
Um longa-metragem a respeito da anistia, contendo o termo no título, provoca sentimentos fortes antes mesmo do início da sessão. Afinal, a pauta tem sido alvo de um intenso esforço por parte da direita e extrema-direita brasileiras neste último ano. Alguns defensores desta causa inclusive lembram que, décadas atrás, a esquerda já clamou pela anistia. Não seria, portanto, a mesma coisa? O filme dirigido por Anita Leandro responde que não, de modo nenhum. Trata-se de reivindicações totalmente distintas. Os defensores da anistia, hoje, solicitam a impunidade para pessoas que cometeram crimes comprovados e julgados. Entendem o pedido enquanto um “perdão”, na vertente habitual de um cristianismo clemente, abrindo um precedente para os envolvidos tentarem um novo golpe.
Em 1979, os militantes solicitavam os direitos humanos de pessoas perseguidas e/ou presas, por contestarem, direta ou indiretamente, a ditadura militar. Foram pessoas torturadas, sequestradas, ou exiladas no intuito de escapar à barbárie. (E não se pode comparar a violência dos agressores contra a resistência dos agredidos). É claro que, no processo, o projeto do governo ditatorial venceu na Câmara, e foram “perdoados” tanto os torturados quanto os torturadores, como se ambos tivesse cometidos “excessos” equivalentes. Por isso, a necessidade de seguir em frente permitia tratá-los em pé de igualdade. Vamos esquecer tudo isso. Hoje, os presos pelos atos do 8 de janeiro não foram torturados no cárcere. Passaram pelos processos judiciais previstos em lei, e não sofreram abuso de direitos humanos. Os contextos são radicalmente diferentes.
Leandro se interessa pela política menos enquanto convicção e ideologia, e mais pela vertente processual — os acordos, discussões, alianças, estratégias, documentos, termos adequados.
Felizmente, o documentário se aprofunda bastante na discussão a respeito do tema. A autora vai muito além de pró ou contra, mergulhando no contexto político da época, nas divergências dentro da esquerda, nos distintos projetos de anistia, no papel dos comitês organizados no exílio. Que exigências específicas provinham dos trabalhadores do campo e da cidade? Como explicar Anistia, Constituinte e demais termos aos operários desprovidos de instrução formal? Exigir liberdade, sem incluir demandas de igualdade e reparação, constituiria um ato meramente burguês? De que maneira era possível (e desejável) mobilizar políticos europeus para pressionarem pela causa?
Logo, Leandro se interessa pela política menos enquanto convicção e ideologia, e mais pela vertente processual — os acordos, discussões, alianças, estratégias, documentos, termos adequados. Trata-se de uma abordagem rara em tempos de bravatas e declarações de intenções (a lacração da Internet): podemos falar num pensamento político pré-redes sociais, pré-necessidade de indignação ou convencimento. No fim da década de 1970, percebendo que a anistia seria aprovada, convinha pensar de maneira inteligente para conquistar o máximo de avanços em pautas progressistas. Assim, esta obra parte de artistas de esquerda, visando destrinchar a complexidade da própria esquerda, de modo a determinar quais aspectos possibilitam dissenso, e quais exigem convergência em nome de uma causa maior.
Surpreende que o principal material de arquivo utilizado no longa-metragem tenha sido obtido quase cinquenta anos atrás, e nunca explorado até então. De sua própria vontade, Hamilton Lopes dos Santos decidiu acompanhar os comitês da Anistia no Parlamento de Roma, documentando os discursos, os debates, os abraços e encontros de corredores. Neste sentido, impressiona a qualidade desta filmagem: a fotografia é impecável, valorizada pelos tetos de vidro sobre o salão, enquanto o som, captado em Nagra, possui uma clareza impensável até para registros contemporâneos. Em oposição a tantas películas deterioradas, em versão restaurada, estes arquivos representam um belíssimo cinema em si próprio, dotado um controle estético superior a muitas ficções de orçamento considerável.
