Criadas (2025)

Fantasmas de carne e osso

título original (ano)
Criadas (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
105 minutos
direção
Carol Rodrigues
elenco
Ana Flavia Cavalcanti, Mawusi Tulani, Sarito Rodrigues, Ivy Souza, Rudmira Fula
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Criadas parte de uma premissa muito interessante. Numa família negra, uma mulher ascendeu socialmente graças ao casamento com um funcionário público, e fez da própria prima sua empregada doméstica. Logo, o lar abrigava uma relação de parentes, mas também de trabalho, o que obviamente colocava o núcleo de classe-média em posição de poder face ao núcleo desprivilegiado. Décadas mais tarde, as primas se reencontram: Mariana (Ana Flávia Cavalcanti), filha da patroa, tornou-se chef de cozinha, e Sandra (Mawusi Tulani), filha da empregada doméstica, ocupa um cargo de responsabilidade numa empresa de engenharia. Num gesto irrefletido, decidem morar juntas novamente.

Obviamente, a ciranda de tensões de raça e classe se multiplica: agora, Mariana tem sua própria empregada, uma mulher negra e estrangeira. A nova patroa não é percebida como negra por algumas pessoas brancas, em oposição a Sandra, uma mulher retinta. Estão dispostos inúmeros conflitos essenciais para se pensar o Brasil contemporâneo: o racismo estrutural, o machismo no ambiente de trabalho, o colorismo, a exploração do trabalho doméstico. O roteiro ainda inclui questões de orientação sexual (Mariana é lésbica), de corrupção no ambiente corporativo (um edifício construído a partir de cálculos errados), de ética profissional (é aceitável se relacionar com colegas de trabalho?), etc.

O filme não é nada sutil, nem ambíguo, no emprego das metáforas. Talvez o aspecto que mais surpreenda em Criadas diga respeito à direção de fotografia.

Como se percebe, não faltam ambições à diretora, roteirista e co-montadora Carol Rodrigues. É louvável que, em seu primeiro longa-metragem, tenha buscado efetuar um amplo panorama da sociedade brasileira a partir de, basicamente, duas atrizes dentro de uma casa. De fato, os melhores filmes de estreia costumam ser aqueles com coragem de assumir riscos, de apostar em abordagens radicais, ao invés de se diminuírem na busca por uma linguagem consensual. Julgando pelo prêmio do público na Mostra de São Paulo (onde o drama concorria com 84 produções nacionais), percebe-se que o sucesso na abordagem na comunicação com o público — uma conquista bastante significativa.

O caminho para discutir estas temáticas reside numa infinidade de símbolos. A narrativa se inicia com um quadro incendiado, cuja tela se restaura ao original diante dos nossos olhos. A imagem apresenta uma família negra, na condição de servidão. Adiante, um tableau vivant reproduz esta pose, com atores estáticos. Outro quadro, de uma mulher negra, será utilizado inúmeras vezes ao longo da jornada. Demais pinturas e gravuras relacionadas à negritude estampam a parede. Para afirmar que os problemas do passado não se apagam facilmente, passa-se o pano numa prateleira empoeirada que, segundos depois, volta a apresentar uma espessa camada de pó. Para destruir a estrutura desta casa que abrigou abusos e violências, decide-se, literalmente, atacar a casa — começando pela “parede que nos separa”.

O filme não é nada sutil, nem ambíguo, no emprego destas metáforas. A diretora acredita na necessidade de chegar bem perto dos ícones, e então sublinhá-los, explicá-los, até sobrar pouco ao espectador em termos de reflexão própria. Afinal, recebemos a explicação com tamanho didatismo que nunca temos real trabalho de elaboração a partir destas imagens e sons. A cena clássica da pessoa que corta o dedo com uma faca, enquanto pica legumes, se traduz numa frigideira refogando cebola, em plano próximo, com uma quantidade impensável de sangue junto ao alimento. No momento em que Sandra ameaça beijar o colega de trabalho, durante a festa em casa, a sugestão de que as pessoas possam reprovar tal ato se traduz num mar assustador de rostos congelados, ferozes, voltados ao quase-beijo. 

O ápice deste processo reside nas figuras que o filme batiza de “fantasmas de carne e osso” — novamente, ele esmiúça os próprios sentidos para não termos de deduzir sozinhos. Isso significa que Sandra e Mariana, enquanto crianças, materializam-se na casa, interferindo diretamente na vida das adultas. Outras relevantes figuras, já mortas, retornam, numa forma criativa de driblar os flashbacks habituais. Mesmo assim, a presença da pequena Sandra embaixo da cama, ou assombrando os cantos dos cômodos, nos aproxima do terror, em oposição a qualquer sensação de pertencimento, acolhimento, ou de completude em relação às suas versões mais velhas. O drama se esforça em trazer tudo o que lhe interessa para o centro deste palco único: assim, a engenheira de cargo relevante, chefiando um projeto de porte, não possui um escritório, precisando improvisar a área de trabalho num quarto modesto, e a festa da empresa se desloca à casa. Além disso, os fantasmas que se empenhe m chegar ao lar, posto que a câmera se recusa a abandonar o terreno.

