
É muito saudável encontrar, dentro de um festival voltado a filmes clássico-narrativos, uma experimentação desta natureza. Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto é realizado a partir de películas 16mm vencidas, encontradas num depósito. Logo, o desgaste da imagem, as sujeiras e imperfeições são não apenas tolerados, como fomentados pelos diretores. O início, bastante radical, se dedica às formas corroídas, formando uma coreografia abstrata de manchas negras sobre o fundo branco — em preparação ao estilo que estaria por vir.
Weyna Macedo, Lucas Parente, Adeciany Castro e Mariana Smith optam por uma representação ousada dos eventos ocorridos no Ceará, nas primeiras décadas do século XX. Fugindo tanto ao documentário tradicional (que investigaria, através de materiais de arquivo, as configurações desta comunidade e o massacre pelo governo Vargas), quanto à recriação fictícia, prefere uma espécie de alusão metonímica aos eventos. Os espaços, com suas paisagens, igrejas e construções, estão presentes, ainda que nenhum rosto humano se encontre nas imagens.
Mesmo assim, os criadores sobrepõem vozes e ruídos aos espaços, permitindo que estas evocações fantasmáticas se projetem sobre as localidades onde os participantes do movimento costumavam existir. Em oposição ao cinema almejando um resgate direto dos fatos, opta-se pela estética da violência, do incômodo, da disrupção — uma representação pela ausência. As pessoas estão impregnadas em cada fotograma do curta-metragem, ainda que afastadas de seu referente, do corpo. O estranhamento do registro se prova fundamental à reflexão proposta pelos autores.
Em paralelo, erguem-se os espaços à condição de protagonista, evocando um ideal de coletividade. A arquitetura enquadrada de maneira despojada, móvel, junto aos cães distorcidos pela fotografia, aludem a esta forma bastante peculiar de mostrar e ocultar ao mesmo tempo — como se a imagem nunca procurasse o status de verdade, nem o objetivo de revelar as coisas como realmente são. O filme se mostra particularmente bem-sucedido na percepção da História enquanto construção social e, no caso, artística. Partimos de algo concreto e fatual (o Caldeirão, o ataque, as películas) a uma forma de abstração — uma bela dança dos sentidos na tela.




