A Vida de Chuck (2024)

Do existencialismo à autoajuda

título original (ano)
The Life of Chuck (2024)
país
EUA
gênero
Drama, Fantasia
duração
111 minutos
direção
Mike Flanagan
elenco
Tom Hiddleston, Jacob Tremblay, Benjamin Pajak, Cody Flanagan, Chiwetel Ejiofor, Karen Gillan, Mia Sara, Mark Hamill, David Dastmalchian, Matthey Lillard
visto em
Cinemas

No livro O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995), o astrônomo Carl Sagan explica que toda ciência vem popularmente acompanhada de sua versão simplificada e desprovida de comprovação científica — uma pseudociência, em suas palavras. Algo falho, impreciso, mais voltado à fé e à vontade de crença do que a um fato verificável. Para a astronomia, existe a astrologia. Para a química, a alquimia. Para a psicologia, a autoajuda. A Vida de Chuck condensa estes dois movimentos num mesmo filme: por um lado, reúne diversos pensamentos da ciência e da filosofia, e por outro, entrega-se às lições simplificadoras da autoajuda.

Ora, a referência a Sagan se justifica pelo fato de o próprio filme citá-lo diretamente. O roteiro de Mike Flanagan, escrito a partir do conto de Stephen King, parte da ideia de que nossa existência seria ínfima em escala universal. Perto de tamanhos acontecimentos no cosmos, a exemplo do nascimento e da morte de estrelas, a passagem de um único indivíduo pela Terra representaria um ato banal, incapaz de alterar a ordem superior das coisas. Existe um niilismo saudável na crença que, ao invés de nos preocupar com nosso legado ou o afeto dos outros, deveríamos perceber a vantagem de não precisarmos nos inquietar com tais problemas. Viver sem esta responsabilidade seria libertador.

Chega a ser curioso que um filme tão dedicado à ciência possa ser simultaneamente fabular e religioso. A Vida de Chuck é um filme concebido para ser uma obra-prima de celebração à vida, ao amor, à família, e a qualquer outro grande termo ou valor que se desejar. 

Em contrapartida, nossa pequenez face às galáxias serve igualmente para o longa-metragem tecer comentários a respeito de como deveríamos viver. Onde o niilismo sugere uma positiva desimportância, a autoajuda enxerga, em chave oposta, uma hipervalorização de nossa existência. “Você é uma maravilha singular, amor”, Chuck (Tom Hiddleston) declara à esposa. “Vou viver a minha vida até que ela se acabe. Eu sou maravilhoso. Eu mereço maravilhas. E eu contenho multidões”. Ou seja, a partir da constatação verificável de nossa passagem efêmera pelo universo (ciência), chega-se à conclusão que a vida é preciosa, incrível, e de que seríamos igualmente especiais (pseudociência).

O filme oscila com destreza de um campo ao outro — algo que o torna ainda mais ardiloso em seu discurso. Às vezes, observa o céu com a curiosidade do astrônomo, porém, em outros momentos, utiliza noites estreladas e sequências de pôr do sol para sugerir um momento engrandecedor. Em determinadas cenas, toma a matemática enquanto metáfora de uma verdade imutável, no entanto, em seguida, sugere que a habilidade para o cálculo faria do pequeno Chuck uma criatura sublime. Por um lado, materializa a catástrofe climática na forma de uma possibilidade muitas vezes apontada por cientistas, e por outro, utiliza a proximidade com a morte (graças ao caos global e à doença de Chuck) para permitir que o herói declare seu amor aos demais. O fim do mundo se torna uma ótima oportunidade para redenção.

Assim, chega a ser bastante curioso que um filme tão dedicado à ciência possa ser simultaneamente fabular (o terço inicial, com as placas de “Obrigado, Chuck” espalhadas pela cidade) e religioso. O projeto inteiro sustenta a aparência de um drama cristão a respeito do valor à vida, no que se incluem tanto a importância do amor romântico (heterossexual e cisgênero) quanto os toques de Carpe Diem. A narrativa evita ao máximo as menções diretas ao cristianismo, até não se segurar e sugerir que o personagem, sofrendo com dores decorrentes do câncer, se questiona “por que Deus fez o mundo”. A percepção de que existe algo maior do que nós pode desembocar numa resposta voltada ao universo (ciência) ou então a alguma divindade (fé). O discurso abraça a ambos.

