Ary (2025)

Sabor popular

título original (ano)
Ary (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
70 minutos
direção
André Weller
elenco
Lima Duarte, Dira Paes, Stepan Nercessian, Leo Jaime, Marcos Caruso, Alan Rocha, Felipe Rocha, Juliana Guimarães, Rafael Rocha
visto em
20º Fest Aruanda (2025)

Aquarela do Brasil, No Rancho Fundo, Isto Aqui, O Que É?, Lá Vem a Baiana, No Tabuleiro da Baiana. Por músicas como estas, Ary Barroso se tornou um ícone da música popular, associando-se às marchinhas de Carnaval e aos sambas das rádios. Cerca de 60 anos após a sua morte, as letras ainda são conhecidas e reinterpretadas pelas novas gerações. Por isso, teria sido conveniente desenvolver uma biografia de viés popularesco a respeito da vida e obra do compositor. Havia apelo suficiente para uma recordação saudosa, nostálgica, acumulando os habituais elogios à grandiosidade do protagonista.

Felizmente, Ary adota um caminho mais arriscado, e, também, mais recompensador. O diretor André Weller dispensa por completo as afetividades de Barroso. Evita descrevê-lo como bom pai, marido, amigo, companheiro, etc. Com exceção de um trecho muito breve a respeito de sua infância, a vida pessoal está descartada da narrativa. O documentário tampouco acumula depoimentos de terceiros, apontando-o como o grande ícone da nossa cultura — o discurso evita obviedades do tipo. Talvez por derivar da mente de um cineasta-músico, o projeto se concentra na percepção da música criada pelo artista.

Lima Barreto encarna o protagonista, em voz off, numa espécie de carta em primeira pessoa, endereçada ao espectador. “Nunca imaginava ser compositor”, ele explica. “Sabor popular não se fabrica. […] Temos que procurá-lo”, sugere, a respeito do sucesso de suas criações. O texto se organiza por meio de impressões, sentimentos e sensações, ao invés de fatos. Por isso, dispensam-se os habituais testemunhos de terceiros, enquanto o próprio Barroso aparece de maneira meramente esporádica em fotografias e gravações. Weller não personaliza o discurso tanto quanto o universaliza, pensando seu objeto de estudo enquanto ponto de partida para discutir brasilidades e estrangeirismos.

Na ausência dos depoimentos, e na carência de registros do próprio Ary Barroso, a direção se apoia numa rica pesquisa de materiais de arquivo.

Isso porque parte considerável da trama gira em torno da experiência norte-americana do diretor, quando se aproxima da Disney e compõe músicas para a trilha sonora de filmes hollywoodianos. Esta é a oportunidade de escutar diferentes arranjos, comparar o português às reinterpretações em inglês, e entender de que modo o processo de assimilação cultural pode ocorrer em sentido inverso: os gringos se encantando com nossa arte e incorporando-a, e não o contrário. O prestígio de assistir aos maiores intérpretes americanos tocando Aquarela do Brasil ao piano, ou elaborando arranjos para orquestra a partir dos nossos sambas, valida não somente a trajetória de Barroso, mas a arte brasileira na totalidade.

Na ausência dos depoimentos, e na carência de registros do próprio Ary Barroso, a direção se apoia numa rica pesquisa de materiais de arquivo. Multiplicam-se as cenas de carnavais nas ruas brasileiras, em preto e branco, além de avenidas norte-americanas dos anos 1940 e 1950, com cores pastéis, saturadas, remetendo a uma aparência de sonho. Em especial, a imagem nunca repete por completo o conteúdo sonoro, preferindo aludir a épocas e espaços específicos. Isso permite que o longa-metragem fuja à estrutura da explicação didática, que incomoda em tantas iniciativas do gênero. 

Logo, Weller permite criar sua própria poesia, sem permanecer refém dos registros encontrados — ou ainda, de cronologias e relações de causa e consequência. A montagem (de autoria do cineasta) se destaca, ao saltar de maneira ágil e orgânica entre ficcionalizações (Dira Paes e Stepan Nercessian interpretando locutores de rádio), fotografias e vídeos da época, e captações livres da natureza, quando a voz de Barroso emite reflexões a respeito da chuva e do campo. Em determinada sequência, o preto e branco dos registros de décadas atrás se funde a uma estrada em preto e branco que, só então, ganha suas cores e retorna à contemporaneidade. Existe uma saudável preocupação com a fluidez das transições e dos cortes, possibilitando alternar entre temas e períodos sem a necessidade de letreiros ou segmentação em capítulos.

É certo que algumas captações soam mais inspiradas do que outras, e recursos tais quais os flares projetados sobre a chuva, que escorre num vidro, decorrem de um imaginário um tanto desgastado da delicadeza e sensibilidade. Embora se sobressaia na coesão, o longa-metragem se mostra menos hábil ao abordar guinadas e conflitos: Barroso se diz “boicotado em quase todas as rádios do país”, por motivos pouco contextualizados e, adiante, anuncia sua reabilitação completa de uma hepatite desconhecida do espectador até então. Atropelam-se determinadas passagens, importantes para a compreensão de aspectos críticos ou controversos do biografado.

Além disso, em detrimento de oferecer um panorama de toda a criação musical do compositor, o cineasta alça algumas composições ao posto de protagonistas. Ninguém se surpreende com a atenção central a Aquarela do Brasil, entretanto, a melodia e sua letra são interpretadas com tamanha insistência que diminuem o valor de outros trabalhos do protagonista. Ary também incorre na tendência dos documentários musicais a desprezar a relação com o público, como se o elemento de real importância fosse a produção das músicas. Ora, de que maneira foram acolhidas? Todas foram igualmente prestigiadas? Barroso atingiu a fama, era reconhecido nas ruas? As canções, e a relação com os Estados Unidos, impactaram de maneira imediata a percepção de seu trabalho? O projeto se ressente da relação essencial com quem escutava, e ainda escuta, os trabalhos de Barroso — afinal, não há música popular sem povo.

“Será a minha música imortal?”, questiona a voz de Lima Barreto. O filme sabe que sim, razão pela qual a interrogação soa mais retórica do que propriamente curiosa. Mesmo assim, durante sucintos 70 minutos, o agradável longa-metragem consegue representar o personagem em sua ausência, evitando a idealização do trabalho, tanto quanto evita seus possíveis tropeços e escolhas equivocadas. Restam as grandes músicas, num percurso descrito como alegrias do acaso (o programa de rádio, o convite da Disney, as criações musicais em poucos minutos). Ary Barroso se torna menos um grande gênio da cultura brasileira do que o homem certo no lugar certo, capaz de aproveitar as preciosas oportunidades que lhe apareceram.

Ary (2025)
7
Nota 7/10

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