Antes do Nome (2026)

Terra de anônimos

título original (ano)
Antes do Nome (2026)
país
Brasil
linguagem
Experimental
duração
63 minutos
direção
Luiz Pretti
elenco
Rômulo Braga, Alfredo Nora, Andreza Magalhães, Aninha Martins, Aren Gallo, Clarice Panadés, Dayane Lacerda, Yasmin Salvador, Diego Bujão Dantas, Duda Carvalho, Felipe Soares, Guto Borges, Nataly Rocha, Ravi Domingues, Thais Leite, Thassia Cavalcante, Vinicius Teixeira
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

Há certa violência nesta obra experimental. A introdução é digna de um cenário apocalíptico: os raios tomam conta dos céus no campo, enquanto a cidade possui clarões e sons de explosões por trás dos arranha-céus. As pessoas se agitam, e as ruas se aceleram, como no corre-corre diante de uma catástrofe. Entre sua “Sinfonia de uma Metrópole” e uma produção de ficção científica, Luiz Pretti apresenta os espaços da cidade e do campo enquanto palcos de desestabilização coletiva.

Nunca teremos um protagonista humano a quem seguir. Poucos rostos aparecem nas imagens de maneira clara e próxima, e quando o fazem, estão emudecidos, descontextualizados (onde seria esta paisagem da cachoeira?). Diversas vozes oferecem testemunhos de experiências igualmente vagas, sem sabermos a quem pertence cada narrativa, ou de que forma deveriam se entrecruzar. Dialoga-se a respeito do tempo presente, de crises pessoais (“O que aconteceu é melhor nem dizer. Ninguém se orgulha”), de um misterioso homem que desapareceu. De certo modo, todos desapareceram nesta narrativa, bastante esforçada em não se constituir enquanto linearidade e cronologia. O espaço-cidade e o espaço-campo se tornam os únicos personagens dignos deste nome.

Os nomes, conforme indica o título, se tornam importantes em sua ausência. De que cidade estamos falando? Quem são as dezenas de pessoas convidadas a integrar o mosaico, e por que suas falas são consideradas tão preciosas que nem uma gravação estourada e ruidosa escapa à montagem? “Antes do nome: o menino ainda não é”. O estado de suspensão, de indefinição conceitual e existencialista, se traduz, portanto, na incapacidade de determinar indivíduos e localidades. Pretti imagina seu Cem Anos de Solidão, obra na qual “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las, se precisava apontar com o dedo”. Talvez o mesmo valha para mundos nada recentes.

Antes do Nome aprecia as imagens que se agitam, a montagem que picota, os espaços-tempos ocupando contextos totalmente diferentes daqueles para quais foram concebidos.

Como de costume em trabalhos experimentais, a vivência para o espectador corresponde a um perpétuo estado de se decifrar, afinal, o que estamos vendo, escutando, e de que maneira estes trechos se relacionam com aqueles que o antecedem e precedem. Enquanto os percursos clássico-narrativos exibem com orgulho suas imagens compostas, este cinema prefere desmontá-las, desconstruí-las, solicitando ao público que brinque junto, e fabule em sintonia. Em consequência, podemos projetar incontáveis sentidos e significados que nos pareçam pertinentes, a partir de uma bagagem pessoal, dado que a abertura semântica permite tal pluralidade. Trata-se de um improvável quebra-cabeça no qual as peças se encaixam de diversas maneiras possíveis.

Assim, seria fácil apontar a beleza ou chamariz de procedimentos isolados: a noite vermelha do trânsito de carros; a caminhada de Rômulo Braga, alternando entre imagem positiva e negativa; os fragmentos nudistas e naturistas extraídos do belo A Torre, de Sérgio Borges; o sonho da amizade com a baleia; o “ápice da felicidade”. No entanto, de que maneira se relacionam? O que indicam em termo de narrativa? Como formam uma obra única, um discurso coeso? Ou, dando um passo atrás, haveria tal intenção por parte do diretor e montador Luiz Pretti e sua equipe? É possível que, pelo contrário, o interesse resida na costura de heterogênea dos afetos?

Antes do Nome aprecia as imagens que se agitam, a montagem que picota, os espaços-tempos ocupando contextos totalmente diferentes daqueles para quais foram concebidos. Adora intervir na imagem — colori-la, separá-la, esgarçá-la, transformá-la em flash, conforme o som oferece a base pessoal e confessional para um desenho procurando por certa pureza da abstração. O cineasta se converte num pintor audiovisual, criando seus quadros a partir dos estímulos livres que as narrações em off lhe sugerem. Curiosamente, para um filme que evita a todo custo os rostos e a associação literal entre som direto e imagem de referência, o resultado soa afetuoso, coletivo, coerente com este princípio de um experimento sem concessões. 

A produção audiovisual brasileira carece de iniciativas como esta, assumidamente contrárias a qualquer perspectiva comercial, ao “ser entendido e gostado”, ao cinema enquanto comunicação clara, enquanto entretenimento ou distração. Pretti não veio para esclarecer, mas para confundir. Surpreende que, para um artista bastante acostumado à direção em coletivos ou duplas, a autoria individual se traduza num gesto de tamanha radicalidade, tão assumidamente rarefeito — uma costura das imagens enquanto matéria, textura, estímulo e sensação. Um cinema alegremente desconexo de seus significados imediatos, justamente para sugerir tantos outros que habitam a cabeça de cada espectador presente.

Antes do Nome (2026)
6
Nota 6/10

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