Esta espécie de dualidade faz com que A Vida de Chuck possua um teor particular. Flanagan adocica diversas cenas, introduzindo bastante trilha sonora tristonha, recursos bastante artificiais de iluminação, e uma direção de arte idealizada, apoiada em cidades claramente construídas em estúdio. Em contrapartida, alguns diálogos são mordazes, impiedosos, repetindo o mantra “Que merda” diante da eminência do fim do mundo. O tom de voz sarcástico de Nick Offerman também atribui malícia à condução da narrativa. Embora ele fale até demais (sobretudo no Ato II), ajuda a desconstruir uma expectativa de generosidade e bom-mocismo por parte do protagonista. Este é um filme “que celebra a vida”, segundo uma citação incluída no trailer, mas que também sabe mandar os desafetos ao inferno.

Uma sequência exemplifica bem esta indefinição de tons — ou melhor, a tentativa utópica de conciliar os olhares piedoso e impiedoso. Ao se deparar com uma baterista tocando na rua, Chuck se empolga e começa a dançar, na frente de todos. As pessoas param, acompanham o movimento, o que aumenta a temperatura tanto de sua dança, quanto do ritmo orquestrado pela artista. Trata-se de uma magia típica dos musicais, uma forma de parêntese da vida habitual. A fantasia que se afasta do real para melhor analisá-lo. 

Entretanto, assim que a sequência acaba, os personagens passam dez minutos comentando o que acabou de acontecer: Por que você parou? Por que dançou? Sempre soube dançar assim? Com quem aprendeu? Quer parte do dinheiro arrecadado? Que tal dançar de novo, em outros lugares? O real se intromete de tal modo no encantamento que termina por sabotá-lo. Enquanto cada instante racional-lógico se confronta a uma conclusão piegas e lacrimosa; cada deslumbre provocado pelo realismo fantástico se rompe graças à intromissão forçada do real. Isso vale para os apagões, para os painéis de “Obrigado, Chuck”, para as piadas com PornHub e afins. Flanagan deseja que este conteúdo seja tão leve quanto grave, tão profundo quanto desimportante, tão paródico quanto emocionante. A conta nem sempre fecha.

O mesmo pode ser dito do sótão da casa onde o menino cresce. Este ambiente é tratado ora pelas ferramentas do terror, ora pelo drama, e às vezes pela magia e o melodrama. O espaço é sobrecarregado de estímulos, símbolos e sensações. Este é um pequeno espaço onde se enxerga a vida e a morte, de si e dos outros. Corresponde a uma lembrança do pai e da própria infância; um lugar do qual ter medo e esperanças — mas também abnegação, dúvidas, consciência de sua pequenez e de sua profunda importância em relação ao universo. A Vida de Chuck é um filme concebido para ser uma obra-prima de celebração à vida, ao amor, à família, e a qualquer outro grande termo ou valor que se desejar. 

Ora, obras-primas são raramente programadas para funcionar enquanto tais. A atribuição chega a posteriori, pelo olhar de terceiros. Este caráter ultra calculado, tentando agradar a todos, apelar a todas as sensibilidades, crenças e visões de mundo, faz com que a obra dialogue um pouco com cada um, mas com ninguém em profundidade. Muitas vezes, o cinema de risco (e também de recompensa) é aquele capaz de adotar um ponto de vista, um posicionamento firme (estético e político) até o fim. Ora, esta iniciativa seria o equivalente de um centro político — uma postura “nem um, nem outro”, sugerindo que precisamos apostar em conciliações intermediárias entre ciência e fé, entre tradição e modernidade. Todos precisariam ceder um pouco. Mas quem acredita em tudo, no final, não acredita em coisa nenhuma.

A Vida de Chuck (2024)
5
Nota 5/10

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