Dust (2026)

A mera constatação dos fatos

título original (ano)
Dust (2026)
país
Bélgica, Polônia, Grécia, Reino Unido
gênero
Suspense
duração
115 minutos
direção
Anke Blondé
elenco
Arieh Worthalter, Jan Hammenecker, Thibaud Dooms, Anthony Welsh
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

Dust é um filme estranhíssimo. O espectador pode passar os 115 minutos perguntando-se por que, afinal, está vendo esta história. Por que a diretora Anke Blondé decidiu contá-la? O que pretendia discutir a partir desta premissa de fraude financeira? Qual é o seu posicionamento em relação aos protagonistas, dois dirigentes riquíssimos e corruptos? Ao final da sessão, as dúvidas persistem. Afinal, o longa-metragem sabe apresentar uma sequência de ações, mas nunca um ponto de vista, nem um comentário a respeito dos mesmos.

Assim, descobrimos o calvário de Geert (Arieh Worthalter) e Luc (Jan Hammenecker), amigos inseparáveis e porta-vozes do empreendimento conjunto. Durante uma festa, são ameaçados por um jornalista no banheiro. Descobrem que já existem provas quanto às empresas fictícias criadas por ambos, para inflar artificialmente seu valor de mercado. Uma matéria já foi escrita, e será publicada dentro de 36 horas. Afinal, por que motivo o jornalista Aaron (Anthony Welsh) decidiu alertá-los com antecedência? O que esperava obter a partir de tal afronta? Apenas fornecer tempo para destruírem as evidências? Mistério. A narrativa inteira se concentra neste dia e meio antes da queda inevitável de ambos. Por isso, pensam na prisão, cogitam fugir do país.

Dust corre o sério risco de soar conivente com estes dirigentes ou, pior ainda, de considerá-los vítimas do mal que causaram.

Talvez o foco se encontrasse, então, no pavor de dois homens de poder, finalmente confrontados aos seus crimes. Haveria certo prazer em descrever a ruína destas figuras poderosas, seguras de sua impunidade. Em contrapartida, a direção impede o espectador de mergulhar por este caminho. A trilha sonora até sugere um suspense intenso, e o trabalho de fotografia acredita mergulhar a dupla central num purgatório sinistro de perigos e reviravoltas. Entretanto, os rumos se mostram previsíveis, serenos, e surpreendentemente desprovidos de tensão. Nada ocorre em quase duas horas para alterar esta realidade, nem empregá-la enquanto metáfora mais ampla do poder.

Isso porque ambos os sujeitos se mostram incompreensivelmente passivos face à derrocada. Qualquer empresário rico e repleto de contatos no governo pensaria em chantagem, em contra-ataques financeiros, em ameaças físicas e psicológicas à família de seus algozes. Em outras palavras, responderia à altura — e o cinema de máfia transborda de exemplos de respostas violentas a quem os incomoda. Já Luc e Geert contentam-se com o impasse, aceitando sua sina. Reclamam, gritam, choram, mas se vestem para a chegada do carro da polícia que, às 9h da manhã, virá buscá-los. Destroem algumas provas, porém, preservam outras. Ficam em casa e bebem uísque, tristes. Dão os últimos beijos nos amantes. O destino está traçado.

Em consequência, estes heróis permanecem a uma distância considerável do espectador. Como poderíamos nos identificar com os homens que mal conhecemos? Caso, de fato, sejam destruídos pela repercussão do artigo de jornal, do que abrirão mão na cadeia? Amam muitíssimo a esposa, a amante, os filhos, suas posses? Nunca compreendemos sua rotina, nem seus desejos ou gostos, a ponto de deduzir o que a decadência implicaria para ambos. Eles possuem desculpas simplórias aos crimes (“Todo mundo sabia”, “Eu só queria colocar essa região no século XXI”), em chave infantil. Em contrapartida, nem mesmo pensam em articular uma resposta à altura junto à equipe de advogados.

Se não possui desejo real de conhecê-los, por que então o longa-metragem escolhe seguir o percurso pela perspectiva dos falsários — ao invés das vítimas, dos policiais, do governo, dos colegas de trabalho? O que esperava obter destas figuras de pouca interação mútua, e mínima intimidade demonstrada em imagens (apesar de intensamente sugerida em diálogos), além de profunda inércia em cena? Dust corre o sério risco de soar conivente com estes dirigentes ou, pior ainda, de considerá-los vítimas do mal que causaram. Afinal, dedica-se unicamente ao sofrimento dos homens, em detrimento de outros afetados por seus desmandos (que fossem os acionistas, os familiares, etc.). Possui piedade deles? 

Seria um exagero dizer que o projeto os critica, posto que o discurso jamais elabora nenhum pensamento articulado a partir do caso deles, enquanto sintoma geral do universo empresarial e da especulação financeira. Criadores como Aaron Sorkin e Adam McKay se divertiriam a partir da mesma premissa, apontando a crise nos valores contemporâneos, a rede de intrigas e subornos, o descontrole dos ricos e os receios de seus subordinados. Já Blondé os observa de modo plácido, conformista, um tanto melancólico. Alerta para a existência de um episódio pontual, entretanto, jamais esclarece para seu interlocutor o que conclui a respeito deste caso que lhe ocupa uma obra inteira.

Certo, há recursos pontualmente interessantes em Dust, a exemplo dos raccords de som entre duas cenas, quando os efeitos sonoros de um relógio se unem às batidas da trilha sonora na sequência seguinte, ou o ruído da empresa se confunde com o barulho de outro local. Os encontros de Geert com seu motorista e amante também apresentam as únicas faíscas de desejo e tesão num projeto de profunda apatia. Infelizmente, estas cenas se perdem diante de simbologias comicamente óbvias: a palavra “ambição” repetida pelo sistema vocal do computador; os pés de Luc literalmente afundados na lama; a camisa deste, cada vez mais suja, tal qual uma Lady Macbeth do universo corporativo. 

No entanto, o resultado jamais critica o sistema, suas desigualdades ou falhas. Nunca incomoda ninguém, poupando o mundo inteiro ao redor de Luc e Geert da ruína de ambos. Nem mesmo a dupla central será particularmente visada por este posicionamento covarde e pudico face aos delitos das altas esferas do poder. Blondé os apresenta enquanto duas maçãs podres, casos excepcionais que não aparentam transmitir nada a respeito de uma mentalidade mais ampla, ou de uma rede financeira. Erraram e serão punidos, simples assim. O mundo (e as falcatruas) continuam. 

Dust (2026)
3
Nota 3/10

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