Fabulosas: Operação Aranha (2025)

A detetive no escuro

título original (ano)
Fabulosas: Operação Aranha (2025)
país
Brasil
gênero
Suspense, Fantasia
duração
15 minutos
direção
TH Fernandes, Lua Lamberti
elenco
Glamour Garcia, Lua Lamberti
visto em
9ª Mostra Quelly (2025)

Quando um crime transfóbico assola a cidade, apenas uma jornalista travesti é capaz de desvendar o que realmente aconteceu. (Ou talvez ela seja a única a demonstrar interesse suficiente em revelar a verdade). Este é o ponto de partida de Fabulosas: Operação Aranha, filme que coloca mulheres trans na condição de protagonistas, ajudando umas às outras de modo a preencher uma lacuna do Estado. Na falta de segurança e direitos a estas mulheres, acabando se tornando suas próprias heroínas.

A direção de TH Fernandes e Lua Lamberti mergulha tanto numa atmosfera kitsch, de ares cômicos (vide o exuberante telefone fixo coberto de pedrarias, ou o sutiã-cinto da trabalhadora do sexo) quanto no suspense noir clássico. Neste aspecto, imagina conversas ocorrendo na calada da noite para encontrar o assassino, enquanto se narra a possível existência de uma criatura dotada de um focinho… O aspecto realista, referente aos ataques a pessoas trans e travestis, integra uma rede de fantasia muito mais ampla onde se combate, em última instância, a monstruosidade do patriarcado.

O que mais chama atenção nesta atmosfera de suspense diz respeito às imagens escuríssimas.

No entanto, o que mais chama atenção nesta atmosfera de suspense diz respeito às imagens escuríssimas. Compreende-se que o gênero apele a cenas no escuro. É comum encontrar, nos thrillers, escritórios à meia-luz e conversas sinistras no parque. No entanto, os ambientes se tornam escuros até demais. Ressente-se a falta de focos de luz pensados para o rosto das atrizes e os elementos de cenário e figurino. Seria plenamente possível registrar a conversa no banco externo de maneira a iluminar apropriadamente os rostos, além de sugerir um escritório na penumbra sem literalmente mergulhar o conjunto num escuro indistinto.

Da maneira como corpos e espaços foram captados, nem a composição do elenco (a expressividade dos rostos e a corporalidade), nem a direção de arte é valorizada a contento. Até a casa da irmã resulta inexplicavelmente sombria, com crianças brincando na penumbra da sala de estar. Em paralelo, o impacto do gelo seco na parte externa (elemento comum da sugestão de medo no cinema de terror) é minimizado graças à escolha bastante particular de iluminação. 

Em paralelo, os elementos da investigação são incorporados ao roteiro sem uma exploração aprofundada dos símbolos. A criatura com o focinho, o bebê-buquê sendo embalado numa espécie de performance, e as fontes e vivências da prostituta necessitariam maior atenção pela trama. A solução encontrada para o mistério se mostra tão justificável, em termos políticos, quanto pouco plausível enquanto resultado da magra apuração conduzida pela detetive. Em outras palavras, o curta sabe exatamente o que pretende denunciar, mas se perde um pouco em como fazê-lo, a partir das amplas possibilidades do cinema de gênero.

Resta uma disposição bastante saudável em reinventar papéis para pessoas trans, e em fabular formas de violência sem necessariamente reproduzi-las em imagens. Fabulosas: Operação Aranha possui uma clareza ética importante a respeito do que mostrar e do que sugerir, e de qual mensagem transmitir a partir da fantasia. Falta somente maior polimento na utilização de símbolos e nas escolhas estéticas, para que o discurso chame mais atenção para si mesmo do que as escolhas pontuais de um ou outro departamento criativo.

Fabulosas: Operação Aranha (2025)
4
Nota 4/10

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