Talvez o aspecto que mais surpreenda em Criadas diga respeito à direção de fotografia. Trata-se de um filme bastante colorido — não porque os figurinos, objetos e cenários o sejam, mas pela presença constante de luzes coloridas sobre as atrizes e a locação. É estranhíssimo que, no interior da cozinha, elas sejam banhadas por uma luz amarelada, enquanto as noites são traduzidas por fortes luzes azuis e cor de rosa, na sala e nos quartos. Durante a festa, o verde toma conta dos espaços. Além de não ajudarem a destacar as pessoas dos fundos, achatando corpos e reduzindo volumes e texturas, estes focos direcionais de luz colorida tampouco iluminam a contento os rostos e corpos das atrizes.

Pelo contrário, chegam a prejudicá-las: quando Mariana confessa ter sido demitida, após um dia estressante, a luz rosa-azulada é tão forte sobre seu rosto que acreditamos nos encontrar num filme de gênero, ao invés de um drama. As luzes profundamente azuladas que chegam da janela soam apropriadas a um projeto de ficção científica. É curioso que se tenha optado por um uso tão histriônico de luz e cores, sem correção de cor capaz de atenuar o arco-íris doméstico. Quando as protagonistas enfim se deslocam ao jardim, e conversam sob uma luz natural, em frente das folhagens, produz-se certo alívio junto ao espectador. Podemos, enfim, contemplar o jogo cênico, ao invés de tentarmos decifrar os motivos por trás da casa-boate.

Quanto às atrizes, Rodrigues conta com intérpretes talentosíssimas. Tem sido um prazer acompanhar a desenvoltura de Ana Flávia Cavalcanti com diálogos, encarnando suas falas com força e convicção. Nota-se uma atriz sem vaidades, entregue ao personagem com uma dedicação ímpar. Ela tem optado por produções coesas em temática e posicionamento, reforçando a ideia de uma artista engajada, artística e politicamente. Já Mawusi Tulani injeta uma carga de afeto considerável tanto nos instantes tristes quanto alegres, apostando na voz doce, no olhar cândido, nos gestos comedidos. Parear uma atriz tão voraz com outra de composição delicada resulta num belo encontro de sensibilidades, muito pertinentes à oposição entre as protagonistas.

Entretanto, elas recebem alguns diálogos endurecidos, estranhos à linguagem oral. Apesar do universo simbólico, as interações ainda se pretendem naturalistas, razão pela qual tantos verbos na primeira pessoa do plural, além de subjuntivos e ênclises, causem estranhamento. “Estou pensando em dispensá-la”. “Está pensando em demiti-la?”. Ora, quem fala desta maneira, em 2025, com a amiga com quem se cresceu, num contexto cotidiano e informal? Ainda que se trate de mulheres educadas, instruídas, o linguajar soa estranho na embocadura do elenco. Isso sem falar no texto rígido: “Não são todos os sonhos estranhos?”, “Essa coisa de honrar sacrifícios só gera tragédias”, “A gente nunca fala de negritude e racismo em casa”.

Nota-se a tendência a colocar na boca das atrizes tudo aquilo que se pensa, como se as personagens possuíssem um grau sobre-humano de elaboração intelectual de si próprias. Elas não gaguejam, não buscam palavras, não se repetem, não divagam. Os diálogos mostram-se ar-ti-cu-la-dos, em meio a interações um tanto abruptas — vide a empregada estrangeira rejeitando rispidamente Sandra; a guinada quase cômica de tons por parte da mãe de Mariana, logo após encontrar a nova residente; a sedução com Samuel sob a luz esverdeada. A mise en scène sustenta um caráter engessado, posto que os temas se sobrepõem às subjetividades: estas mulheres são exemplos de uma causa, ao invés de subjetividades próximas de pessoas comuns. Por isso, tamanha pompa nos enfrentamentos, nas falas, e na seriedades destes símbolos sepulcrais, analógicos, excessivamente concretos, a ponto de materializar fantasmas e destruir muros a marteladas.

Por fim, Criadas deixa a impressão de ter incorporado mais discussões do que conseguiria desenvolver, e mais ambições do que caberiam neste espaço da casa, razão pela qual os conflitos se aceleram via diálogos diretos, e guinadas bruscas de temperamento e tom. Ao menos, o filme transborda de uma bem-vinda vontade de cinema, uma crença profunda na ficção enquanto canalizadora de todos os dilemas da sociedade — uma possibilidade de pensar, coletivamente, nos principais obstáculos sociais que nos restam a superar. Caso esta abordagem seja corajosa ou ingênua, caberá ao espectador determinar.

Criadas (2025)
4
Nota 4/10

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