Cais (2025)

Tempo é afeto

título original (ano)
Cais (2025)
país
Brasil
linguagem
Ensaio, Documentário
duração
69 minutos
direção
Safira Moreira
visto em
14º Olhar de Cinema (2025)

Há maneiras muito diferentes de interpretar este filme. Os conhecedores das religiões de matriz africana, pesquisadores dos orixás e de seu rico universo de símbolos, lerão cada cena com um significado profundo. A diretora Safira Moreira explicou, durante um debate no Olhar de Cinema, o valor que o preparo cuidadoso do dendê possui para certas oferendas religiosas, e como o processo de obtenção da farinha de mandioca se conecta com os pratos e os costumes das divindades. Em suas palavras, o trecho inicial, referente a processos físicos, corresponde à parte mais diretamente espiritual deste ensaio.

Outra possibilidade de abordagem se abre àqueles que conhecem Safira pessoalmente, e tiveram contato com a mãe da cineasta, falecida pouco tempo atrás. Afinal, a narrativa parte desta perda (junto ao nascimento do primeiro filho). Os membros da equipe salientaram, na mesma conversa, a relação direta de cada objeto e espaço retratados com os gostos de Dona Angélica. Aparentemente, há certo ritmo e contemplação pensados exclusivamente para a personalidade desta grande protagonista ausente. A elegia se completa de maneira especial para os próximos, tal qual uma piscadela feita aos meus, para que os familiares se lembrem, de maneira ainda mais especial, da mulher digna de tão delicada homenagem. 

Há tanto espaço para o respiro quanto para imprevistos e associações livres de significado, avessas aos laços de causa e consequência.

Em contrapartida, nenhum destes aspectos se encontra na carne do filme, por assim dizer. Não são trabalhados explicitamente em diálogos, letreiros, nem mesmo em representações explícitas e referenciais. Contam com um conhecimento extrafílmico que o espectador pode não possuir. Caso o projeto dependesse diretamente desta sabedoria para se completar aos olhos do público médio, teria fracassado em sua estratégia de comunicação. Felizmente, oferece-se muito mais aos sentidos, para o interlocutor alheio aos códigos citados. Para além de seus significados íntimos, há uma construção estética e narrativa bastante sedutora em si mesma.

Em sua curta duração (69 minutos), Cais vai se desacelerando. O filme se inicia num universo analógico, de ações e máquinas. Este tempo-produtividade revela as rodas girando, as mãos descascando a mandioca com incrível destreza, o ourives moldando cada minúscula parte metálica para introduzi-la numa peça maior. A senhora que prepara o azeite de dendê manuseia cuidadosamente os ingredientes, separa o caldo numa tina larga, enquanto a câmera acompanha estes rituais com respeito e curiosidade. À primeira vista, trata-se de um documentário de viés antropológico, focado em processos e no saber específico de uma cultura que se supõe distante do espectador. Os criadores aparentam filmar não para os locais, mas para aqueles que os desconheçam.

Aos poucos, no entanto, o foco nos fazeres se dissipa. O barulho das máquinas se interrompe, e os grupos cedem espaço a uma pessoa só. As cenas passam a ser habitadas por personagens únicas, silenciosas, em barcos, dunas e outras paisagens tão belas quanto melancólicas. A diretora permite então performances envolvendo dança, o forte vento balançando as roupas, o corpo sobre a cachoeira, e as fotos da falecida mãe, dispersas na água. O deslocamento do ponto de vista, do centro da cidade rumo à duna deserta, corresponde a uma forma de viagem ao interior dos sentimentos, como se fosse preciso se isolar de tantos estímulos externos para, enfim, realizar o luto e entrar em contato consigo mesmo.

Moreira e o diretor de fotografia Bernard Lessa acreditam na beleza destes planos, assim como na capacidade de comunicação dos mesmos, desprovidos de qualquer explicação complementar. É muito belo encontrar cineastas que ainda acreditem na potência da imagem e dos sons por si próprios, desconectados de uma utilidade narrativa ou um senso de finalidade. Plasticamente, os instantes da diretora com o filho de colo, percorrendo as águas, transmitem uma ideia de fluidez e conexão com a natureza que dificilmente algum diálogo ou narração obteria. O tempo passa a ser, portanto, uma dimensão da experiência — uma medida do sentir, ao invés do fazer

É fato que, nesta passagem do documentário etnográfico para o ensaio autobiográfico experimental, alguns testemunhos inesperados provocam uma ruptura. Especialistas na cosmologia Bantu-Kongo oferecem uma concepção filosófica do tempo que rompe radicalmente com a formulação habitual da ciência dos brancos. Ao contrário de Big Bangs e a noção de um tempo que se inicia num momento preciso, aborda-se uma compreensão vasta e metafórica do termo. Embora, tematicamente, a discussão se comunique bem com as demais imagens, em termos estéticos, estas intromissões puxam a linguagem para o formato de um talking head, praticamente avesso ao cinema desenvolvido no restante da obra.

Tantas alternâncias, seja direção, seja pela montagem de Tenille Bezerra, revelam um longa-metragem cujo meio se torna finalidade — ele mesmo, um filme-processo, que aparenta ter descoberto seus caminhos durante a elaboração. Há tanto espaço para o respiro quanto para imprevistos e associações livres de significado, avessas aos laços de causa e consequência. Mesmo a misteriosa imagem de abertura alude a correntes de água subterrâneas sob as areias da duna — mais uma bela metáfora que não se encontra na carne do filme. Aqui, os sentidos flutuam junto do filme, ao redor dele e com ele, ao invés de existirem nele.

Resta, em especial, a noção de um trabalho consciente de seu porte e alcance. Embora o discurso seja fluido e mesmo hermético, ele jamais soa aleatório. Nota-se o cuidado precioso de som e fotografia, um ritmo coeso proposto pela montagem, além da maneira breve de encerrar, sem explicar o procedimento ao espectador, nem recorrer a vaidades de qualquer tipo. Cais ostenta uma pequeneza assumida, autoconsciente. Ao contrário de tantos longas-metragens de curta duração, claramente esticados para atingirem a mínima duração do formato; e de pequenos longas que comprimem uma infinidade de temas que nunca conseguem esmiuçar; este filme dança junto à memória de Angélica, junto aos trabalhadores do ferro e da comida, e então se encerra — sem mais nem menos. Esta iniciativa transparece um notável poder de concisão.

Cais (2025)
7
Nota 7/10

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