Animais Perigosos (2025)

O homem é o tubarão do homem

título original (ano)
Dangerous Animals (2025)
país
Austrália, EUA, Canadá
gênero
Terror
duração
98 minutos
direção
Sean Byrne
elenco
Hassie Harrison, Jai Courtney, Josh Heuston, Ella Newton, Liam Greinke, Rob Carlton
visto em
Cinemas

Onde se traça o limite da verossimilhança num filme? A partir de qual momento os artifícios da ficção deixam de ser toleráveis, tornando-se difíceis de acreditar? No caso de um filme de tubarões, envolvendo um perverso assassino em série, o quanto de liberdade poética é considerado divertido, favorecendo a imersão na trama, e quando se determina que os criadores passaram dos limites? Esta pergunta vem à mente diante de Animais Perigosos. Na sessão de imprensa, diversos colegas riam ao longo da trama. Depois, saíram indignados, reclamando de uma trama “absurda demais”. 

Ora, os criadores afirmam desde a primeira cena que as coisas terminarão mal para os protagonistas. Mencionam-se “iscas vivas” para alimentar os bichos, enquanto Bruce Tucker (Jai Courtney) ostenta de imediato a expressão de um sujeito maníaco e perigoso. Ao aceitar o dinheiro de uma dupla solitária para o mergulho dentro de uma gaiola, ele pergunta, com ares sinistros: “Então ninguém sabe que vocês estão aqui?”. Ambos serão rapidamente perseguidos e, de certo modo, punidos por sua ingenuidade. O terror adora recompensar as pessoas gentis ou crédulas demais com uma morte violenta — alertando ao espectador a respeito dos perigos de agir de maneira semelhante.

O diretor Sean Byrne deseja mostrar que seres humanos podem ser muito mais cruéis do que as gigantescas criaturas no mar.

A linguagem cinematográfica acompanha a assumida falta de gentileza. Os efeitos sonoros de susto e antecipação são altíssimos — talvez para despertar o espectador sonolento, ou que esteja olhando para a tela do celular. Assim, caso não se espantem com animais famintos e pescadores psicopatas, despertarão pelo estímulo primário da banda sonora gritando aos ouvidos. Seguem-se imagens de tubarões deslizando em direção à câmera, e de Bruce dançando em comemoração a uma nova morte bem-sucedida, enquanto a mocinha ingênua, Heather (Ella Newton), choraminga quando está prestes a ser devorada: “Eu quero a minha mãe!”. Instaura-se uma oposição violenta entre o sujeito monstruoso e a moça dócil até demais — uma Chapeuzinho Vermelho face ao lobo, ou a Maria do conto diante da bruxa. O longa-metragem atualiza o embate de forças típico das fábulas infantis.

O discurso tampouco faz surpresa a respeito de seu discurso. Partindo do roteiro de Nick Lepard, o diretor Sean Byrne deseja mostrar que seres humanos podem ser muito mais cruéis do que as gigantescas criaturas no mar. Os verdadeiros “animais perigosos” dos títulos nacional e internacional são, na verdade, os seres humanos que se devoram pela mera possibilidade de fazê-lo. “Você e eu somos tubarões”, Bruce explica a Zephyr (Hassie Harrison), a garota combativa, e verdadeira protagonista da história. “Somos criaturas solitárias. A gente se vira sozinhos”. Caso algum espectador ainda não tenha percebido a relação reiterada entre humanos e animais irracionais, os diálogos tratam de explicitá-la. 

Os problemas se encontram menos na quantidade (expressiva, de fato) de recursos facilitadores e absurdos de roteiro, do que na tentativa de homenagear mulheres através do sofrimento. O longa-metragem admira em Zephyr sua profunda resiliência. Enquanto a colega de cativeiro é frágil e pouco inteligente, a surfista norte-americana encontra incontáveis maneiras de escapar ao cárcere — apenas para ser resgatada de novo, e de novo. A protagonista é torturada de diversas formas, sob pretexto de provar seu instinto guerreiro e vontade de viver. Em consequência, o projeto se assemelha ao torture porn, ou aos filmes de estupro e vingança, graças ao encantamento em estender, ao máximo, o calvário da jovem. 

Este procedimento também sugere que a mulher precisa merecer a liberdade. Zephyr seria mais digna de sobreviver devido à combatividade superior àquela da colega. Neste momento, o olhar deste filme escrito, roteirizado, produzido, fotografado e montado por homens parece se filiar à perspectiva brutalizante do serial killer, deleitando-se com o corpo feminino sendo sequestrado, carregado, perfurado, mutilado e machucado por homens. Ora, a ideia de que mulheres fortes no cinema equivalem a figuras ferozes e quase animalescas (correspondendo ao ideal de virilidade defendido pelos homens) é contestado no cinema há décadas.

Atenção: alguns spoilers a seguir.

Além disso, seria fácil listar a quantidade de alternativas pouco coerentes encontradas pelos autores para prolongar o jogo de gato e rato. A maneira veloz com que Moses (Josh Heuston) descobre o paradeiro da protagonista, com ajuda de um aplicativo de celular, pode despertar boas risadas de escárnio. O mesmo vale para um arpão jogado “por acaso” a uma pessoa em perigo, a uma chave de fenda convenientemente à mão, a algumas cenas de nado em alto mar e ao comportamento “milagroso” de um tubarão. Os criadores estão menos preocupados em justificar as ações do que sustentar a tensão. Deste modo, soam como crianças que inventam histórias completamente improváveis com seus bonecos e carrinhos. Aos pequenos, pouco interessa o sentido da trama toda. A empolgação de imaginar conflitos e explosões se sobrepõe. Novamente, um raciocínio infantil determina esta forma de cinema.

Talvez por isso, Byrne e Lepard tenham tanta dificuldade em encerrar a história — se toda improbabilidade é aceitável, quando dizer “chega”? Assim, diversas possibilidades de conclusão são abortadas, para se retornar a um novo perigo, e anunciar mais uma ameaça no horizonte. Se os autores pudessem, prosseguiriam com a perseguição por horas, a partir deste brainstorming caótico. “Mas o filme é uma paródia das tramas de tubarões”, alegaram alguns espectadores e críticos. “Ele ridiculariza o gênero, e demonstra a falta de lógica das convenções”. É tentador resumir esse festival maniqueísta a um comentário metalinguístico. 

No entanto, Animais Perigosos leva sua narrativa suficientemente a sério. Ele demonstra uma conduta mais autocondescendente (em estilo “A trama tem incoerências, mas paciência”) do que crítica. Apropria-se de carcereiros e encarcerados como se fossem fantoches de uma brincadeira inconsequente — as iscas vivas anunciadas no princípio. Neste sentido, mostra-se tão sincero quanto superficial. Assim como os personagens humanos e animais desta jornada, os diretores também agem por instinto, respeitando somente as regras hedonistas de seu próprio jogo, no qual mulheres atraentes e admiráveis são criaturas sobre-humanas, sofrendo, sangrando e voltando para mais luta. Determinam que a diversão cinematográfica deste predador-diretor, que filma as mortes e assiste às fitas enquanto devora o jantar, justifica o sofrimento da vítima.

Animais Perigosos (2025)
6
Nota 6/10

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