
Um pescador e uma criança estão num barco em alto-mar. Este parece ser o início de uma fábula, algo que certamente permeia o processo do diretor Eduardo Boccaletti. Os planos rebuscados, com composições rígidas para retratar o adulto e a criança, demonstram a busca por certa elegância e aparência de profissionalismo. Trata-se de um curta-metragem com evidente vontade de impressionar pelo uso do contraluz, da trilha sonora grandiloquente, dos efeitos aplicados a cada plano (um possível recurso “vinheta” em algumas cenas).
Bijupirá surpreende, de fato, pelo escopo da produção, incomum aos projetos de baixo orçamento. Há planos aéreos para representar o garoto sozinho num barco, em meio às águas, além de composições exigentes, de alta complexidade para aquele contexto. Os atores também chamam atenção: Enzo Gois se mostra um excelente ator mirim, muito bem dirigido nas cenas delicadas (a exemplo do final).
Já Heraldo de Deus tem se firmado como um dos nomes mais interessantes da nova safra de atores. Em todos os seus filmes, ele rouba a cena graças à segurança no trabalho de corpo, o despojamento com os diálogos, a expressividade segura e livre de exageros. Ainda se espera o momento em que o intérprete ganhará um belo papel de protagonista num longa-metragem ambicioso, onde poderá demonstrar todo o seu talento e versatilidade.
É uma pena que o roteiro se perca em algumas metáforas evidentes demais, junto a certos recursos convenientes, típicos dos curtas narrativos com necessidade de acelerar conflitos, devido ao tempo escasso. (Este costuma ser o caso dos curtas com vocação a “mini-longa”, geralmente para servirem de portfólio aos cineastas). O símbolo do pequeno peixe sem valor, que passa a vida grudado ao tubarão, torna-se uma referência óbvia ao menino. A chamada de rádio, na qual se verbaliza em bom-tom a vontade de se livrar do garoto, também resulta num artifício simplificador.
Mesmo assim, na cena final, ambos os atores estão muito bem calibrados para evitarem o sentimentalismo, num reencontro bem filmado e montado. Chega a ser irônico que, diante de uma contenção tão precisa de sentimentos, decida-se introduzir uma trilha sonora histriônica e chorosa, que aparenta contradizer o gesto da mise en scène. Entre o humanismo seguro e um preciosismo estético que beira o registro publicitário, o curta-metragem desperta curiosidade quanto aos próximos trabalhos do diretor Eduardo Boccaletti.




