
Há certa violência nesta obra experimental. A introdução é digna de um cenário apocalíptico: os raios tomam conta dos céus no campo, enquanto a cidade possui clarões e sons de explosões por trás dos arranha-céus. As pessoas se agitam, e as ruas se aceleram, como no corre-corre diante de uma catástrofe. Entre sua “Sinfonia de uma Metrópole” e uma produção de ficção científica, Luiz Pretti apresenta os espaços da cidade e do campo enquanto palcos de desestabilização coletiva.
Nunca teremos um protagonista humano a quem seguir. Poucos rostos aparecem nas imagens de maneira clara e próxima, e quando o fazem, estão emudecidos, descontextualizados (onde seria esta paisagem da cachoeira?). Diversas vozes oferecem testemunhos de experiências igualmente vagas, sem sabermos a quem pertence cada narrativa, ou de que forma deveriam se entrecruzar. Dialoga-se a respeito do tempo presente, de crises pessoais (“O que aconteceu é melhor nem dizer. Ninguém se orgulha”), de um misterioso homem que desapareceu. De certo modo, todos desapareceram nesta narrativa, bastante esforçada em não se constituir enquanto linearidade e cronologia. O espaço-cidade e o espaço-campo se tornam os únicos personagens dignos deste nome.
Os nomes, conforme indica o título, se tornam importantes em sua ausência. De que cidade estamos falando? Quem são as dezenas de pessoas convidadas a integrar o mosaico, e por que suas falas são consideradas tão preciosas que nem uma gravação estourada e ruidosa escapa à montagem? “Antes do nome: o menino ainda não é”. O estado de suspensão, de indefinição conceitual e existencialista, se traduz, portanto, na incapacidade de determinar indivíduos e localidades. Pretti imagina seu Cem Anos de Solidão, obra na qual “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las, se precisava apontar com o dedo”. Talvez o mesmo valha para mundos nada recentes.
Antes do Nome aprecia as imagens que se agitam, a montagem que picota, os espaços-tempos ocupando contextos totalmente diferentes daqueles para quais foram concebidos.
Como de costume em trabalhos experimentais, a vivência para o espectador corresponde a um perpétuo estado de se decifrar, afinal, o que estamos vendo, escutando, e de que maneira estes trechos se relacionam com aqueles que o antecedem e precedem. Enquanto os percursos clássico-narrativos exibem com orgulho suas imagens compostas, este cinema prefere desmontá-las, desconstruí-las, solicitando ao público que brinque junto, e fabule em sintonia. Em consequência, podemos projetar incontáveis sentidos e significados que nos pareçam pertinentes, a partir de uma bagagem pessoal, dado que a abertura semântica permite tal pluralidade. Trata-se de um improvável quebra-cabeça no qual as peças se encaixam de diversas maneiras possíveis.
Assim, seria fácil apontar a beleza ou chamariz de procedimentos isolados: a noite vermelha do trânsito de carros; a caminhada de Rômulo Braga, alternando entre imagem positiva e negativa; os fragmentos nudistas e naturistas extraídos do belo A Torre, de Sérgio Borges; o sonho da amizade com a baleia; o “ápice da felicidade”. No entanto, de que maneira se relacionam? O que indicam em termo de narrativa? Como formam uma obra única, um discurso coeso? Ou, dando um passo atrás, haveria tal intenção por parte do diretor e montador Luiz Pretti e sua equipe? É possível que, pelo contrário, o interesse resida na costura de heterogênea dos afetos?
Antes do Nome aprecia as imagens que se agitam, a montagem que picota, os espaços-tempos ocupando contextos totalmente diferentes daqueles para quais foram concebidos. Adora intervir na imagem — colori-la, separá-la, esgarçá-la, transformá-la em flash, conforme o som oferece a base pessoal e confessional para um desenho procurando por certa pureza da abstração. O cineasta se converte num pintor audiovisual, criando seus quadros a partir dos estímulos livres que as narrações em off lhe sugerem. Curiosamente, para um filme que evita a todo custo os rostos e a associação literal entre som direto e imagem de referência, o resultado soa afetuoso, coletivo, coerente com este princípio de um experimento sem concessões.
A produção audiovisual brasileira carece de iniciativas como esta, assumidamente contrárias a qualquer perspectiva comercial, ao “ser entendido e gostado”, ao cinema enquanto comunicação clara, enquanto entretenimento ou distração. Pretti não veio para esclarecer, mas para confundir. Surpreende que, para um artista bastante acostumado à direção em coletivos ou duplas, a autoria individual se traduza num gesto de tamanha radicalidade, tão assumidamente rarefeito — uma costura das imagens enquanto matéria, textura, estímulo e sensação. Um cinema alegremente desconexo de seus significados imediatos, justamente para sugerir tantos outros que habitam a cabeça de cada espectador presente.




