Witsarut Himmarat) se apaixona por um aspirador de pó ou, no caso, o fantasma da falecida esposa, que se apodera do objeto. Apesar do protesto dos familiares, inconformados com esta ligação, o rapaz não se importa. Ele conversa com a mulher amada, que continua se expressando na voz habitual, como se estivesse viva. O casal se abraça, se beija, tem relações sexuais numa fábrica. Assim, ele se recusa a efetuar o luto, enquanto Nat (Davika Hoorne) rejeita a ideia de partir. Simbolicamente, tentam trapacear a morte.
O início explora ao máximo a idiossincrasia da ideia, além do doce humor decorrente da conexão entre vivos e mortos, ou humanos e eletrodomésticos. No começo da trama, o fantasma de um funcionário assombra a usina onde trabalhava. Ninguém se apavora de fato com a ideia de um morto-vivo caminhando pelos arredores, importando-se apenas com os ruídos, os objetos possuídos, e com as inconveniências para a jornada na empresa. A mãe, avó e demais parentes de March encaram o aspirador de pó vermelho como quem observa uma namorada insistente. Parte considerável do humor surge do não-estranhamento de um ponto de partida evidentemente estranho, segundo regras naturalistas.
Uma abordagem arriscada, única. Em contrapartida, tamanhas liberdades não necessariamente implicam num filme coeso, profundo ou minimamente seguro de seu discurso.
Entretanto, o diretor Ratchapoom Boonbunchachoke não deseja que as peculiaridades repousem unicamente sobre o roteiro. Por isso, aplica uma infinidade de piadas lúdicas, mais ou menos sutis, sobre a linguagem cinematográfica. Assim, a montagem passa a encerrar as cenas com efeitos anacrônicos de íris ou cortina. Personagens são posicionados em enquadramentos improváveis (o médico com o rosto escondido atrás de uma planta, sem motivo evidente para tal). A trama se inicia com uma série de tableaux vivants que não retornam mais. Os espaços iniciais apostam em cores fortes e pastéis, claramente artificiais — a exemplo da sequência da estátua e da destruição.
A Useful Ghost: Uma Ajuda do Além adora aproveitar suas liberdades criativas, por assim dizer. Inúmeros acontecimentos inesperados se sucedem ao longo de 136 minutos de narrativa, passando do discretamente cômico à comédia pastelão; do erótico ao terror. O roteiro possui personagens demais, reviravoltas em excesso, além de incontáveis bifurcações e subtramas. A partir da segunda metade, em particular, a curiosidade do aspirador de pó amoroso se atenua devido à insistência, e restamos com uma jornada cujos rumos beiram a aleatoriedade. Nota-se um aspecto juvenil na maneira como as pequenas ousadias (sexo gay, luta entre eletrodomésticos possuídos) surgem sem peso, nem consequência real na trama. A narrativa transparece maior prazer na elaboração de ideias improváveis do que no desenvolvimento e coerência entre elas.
Por isso, temas importantes se perdem entre picardias, e discussões sérias recebem o mesmo tratamento de gags banais. O longa-metragem busca discutir, entre outros, a questão dos direitos trabalhistas na Tailândia, o impacto contemporâneo do massacre da Universidade Thammasat, o apagamento da memória e da história do país, e a aceitação social de gêneros e sexualidades não-hegemônicos. Trata-se de questões de evidente relevância, e cada uma delas poderia ganhar sua própria obra (ou diversas obras) para se aprofundar. No entanto, aqui, estes temas se fundem à visita noturna do aspirador de pó ao hospital, à limpeza de um cílio no olho do Ministro da Cultura, e a um aparelho se contorcendo no chão da fábrica, devido à presença de uma alma humana.
Entre tantos tons, as atuações se mostram indecisas, assim como a direção de arte. Alguns atores encarnam seus personagens como se habitassem um drama seríssimo (caso de Apasiri Nitibhon), enquanto outros pertencem, digamos, ao “núcleo cômico” desta novela (Wisarut Homhuan, em particular). Ora o departamento de arte precisa criar o estúdio bagunçado e naturalista de seu ladyboy, ora imagina um hospital clandestino com uma espécie de parede de espinhos, sem justificativa para além de sugerir um futurismo e desconexão com a realidade. A fotografia, em paralelo, oscila entre uma frontalidade quase banal das imagens e luzes, e o aspecto onírico-fabular. Aparente, há ideias e vontades em excesso, que não contribuem necessariamente a contar uma mesma história.
Por isso, chegada a reta final, quando a narrativa pretende discutir a corrupção de mortos-vivos e a possível vingança de fantasmas pelo massacre de 2010, o espectador pode se perder entre a gravidade repentina, o tom jocoso do aspirador, e o aspecto levemente sensual do encontro entre Krong e o Ladyboy. Boonbunchachoke tem muito a dizer, porém, não consegue estabelecer um senso de prioridade, nem mesmo eleger uma forma única de contá-lo. Esta sensação transparece sobretudo no terço final, quando a história hesita várias vezes sobre quando e como se encerrar — isso porque os imbróglios paralelos poderiam continuar, indefinidamente. Há maior prazer no percurso no que na resolução.


A Useful Ghost termina na condição de bela curiosidade. Ele dificilmente será esquecido pelos espectadores — uma qualidade notável entre tantos filmes intercambiáveis, que procuram o consenso e o gosto médio. O cineasta abraça uma abordagem arriscada, única, sem medo de partir para todos os lados possíveis. Em contrapartida, tamanhas liberdades não necessariamente implicam num filme coeso, profundo ou minimamente seguro de seu discurso. Aqui, a transgressão constitui meio e finalidade: a obra está muito contente em ser queer, alegre, improvável, afrontosa. Adora destruir estruturas (narrativas, políticas), embora não necessariamente construa reflexões sólidas sobre os escombros.
PS: A distribuidora Pandora Filmes, que conta com alguns dos filmes mais interessantes do circuito comercial, precisa tomar cuidado com a legendagem de seus lançamentos. No caso do filme tailandês, uma vez mais, tomam-se liberdades excessivas, criando e inventando sentidos ausentes na obra original. Esta não é a função de uma legenda. Um personagem é definido como ladyboy, então, achou-se por bem chamá-lo por pronomes femininos. Que indícios havia para esta escolha? Havia algum conhecimento de uso semelhante na língua tailandesa original (visto que a tradução ao português é feita a partir do inglês)? Diversas palavras possuem traduções erradas, estranhas, incompatíveis. A versão brasileira destes filmes precisa de maior cuidado e revisão, em respeito ao espectador.



