
Um filho adulto e sua mãe idosa conversam num café. “O de sempre, por favor”, eles pedem ao garçom, indicando que os encontros ocorrem com frequência, no mesmo estabelecimento. O curta-metragem apresenta seus dois temas centrais de imediato, ainda que de maneira (felizmente) pouco explicativa. Para abordar a homossexualidade, Fernando (Raphael Viana) é visto, nos primeiros segundos, beijando seu noivo. Para evocar o Alzheimer, Ana (Ângela Rebello) logo mostra-se confusa e esquecida, em suas primeiras aparições. Os criadores têm pressa para chegar ao cruzamento destas questões.
Percebe-se, então, que o rapaz precisa se declarar gay repetidas vezes à mãe conservadora, avessa à ideia do casamento entre dois homens. Ambos sofrem com esta interação: ele, por se sentir rejeitado em múltiplas ocasiões, e ela, por lidar com esta velha-nova contrariedade. Talvez a confissão pudesse trazer certo alívio a Fernando, pela possibilidade de diluir o peso do momento-chave nas sucessivas tentativas. No entanto, para ele, o dilema se converte em algo ainda mais pesaroso. O título diz respeito a um diálogo do homem, decepcionado em perceber o esquecimento de uma fala tão importante para ele.
Os atores apresentam prestações distintas: ele opta por um registro internalizado, de voz pouco projetada — tão delicada quanto minimalista. Já ela exterioriza a desordem mental nos gestos com as mãos, no olhar fugidio, nas tentativas de se recompor, no curso ao caderno de memórias que carrega consigo. O corpo se move e agita com frequência, algo reforçado pela insistência nos close-ups. A presença da palavra “Lembrar?”, escrita no verso de uma fotografia, talvez busque certo lirismo, embora somente reforce aquilo que o filme vinha trabalhando com maior sutileza até então. Pode soar graciosa à primeira vista, porém, aparenta inverossímil naquele contexto.
Apesar de trabalhar com dois temas chamativos, e tratados como conflitos em si próprios, o elemento que mais chama a atenção em Eu Não Sei se Vou Ter que Falar Tudo de Novo diz respeito ao uso da janela em scope, ou seja, o formato mais retangular da imagem. Trata-se de uma escolha atípica para um curta-metragem focado numa simples conversa, com os protagonistas sentados, interagindo em plano e contraplano. O formato sugere um uso específico dos espaços, ou a importância de algo que ocorreria ao redor deles (os demais clientes do café, ou pessoas que entram e saem do quadro), apesar de nada disso acontecer de fato.
Quando a câmera desliza rumo ao caderninho de Ana, retornando ao rosto da mulher no mesmo plano, percebe-se como o movimento deste estreito retângulo destoa do intimismo buscado pelos cineastas Vitória Fallavena e Thassilo Weber. O filme parece almejar a uma grandiosidade estética que nunca encontra equivalência no tratamento de sutilezas e subentendidos. Ao menos, os autores demonstram um olhar sem julgamentos, retirando o moralismo de cena — aqui, interessam unicamente a aceitação do filho pela mãe, e de mais ninguém ao redor. Assim, neste embate constante entre o privado (a confissão) e o público (o espaço do bar), entre o definitivo (a sexualidade, a escolha pelo casamento) e o efêmero (a necessidade de confessar-se mais uma vez), o filme tateia seu caminho, obtendo mais êxito no roteiro do que na direção.






