
Onde houve violência, hoje há educação. Conforme o título indica, Dança dos Vagalumes é um filme em constante busca da iluminação, no sentido iluminista do termo. Na trama, Joana (Amanda Abranches) é uma professora que retorna ao assentamento do MST onde passou a infância. Chegando no local, ela se lembra da tragédia que lhe tirou o pai, ainda pequena (quando é interpretada por Karoliny da Cruz Cardoso). No entanto, na tentativa de mudar este caminho para a nova geração, começa a lecionar para crianças do mesmo local. Nas aulas, obras de arte são utilizadas para estimular a imaginação e proporcionar uma visão de futuro na qual os pequenos possuem autonomia sobre suas trajetórias.
O curta-metragem certamente pode ser descrito como sonhador — mas não ingênuo. O diretor Maikon Nery contrasta o ponto de vista da criança, brincando com os colegas no território onde morava, a cenas brutais do ataque ao pai. Entre os dois, existe este imaginário de uma fantasmagoria paterna, que surge à distância, sem rosto, nem falas. A figura adulta e masculina cerca a pequena Joana na condição de uma sombra da qual ela não pretende se afastar. Demoramos, inclusive, a compreender que se trata de fato do pai, humanizado ao longo da narrativa. Sua única conversa, de fato, surge no final, quando assume a função de um guia para o futuro da garota.
Dança dos Vagalumes representa a importante busca por uma estética política que fuja aos imperativos do realismo social.
Como se percebe, toda a narrativa se constrói em torno da estrutura de uma passagem de bastão. O pai transmite conhecimento à filha; a Joana adulta dialoga em chave fantástica com sua versão criança; e os vagalumes do título literalmente conduzem o tempo e a compreensão da menina. “O passado não lança luz sobre o presente. O presente não lança luz sobre o passado”. “O pouco tempo que nos separa da morte tem a consistência de um sonho”, explica a narradora em off, de voz infantil. É curioso nos deparar com tamanha sagacidade e existencialismo filtrada pelo timbre de uma garotinha.
O cineasta explicou, na coletiva de imprensa, se tratar de sua representação do vagalume. A natureza se converteria em condutor. Mesmo que não se apreenda de imediato tal leitura, trata-se de um descolamento voluntário do real, rumo a uma fantasia assumida. A única maneira de tornar a violência aceitável em tela reside, precisamente, na fuga da espetacularização (os tiros ocorrendo por meio de sombras, atrás de uma tenda) e na rejeição de uma morte próxima demais de nossas vivências. Para refletirmos a respeito das perseguições políticas e dos acertos de conta em territórios de resistência, precisamos dialogar por meio da razão, não dos sentimentos epidérmicos (medo, repulsa, raiva).
Dança dos Vagalumes atinge seus melhores momentos nos recursos poéticos. Tanto o início, com borrões de luz animados (sugerindo uma fusão orgânica entre as crianças e a natureza), quanto o final, no qual flares e demais pontos luminosos coincidem a nova geração com estes vagalumes, atingem uma delicadeza simples, eficaz em termos de metáfora, e muito bem filmada, fotografada e montada. Conforme se aproxima da abstração, mais potente soa o discurso filosófico e seu antídoto da brutalidade da vida por meio da arte.
Em contrapartida, a obra se mostra menos eficaz em momentos mais claramente roteirizados, quando as falas soam pouco orgânicas na boca dos atores, e a câmera se mostra travada, sem saber ao certo como se posicionar diante do elenco e dos espaços. Todo o despojamento dos bailes luminosos desaparece na conversa engessada dentro do ônibus (“Aceita uma bala?”), e mesmo no discurso formatado demais do pai ao final. O artifício mais aceitável ainda será aquele assumido enquanto tal — no caso, a narração infantil/animal da criança reflexiva, transitando entre gerações.


De qualquer modo, o projeto representa a importante busca por uma estética política que fuja aos imperativos do realismo social. Diversos curtas-metragens apresentam assentamentos e lutas por direitos humanos por um prisma do respeito acanhado, acreditando ser necessário abrir câmera e filmar o que se passa à sua frente, evitando humildemente a construção a partir do real. Nery, por sua vez, intervém no meio, elaborando formas, discursos e metáforas com ele, a partir dele. Entende que homenagear aquela instituição implica em lhe oferecer uma espécie de mito fundador, uma fábula sintética de suas origens e suas potencialidades. Trata-se de um discurso tão simples, em termos de narrativa, quanto ambicioso, em seu significado.




