
A sinopse oficial de Corpo da Paz aponta para um retrato dos sentimentos de um garotinho por um soldado americano, quando o estrangeiro visita a Paraíba dos anos 1960, em plena ditadura militar. A premissa soa interessante, no sentido de contrastar a visão de mundo infantil àquela dos adultos; a perspectiva brasileira contra o olhar estrangeiro; a realidade do dominado contra aquela do dominador. Entretanto, é difícil identificar tais acontecimentos durante a experiência do longa-metragem. Estão presentes o garoto, o soldado, o irmão do menino, a mãe, etc. Em contrapartida, a dinâmica de desejos passa longe da materialização em imagens.
Isso se deve a uma escolha curiosa de ponto de vista por parte da direção. A trama jamais é contada, de fato, pelo olhar do menino. Nunca sabemos o que ele está pensando, nem o que sente diante dos acontecimentos ao redor. Ele se expressa pouco, e desempenha raras ações. O garotinho nem mesmo constitui o protagonista, posto que a estrutura coral alterna entre meia dúzia de personagens com igual importância. A história inclusive se esquece do pequeno durante tempo considerável — sinal de que não fez tanta falta ao andamento dos processos, afinal.
Corpo da Paz é surpreendentemente impessoal e frio. Observamos os personagens à distância, sem conhecermos nenhum deles em profundidade.
A trama tampouco é descrita pela perspectiva do soldado. O sujeito enigmático, de poucas palavras, mantém em segredo seus reais objetivos em relação ao algodão brasileiro. Ele esconde uma caixinha de preciosidades sob a cama, porém, a direção também oculta do público o conteúdo. Na verdade, o drama é descrito por um posicionamento surpreendentemente alheio, impessoal, frio. Observamos estas figuras à distância, sem conhecermos nenhum deles em profundidade. Ao final da experiência, permanecerão tão misteriosos quanto eram a princípio. Deslocam-se sem sabermos para onde, dizem coisas sem conhecermos o porquê. Assemelham-se a fantasmas assombrando a própria cidade.
Os raros conflitos são minimamente sugeridos, sem explodirem em tela, nem surtirem efeito nas cenas seguintes. Gentil seria um homem gay, apaixonado pelo soldado? O que ele faz com estes possíveis sentimentos? Como o menino, experimentando a descoberta da sexualidade, se sente em relação ao corpo do coleguinha, na ausência deste? A mulher que cuida do algodão nunca suspeita de algo acontecendo em sua plantação? A jornada soa como a preparação para um suspense. Ela possui a semente de uma tensão constante (de gênero, raça, nacionalidade) que nunca germina. Estranhamente, quando a trama se encerra, ela parecia, enfim, estar prestes a começar.
A direção e o roteiro possuem um inusitado senso de prioridades. Decidem retratar um ato bárbaro de tortura durante a ditadura militar de modo explícito, com planos próximos e à distância, por diversos ângulos, em duração considerável. As marcas nas costas do rapaz brasileiro são mostradas apenas para o espectador, de maneira voyeurista, quando o sujeito deixa a porta aberta, mesmo escondendo um segredo. No entanto, quando (finalmente) chega um pequeno gesto simbólico de vingança contra o opressor, a cena será sugerida somente via sons, acompanhada pela tela preta. A violência é evidente, já o desejo (de Gentil, principalmente) e o entusiasmo (do resto da comunidade) precisam ser velados.
Resta a impressão de que faltaram cenas, ou materiais, na hora de costurar a obra pela montagem. Seja pelo roteiro lacônico, seja por sequências dispensadas a posteriori, Corpo da Paz desperta uma sensação de obra inacabada, carecendo de novas sequências, e de desenvolvimento dessas metáforas para adquirirem sentidos e elevarem os personagens para além de tipos e funções (o soldado, o menino, a mãe, etc.). Sobram cenas “sensoriais” (a mão roçando na rede, o dedo com bolinhas de gude), porém, ressente-se a falta de instantes capazes de relacionar as ações e atividades, ou colocar os personagens em interação uns com os outros. Em geral, eles soam como elétrons livres, em suas existências hermeticamente isoladas (Gentil ensaiando em frente ao espelho, o garoto com as costas machucadas no banheiro, o menino pelos cantos). A montagem jamais sugere que estas figuras constituam a causa ou consequência dos atos alheios.
A única tentativa real de atribuir coesão e coerência ao fiapo de trama reside na tinta opressora de cor sépia. O elemento que mais chama a atenção em Corpo da Paz não vem da trama, nem da temática da ditadura (ironicamente tratada como secundária), e sim, do tratamento atípico de cores. O filme aparenta ter sido passado ao preto e branco e, então, filtrado no tom amarelo-terra, simulando uma obra forçosamente antiga, embora o digital nítido transpareça a sua óbvia contemporaneidade. Mesmo assim, em instantes pontuais, resgata-se a variedade de cores quando desejado — caso do arco-íris formado pela água do banho dos meninos (um símbolo nada sutil para representar a homoafetividade entre os garotos).


Ora, a intromissão do filtro se faz tão forte que prejudica a apreensão dos espaços e do tempo, diminuindo o aspecto contemplativo do conjunto. Ao invés de divagarmos diante dos campos de algodão ou da solidão da casa, pensamos nesta estranha coloração, nem nova, nem antiga; parcialmente saudosa, ainda que retratando tortura e demais violências. Este é um problema da obra na totalidade: ao colocar todos os personagens em igualdade e horizontalidade, acaba equivalendo opressores e oprimidos, adultos e crianças, locais e estrangeiros. Nunca se sabe se a direção observa este fragmento no tempo com saudade, indiferença ou repúdio.
A certa altura da jornada, o soldado adentra uma mina escura. Trata-se de um resgate do imaginário bem explorado no belo Pulmão de Pedra, curta-metragem também concebido pelo diretor Torquato Joel. As minas retornam ao longa-metragem, porém, desta vez, desprovidas de propósito narrativo, e sem surtir impacto à deambulação secreta do personagem. O próprio soldado permanece escurecido num canto da imagem, enquanto a fotografia prefere iluminar um canto solitário das minas. Corpo da Paz soa como um filme munido de grandes segredos e revelações, jamais compartilhados com o espectador. Terminada a sessão, tanto os criadores quanto os personagens ainda preservam seus mistérios. O público é curiosamente expulso, apartado de uma narrativa que nunca se desenvolve para ele, mas apesar dele.




