
Este longa-metragem despertava boas expectativas, diante da equipe envolvida. Afinal, Ao Sabor das Cinzas é dirigido por Taciano Valério, autor do ótimo Pingo d’Água. Tem, como diretor de fotografia, Breno César, um dos profissionais mais qualificados em atividade na área. Conta com alguns dos nossos melhores atores, caso de Everaldo Pontes, Verônica Cavalcanti e Buda Lira. É montado por João Maria, que assinou O Som ao Redor. Em suma, o retrato de uma família disfuncional tinha atributos de sobra para se converter num belo trabalho de cinema, passível de destaque em meio à rica programação da Mostra de Tiradentes.
Em contrapartida, o resultado decepciona, para dizer o mínimo. O forte descompasso entre as diferentes funções criativas, e o desnível no tom geral da condução (entre o naturalismo e a fantasia, entre o drama de denúncia e a paródia) apontam para um projeto conflituoso, no sentido de transparecer compreensões totalmente distintas quanto aos objetivos visados pelo diretor. Algumas cenas e interações ostentam tantos problemas que despertam curiosidade quanto à sua permanência no corte final: foi preciso salvar alguma passagem desajeitada na montagem, para que a narrativa cumprisse seus objetivos e pudesse se completar? Ou, pior ainda, estas falhas e lacunas seriam desejadas pelos criadores?
Vamos por partes. No centro da trama se encontra o falecimento de Seu Lauro (Everaldo Pontes), patriarca de uma família abastada na Paraíba. Enquanto as duas filhas resolvem suas pendências pessoais e dilemas relacionados ao enterro, a neta implementa um plano destinado a revelar os podres não apenas do avô, mas também do pai. Pelas primeiras imagens, avistadas na tela do computador, imagina-se que o exposed vise a infidelidade do pai, um advogado e empresário caricaturalmente maligno. Entretanto, adiante, percebem-se crimes muito mais graves. Assim, o melodrama familiar se encontra com um suspense policial (em teor, ao menos, posto que a polícia se encontra curiosamente ausente do caso).
Ao Sabor das Cinzas nem mesmo compreende o porte de sua construção, o alcance que procura ter, o público a quem se destina, ou a mensagem a transmitir a partir do imbróglio familiar.
O longa-metragem se sai razoavelmente bem quando assume os limites do realismo fantástico: o morto levanta do caixão, pede um cafezinho, flerta com as mulheres ao redor. Everaldo Pontes se diverte no papel do cadáver hedonista, embranquecido, porém repleto de vigor. No entanto, os problemas decorrem de cenas dramáticas que se levam a sério até demais, apesar dos evidentes exageros e tropeços na condução. O próprio avô, sobre uma maca do IML, é visto respirando e tremendo as pálpebras. O documento posicionado sobre seu ventre serve unicamente para chamar ainda mais atenção à respiração do ator.
Trata-se de um detalhe, é claro. Outras questões, em contrapartida, seriam muito mais importantes esclarecer: de onde provém o material comprometedor a respeito dos homens cafajestes da família? Qual a necessidade da neta em editar e gravar uma narração em off para este vídeo, se a revelação ocorre via live no celular, focada em outros acontecimentos? Afinal, as filhas Bethânia e Laura sabiam dos negócios escusos do pai? Como explicar a reação estranhíssima a uma revelação que, de fato, não explica nada? Por que atribuir características de hacker (no melhor molde CSI) à menina que jamais emprega o suposto conhecimento em informática? De onde surge esse comportamento fraterno do “mordomo” da casa? Por que os criminosos produzem e preservam tantas provas contra si próprios? Se deseja apresentar o avô enquanto sujeito asqueroso, por que o filme o retrata enquanto malandro divertido e gentil durante a maior parte da jornada?
As escolhas estéticas provocam curiosidade semelhante. As diversas cenas internas são mal iluminadas, aparentemente utilizando apenas as luzes locais, e dispensando a correção de cor. Restam cômodos escuros, acinzentados, desprovidos de volume e textura. O que dizer do IML e da casa funerária com suas paredes lisas, cinzentas, além de duas ou três folhas de papel repousando sobre a única mesa de escritório, esperando para ser solicitadas? Os figurinos e a decoração transparecem o tempo restrito oferecido à direção de arte para trabalhar minimamente os espaços, que sustentam uma aparência caseira. Já os instantes assumidamente cômicos, diante de uma precariedade não-assumida (o jogo de dominó durante a emergência, a piada com os clichês do road movie) apenas acentuam um desconforto de uma obra disposta a rir, porém, dos elementos engraçados de sua constituição.
A montagem também apresenta deficiências. Posto que a direção posiciona lado a lado o motorista do veículo funerário e a nova colega de empresa, em plano único, durante uma passagem longuíssima, o montador enfrenta dificuldade para imprimir dinamismo à sequência — e dá-lhe cortes “internos” no rosto de um e outro para sugerir alguma variação. Os planos cropados se reproduzem em outros momentos, além de quebras de eixo, despertando a aparência de uma montagem com pouco material disponível para articular as cenas a contento. A escolha de ligações telefônicas com ambos os participantes em profundidades distintas do enquadramento, como se estivessem no mesmo cômodo, jamais oferece nenhum ganho à estética, nem funciona para efeitos cômicos. E os autores realmente desejavam que a traição exageradíssima do pai, com batom por todo o rosto, e chupando o dedão de suas acompanhantes, fosse levada a sério, enquanto o mero spray de bom ar no carro funerário despertasse riso? As ambições se encontram muito distantes de sua concretização.
Isso vale, igualmente, para a incursão do melodrama novelesco. Os diálogos mais artificiais e improváveis são inseridos em instantes pretensamente graves (“A mãe estaria aqui se tu não tivesse nascido!”), enquanto frases visando o humor jocoso aparecem em sequências com nenhuma abertura ao humor (o adesivo “Abra sua mente, gay também é gente” colado na tela da televisão). Para o enterro católico, utiliza-se um carro de placa EXU, enquanto a revelação de um esquema criminoso seríssimo é filmada com um exagero de direção e direção de atores típico de uma paródia de filme B. É notável a falta de comunicação entre as cabeças de equipe, levando à costura de trechos aparentemente provindos de projetos totalmente distintos, até se atingir o monstro de Frankestein exibido na Mostra de Tiradentes.


“Mas é um filme de baixo orçamento!”, alegaram algumas vozes na saída da sessão. Sem dúvida, este aspecto confere. Entretanto, ele não pode ser utilizado como desculpa para incontáveis falhas de roteiro, direção, montagem, fotografia e arte. Todos os filmes das mostras competitivas em Tiradentes, sem exceção, eram obras de baixo orçamento — muitas delas, com recursos ainda mais limitados do que a obra paraibana. Em contrapartida, utilizavam esta configuração ao seu valor, assumindo-a como tal, e procurando uma estética da marginalidade, uma linguagem da precariedade assumido, experimental, inventiva.
Ora, Ao Sabor das Cinzas visa funcionar dentro de uma lógica clássico-narrativa, com começo, meio e fim, através de relações de causa e consequência. Ele certamente precisaria de uma estrutura muito maior, além de uma produção unificadora, capaz de colocar todos os departamentos nos mesmos trilhos. A obra nem mesmo compreende bem o porte de sua construção, o alcance que procura ter, o público a quem se destina, ou a mensagem a transmitir a partir do imbróglio familiar. Resulta num esforço inesperadamente amador, por parte de profissionais tão qualificados. Em meio a tantas produções orgulhosas e safas em sua limitação orçamentária, soa apenas desajustado, deslocado. Um filme que se perdeu.




