Aruê, Jerônimos (2025)

A beleza das Congadas

título original (ano)
Aruê, Jerônimos (2025)
país
Brasil
Linguagem
Documentário
duração
17 minutos
direção
Matheus José Vieira
visto em
8ª Mostra de Fama (2025)

Um homem vestido com trajes específicos das Congadas. Este representante da Irmandade do Menino Jesus posa diante da natureza, enquanto a câmera o contorna. O primeiro elemento de destaque em Aruê, Jerônimos consiste na beleza estonteante da fotografia. Veja bem: não se destaca aqui o impacto dos cenários naturais (certamente deslumbrantes em si próprios), mas a impressionante captação destas pessoas e espaços para ressaltar a grandiosidade desta manifestação cultural.

A direção de fotografia de Ricardo Roque constitui um espetáculo à parte. Ele nunca precisa embelezar a imagem com ornamentos em pós-produção, nem uma infinidade de refletores. Pelo contrário, consegue extrair a beleza das cores e das texturas apoiando-se sobretudo na luz natural. Ainda possui um pensamento evidente para fotometrar com precisão a pele negra, que jamais soa escurecida, nem perde detalhes das expressões, mesmo em ambientes de alto contraste. A captação das entrevistas, e imagens contemporâneas, em geral, é espetacular, e certamente representa o que se viu de melhor neste quesito durante a 8ª Mostra de Cinema de Fama.

Além disso, o diretor Matheus José Vieira oferece uma escuta bastante empática aos entrevistados. Imagina-se que ele e os demais membros da equipe tenham muito a dizer a partir de questionamentos dos personagens, como “Por que tem essa diferença entre preto e branco?”, um “mistério” histórico e social evocado pelo protagonista. Mesmo assim, evitam intervir para além da própria construção estética. Demonstram respeito, num posicionamento muito mais horizontal do que vertical (ou seja, querem fazer um filme com estas pessoas, ao invés de sobre elas).

Neste percurso, os artistas captam manifestações do sincretismo religioso de dia e de noite; em grandes grupos ou individualmente; em organizações mais espontâneas, ou programadas para corresponderem às necessidades das câmeras. O cineasta recorre até a uma pequena ficcionalização, a partir do momento em que uma mulher interpela a câmera e nos provoca, a propósito de nossas crenças: “Você está muito cético!”.

É uma pena que, na hora de utilizar o material de arquivo, preserve-se a marca d’água dos registros originais, a respeito das gerações passadas. Esta grande estampa sobre a imagem chama atenção excessiva para si própria, contradizendo tamanho esmero e elegância das captações atuais. Por mais reverência que se mostre ao passado, a utilização das imagens antigas soa insuficientemente desenvolvida. Nem mesmo se oferece a devida contextualização de tempo e espaço, ou ainda os autores das imagens de origem, apresentadas no curta.

Ressalvas à parte, Aruê, Jerônimos consegue trazer informações didáticas sem jamais recorrer a uma linguagem empobrecedora, nem simplificadora. A profunda consideração dos autores pelos quilombos e por suas tradições, passadas entre gerações, pode ser percebida através do cuidado desta construção — o que inclui o tratamento bastante polido de captação e edição de som. No registro documental, esta ainda é a melhor forma de reverenciar alguém, ou algum grupo de pessoas.

Aruê, Jerônimos (2025)
7
Nota 7/10

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