As captações atuais transparecem semelhante rigor. Pessoas diretamente implicadas naquela discussão (ativistas em idade avançada e filhos de militantes, alguns deles nascidos no exílio) são filmadas com grande cuidado de fotografia, som e montagem. Em especial, são convidadas a assistirem aos registros tão raros, manifestando sentimentos espontâneos e trazendo informações provavelmente desconhecidas pela própria cineasta. Assim, presenciam seus pais e mães na tela, além de grandes figuras da esquerda brasileira e europeia. Escutam os discursos (novamente, ou pela primeira vez), refletindo acerca dos termos e exigências da época. “Éramos uma juventude idealista”, pondera Marijane Lisboa, espantada com as convicções inabaláveis da luta contra o “imperialismo norte-americano”, por exemplo.
O encontro entre os convidados atuais e as imagens de 1979 se mostram fascinantes. Afinal, aquele era um momento de festa, conforme pontuam os personagens. Ativistas reencontravam amigos de longa data, a respeito dos quais não tinham notícias há anos — nem mesmo sabiam se alguns deles ainda estavam vivos. “Ei, Marcito!”, se exclama uma personagem, como se chamasse diretamente pelo amigo nas telas. “Volta que eu queria ver tudo de novo”, solicita outra voz à diretora. Os sorrisos se alternam com relatos de violência e de separação familiar. Mesmo assim, a cineasta nunca solicita a piedade ou comoção do espectador: as falas são profundamente eloquentes, articuladas e distanciadas. No único instante de choro, a montagem retira o rosto da mulher de cena, deixando apenas a voz trêmula, sobreposta a capturas não-referenciais.
Logo, as falas se tornam, ao mesmo tempo, estimuladas (pela presença das gravações) e espontâneas (permitindo a recordação tanto de tragédias quanto de anedotas). Refletem a propósito de como agir e como lutar, pressupondo que a necessidade de fazê-lo constitua um consenso. Em consequência, o filme também se dirige os espectadores de esquerda, diante dos quais não estima a necessidade de convencer, nem sensibilizar. (Afinal, algum espectador de extrema-direita assistiria a um filme brasileiro sobre este tema?). Por isso, a abordagem explicitamente politizada, voltada à reflexão, e evitando fornecer respostas fáceis (ou lições de moral) constitui uma raridade muitíssimo bem-vinda neste formato. Leandro se dirige a espectadores estimados inteligentes, capazes de debater a partir de conceitos intricados. Nunca nos pega pela mão, nem simplifica seu conteúdo para facilitar o entendimento. Partindo de sucintos letreiros iniciais, rapidamente envereda pelas contradições de seu tema.


Ao final, a conexão com nossos tempos soa óbvia — e, justamente por isso, o filme não considera necessário mencionar Bolsonaro, a tentativa de golpe, nem os planos para assassinar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. Falas discretas acenam ao nosso cenário: “Vem se repetindo essa possibilidade [de anistia] no Brasil”, “[Vamos] anistiar aquela gente que está aí até hoje?”, “Aqui [no Brasil] tem intervenção militar toda hora!”. Melhores ainda são os discursos dos anos 1970, que parecem responder diretamente à Câmara dos Deputados dos anos 2020: “Não se trata aqui de pacificação, de conciliação. Trata-se de luta!”. “Pacificação” e “conciliação” são exatamente os termos empregados pelos conservadores em prol da impunidade de Bolsonaro e seus aliados.
Assim, o filme nunca precisa escancarar uma relação evidente. O Brasil de cinquenta anos atrás de assemelha demais ao Brasil dos nossos dias, movido pelas mesmas pautas (a democracia e os direitos humanos, para a esquerda, o medo do comunismo e a manutenção de privilégios da elite, para a direita). Lutamos a mesma luta, em nome de uma democracia tão importante quanto frágil, retomada e suspensa nas idas e vindas da nossa história. Assistimos aos militantes do passado para refletir sobre a organização política atual, entendendo o cinema enquanto testemunho do real e ponto de partida para o debate. A impressionante filmagem de 1979 serve como base para aquilo que o documentário de arquivo pode fazer de melhor, tanto em termos cinematográficos quanto sociopolíticos.




