At the Sea (2026)

A má coreografia

título original (ano)
At the Sea (2026)
país
EUA, Hungria
gênero
Drama
duração
112 minutos
direção
Kornél Mundruczó
elenco
Amy Adams, Murray Bartlett, Chloe East, Brett Goldstein, Dan Levy, Redding L. Munsell, Jenny Slate, Rainn Wilson
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

“Eu nasci de novo, e a luz é tão clara que eu não consigo abrir os olhos”. Esta é uma frase real de At the Sea, drama que acredita transmitir algo bastante profundo a respeito da natureza humana a partir de uma mulher traumatizada. Laura (Amy Adams) provocou um acidente de carro devido à dependência de álcool. Felizmente, o filho pequeno saiu ileso, e ela se safou com uma cicatriz na perna. Após seis meses numa clínica de reabilitação caríssima, está pronta para encarar amigos e familiares — que não mais acreditam nela enquanto esposa, mãe ou dirigente de uma prestigiosa companhia de dança.

A heroína precisa, então, provar a si mesma e aos demais que está bem melhor. No entanto, no primeiro reencontro a sós com o filho pequeno, o garoto se acidenta de novo. Ela falha em protegê-lo, falha em avisar ao marido, falha inclusive em chegar ao hospital sã e salva uma segunda vez — sendo quase atropelada por um carro novamente. No caminho, encontra um belo homem musculoso, disposto a ajudá-la, e ostentando seu próprio histórico de dependência química. Quem diria, não? O roteiro escrito por Kata Wéber está repleto de obviedades e conveniências, ao limite do humor involuntário. Dentro da sala de cinema, alguns risos nervosos eram escutados aqui e acolá, em cenas seríssimas, previstas para forte impacto emocional.

Os criadores nunca percebem o quão próximos se encontram da autoparódia. Para uma narrativa tão dedicada à dança, as cenas coreografadas beiram o constrangimento.

Isso porque o projeto utiliza ferramentas muito frágeis para sugerir a complexidade de um estado psíquico. Em primeiro lugar, repete ad nauseum os flashbacks de Laura na infância. Ali, a criança pura, casta e sorridente, de olhos profundamente azuis (filmados com obsessão publicitária pelo diretor de fotografia Yorick Le Saux) é agredida e negligenciada pelo pai tirânico. Logo, a tese determinista do diretor Kornél Mundruczó repousa na ideia de que uma criança que recebeu pouco afeto não saberia dar carinho aos próprios filhos. Por isso, torna-se uma mãe alcoólatra, irresponsável, perigosa. Trata-se de uma associação simplória de causa e consequência, no entanto, o drama sustenta sua tese como quem revela uma descoberta milagrosa ao espectador.

A própria função dos flashbacks da infância pode ser contestada no cinema recente, de vocação psicanalítica. A Cronologia da Água, Four Minus Three, Nina Roza e Trial of Hein (estes três últimos, exibidos na 76ª Berlinale) são alguns dos projetos que recorrem a frequentes inserts dos personagens quando crianças, apenas para sugerir que já foram mais felizes — ou sofreram demais e, por isso, tornaram-se adultos problemáticos. São inserts edulcorados, mal pensados e desenvolvidos cinematograficamente, posto que excessivamente demonstrativos. Existe uma literalidade, uma funcionalidade a estes segmentos, destinados a significar pureza ou dor. Em consequência, destituem-se os pequenos de uma psique própria para se converterem em símbolos morais e exemplos de uma causa. Os incansáveis flashbacks de At the Sea favorecem a impressão próxima de uma chantagem emocional.

Em segundo lugar, aposta-se numa série de diálogos inverossímeis, beirando o teor de autoajuda. “Você não tem a menor ideia de quem eu sou, porque você passou a vida inteira tentando descobrir quem você é”, ataca a filha adolescente, revoltada. “Um brinde à beleza temporária e aos recomeços!”, festejam os amigos. As tentativas de humor serão igualmente deslocadas, improváveis — caso da crise de riso de Laura e do marido Martin (Murray Bartlett) após a fuga de Josie (Chloe East) com o namorado. O momento em que a jovem tem o aparelho dentário preso na braguilha do rapaz, durante a festa, não faria feio no universo de American Pie. Mas tudo bem: o instante paspalhão será desculpado por uma tentativa de suicídio imediatamente após. Os criadores nunca percebem o quão próximos se encontram da autoparódia.

Em terceiro lugar, para uma narrativa tão dedicada à dança contemporânea, as cenas coreografadas, envolvendo bailarinos profissionais ou os atores principais, beiram o constrangimento. Josie — uma atriz com claro domínio da dança — improvisa uma coreografia sexual e violenta, no intuito de ofender a mãe. (“Eu só queria te machucar!”, ela explica). Adiante, as duas desenvolvem uma dança de libertação e recomeço, com contornos dignos de algum ritual religioso. Amy Adams soa desconfortável nestes instantes, assim como na sequência de abertura (ela está batendo tambor numa atividade terapêutica, embora sustente a intensidade no olhar de quem está prestes a saltar num precipício). Já os inserts “artísticos” de dançarinos sofrendo ao som de uma versão indie de I Follow Rivers possuem tamanha carga dramática que, uma vez mais, resvalam na caricatura.

É impressionante a dificuldade do cineasta e de sua roteirista em trabalharem alguma simbologia original e orgânica para o trauma. A montagem insistente de Dávid Jancsó e Ilka Janka Nagy retorna à cena do carro revirado sobre a avenida, porém, com um brinde: a dado momento, garrafas de álcool começam a deslizar do automóvel destruído — afinal, ela estava embriagada. Entendeu? Na necessidade de explicar de onde Laura vem, e qual trabalho ocupava antes da tragédia, ela simplesmente assiste a um DVD cuja narradora em off explica exatamente o percurso da empresária e o papel castrador de seu pai “genial”. Para representar a necessidade de libertação, utilizam-se pipas flutuando no céu. Há ícone mais desgastado do que esse?

At the Sea ainda tenta inserir discussões a respeito da mastectomia de Debbie (Jenny Slate), da possibilidade de demissão dos funcionários, caso a companhia de dança perca fundos, e da amizade fiel e levemente abusiva da heroína com o melhor amigo gay (Dan Levy). Tudo isso à beira-mar, embora os personagens reencontrem a praia unicamente para se matar, se queimar com águas-vivas ou se humilharem durante caminhadas com os amigos. Nenhum destes elementos se aprofunda a contento, soando como passagens introduzidas a fórceps para sobrecarregar este imaginário contraditório de dor e de delicadeza.

Nem mesmo os atores se mostram particularmente bem dirigidos: Amy Adams está mal calibrada em termos emocionais, exagerando em algumas cenas simples, ou mostrando-se apática quando se buscaria maior intensidade. Ora ela aposta numa malícia irônica (a provocação com o funcionário, na saída da clínica), ora se vê zumbificada, inerte. Mundruczó tem a certeza de traçar o retrato profundo de uma artista em crise — uma pobre vítima dos males do mundo, tal qual a protagonista de Pedaços de uma Mulher. Entretanto, limita-se a um espetáculo do sofrimento composto por metáforas óbvias.

At the Sea (2026)
3
Nota 3/10

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