
Aquarela do Brasil, No Rancho Fundo, Isto Aqui, O Que É?, Lá Vem a Baiana, No Tabuleiro da Baiana. Por músicas como estas, Ary Barroso se tornou um ícone da música popular, associando-se às marchinhas de Carnaval e aos sambas das rádios. Cerca de 60 anos após a sua morte, as letras ainda são conhecidas e reinterpretadas pelas novas gerações. Por isso, teria sido conveniente desenvolver uma biografia de viés popularesco a respeito da vida e obra do compositor. Havia apelo suficiente para uma recordação saudosa, nostálgica, acumulando os habituais elogios à grandiosidade do protagonista.
Felizmente, Ary adota um caminho mais arriscado, e, também, mais recompensador. O diretor André Weller dispensa por completo as afetividades de Barroso. Evita descrevê-lo como bom pai, marido, amigo, companheiro, etc. Com exceção de um trecho muito breve a respeito de sua infância, a vida pessoal está descartada da narrativa. O documentário tampouco acumula depoimentos de terceiros, apontando-o como o grande ícone da nossa cultura — o discurso evita obviedades do tipo. Talvez por derivar da mente de um cineasta-músico, o projeto se concentra na percepção da música criada pelo artista.
Lima Barreto encarna o protagonista, em voz off, numa espécie de carta em primeira pessoa, endereçada ao espectador. “Nunca imaginava ser compositor”, ele explica. “Sabor popular não se fabrica. […] Temos que procurá-lo”, sugere, a respeito do sucesso de suas criações. O texto se organiza por meio de impressões, sentimentos e sensações, ao invés de fatos. Por isso, dispensam-se os habituais testemunhos de terceiros, enquanto o próprio Barroso aparece de maneira meramente esporádica em fotografias e gravações. Weller não personaliza o discurso tanto quanto o universaliza, pensando seu objeto de estudo enquanto ponto de partida para discutir brasilidades e estrangeirismos.
Na ausência dos depoimentos, e na carência de registros do próprio Ary Barroso, a direção se apoia numa rica pesquisa de materiais de arquivo.
Isso porque parte considerável da trama gira em torno da experiência norte-americana do diretor, quando se aproxima da Disney e compõe músicas para a trilha sonora de filmes hollywoodianos. Esta é a oportunidade de escutar diferentes arranjos, comparar o português às reinterpretações em inglês, e entender de que modo o processo de assimilação cultural pode ocorrer em sentido inverso: os gringos se encantando com nossa arte e incorporando-a, e não o contrário. O prestígio de assistir aos maiores intérpretes americanos tocando Aquarela do Brasil ao piano, ou elaborando arranjos para orquestra a partir dos nossos sambas, valida não somente a trajetória de Barroso, mas a arte brasileira na totalidade.
Na ausência dos depoimentos, e na carência de registros do próprio Ary Barroso, a direção se apoia numa rica pesquisa de materiais de arquivo. Multiplicam-se as cenas de carnavais nas ruas brasileiras, em preto e branco, além de avenidas norte-americanas dos anos 1940 e 1950, com cores pastéis, saturadas, remetendo a uma aparência de sonho. Em especial, a imagem nunca repete por completo o conteúdo sonoro, preferindo aludir a épocas e espaços específicos. Isso permite que o longa-metragem fuja à estrutura da explicação didática, que incomoda em tantas iniciativas do gênero.
Logo, Weller permite criar sua própria poesia, sem permanecer refém dos registros encontrados — ou ainda, de cronologias e relações de causa e consequência. A montagem (de autoria do cineasta) se destaca, ao saltar de maneira ágil e orgânica entre ficcionalizações (Dira Paes e Stepan Nercessian interpretando locutores de rádio), fotografias e vídeos da época, e captações livres da natureza, quando a voz de Barroso emite reflexões a respeito da chuva e do campo. Em determinada sequência, o preto e branco dos registros de décadas atrás se funde a uma estrada em preto e branco que, só então, ganha suas cores e retorna à contemporaneidade. Existe uma saudável preocupação com a fluidez das transições e dos cortes, possibilitando alternar entre temas e períodos sem a necessidade de letreiros ou segmentação em capítulos.
É certo que algumas captações soam mais inspiradas do que outras, e recursos tais quais os flares projetados sobre a chuva, que escorre num vidro, decorrem de um imaginário um tanto desgastado da delicadeza e sensibilidade. Embora se sobressaia na coesão, o longa-metragem se mostra menos hábil ao abordar guinadas e conflitos: Barroso se diz “boicotado em quase todas as rádios do país”, por motivos pouco contextualizados e, adiante, anuncia sua reabilitação completa de uma hepatite desconhecida do espectador até então. Atropelam-se determinadas passagens, importantes para a compreensão de aspectos críticos ou controversos do biografado.


Além disso, em detrimento de oferecer um panorama de toda a criação musical do compositor, o cineasta alça algumas composições ao posto de protagonistas. Ninguém se surpreende com a atenção central a Aquarela do Brasil, entretanto, a melodia e sua letra são interpretadas com tamanha insistência que diminuem o valor de outros trabalhos do protagonista. Ary também incorre na tendência dos documentários musicais a desprezar a relação com o público, como se o elemento de real importância fosse a produção das músicas. Ora, de que maneira foram acolhidas? Todas foram igualmente prestigiadas? Barroso atingiu a fama, era reconhecido nas ruas? As canções, e a relação com os Estados Unidos, impactaram de maneira imediata a percepção de seu trabalho? O projeto se ressente da relação essencial com quem escutava, e ainda escuta, os trabalhos de Barroso — afinal, não há música popular sem povo.
“Será a minha música imortal?”, questiona a voz de Lima Barreto. O filme sabe que sim, razão pela qual a interrogação soa mais retórica do que propriamente curiosa. Mesmo assim, durante sucintos 70 minutos, o agradável longa-metragem consegue representar o personagem em sua ausência, evitando a idealização do trabalho, tanto quanto evita seus possíveis tropeços e escolhas equivocadas. Restam as grandes músicas, num percurso descrito como alegrias do acaso (o programa de rádio, o convite da Disney, as criações musicais em poucos minutos). Ary Barroso se torna menos um grande gênio da cultura brasileira do que o homem certo no lugar certo, capaz de aproveitar as preciosas oportunidades que lhe apareceram.




