
A princípio, Firmina interessa enquanto crônica. Partindo do roteiro de Adelmo Passos, a diretora Izah Neiva registra a entrega de uma caixa da pintora Firmina (Teca Pereira), esquecida no caminhão de mudança — uma maneira funcional de informar o espectador a respeito do novo apartamento. A quantidade de detalhes cotidianos incorporados ao processo é muito bem-vinda: o interfone que não funciona, a ida da mulher ao banheiro. Nota-se a vontade de registrar dias comuns de uma classe média, nos quais se incluem os telefonemas atenciosos do filho (Babu Santana).
No entanto, o conflito principal não tarda a aparecer. A mulher escuta uma vizinha gritando por socorro. Aparentemente, é vítima de violência doméstica, apesar de o trabalho sonoro se mostrar bastante discreto na construção dos acontecimentos. Na hora de mergulhar no apartamento vizinho, a direção se solta, flagrando o rosto de uma jovem mulher aos gritos (mistura de imaginação e lembrança da protagonista), face à figura fantasmática de um tirano em contraluz. Além da vizinha, a protagonista precisa salvar a si própria.
Infelizmente, o roteiro investe em alguns quiproquós convenientes, e pouco verossímeis naquele contexto. Firmina perde a chave da porta de entrada, e o telefone celular não funciona. O interfone fora de serviço se converte em obstáculo suplementar. Nota-se o prazer em dificultar este auxílio emergencial, somente para que os esforços da mulher idosa sejam ainda mais corajosos ao inventar maneiras de chamar a atenção dos passantes na rua, e garantir a segurança da outra. Assim, sob pretexto de valorizar a rede de apoio entre mulheres, o discurso privilegia uma forma de heroísmo sacrificial.
Ao final, a vítima será revelada com uma maquiagem exageradíssima, mais próxima da comédia do que do drama, enquanto a frase de efeito na imagem final sublinha a mensagem suficientemente clara até então. O que dizer de dois idosos jogando dominó numa banquinha em plena Avenida Paulista, como se fosse uma pequena rua de bairro? O curta-metragem não se mostra particularmente sutil na condução, nem no alerta.
Em contrapartida, é ótimo encontrar Teca Pereira no papel de uma pintora autônoma, assim como Babu Santana encarnando o filho carinhoso. A dupla de Kasa Branca sai dos papéis ligados às limitações da idade e à exclusão social, para representarem uma família funcional e carinhosa. A narrativa se sai melhor nas belas imagens do cotidiano do que na responsabilidade autoatribuída de cautionary tale. Mesmo assim, possui clara noção do escopo da sua produção e da amplitude que consegue encaixar no formato específico do curta-metragem.




