Floresta do Fim do Mundo (2026)

Apocalipse sereno

título original (ano)
Floresta do Fim do Mundo (2026)
país
Brasil
linguagem
Experimental
duração
25 minutos
direção
Felipe M. Bragança, Denilson Baniwa
elenco
Iracema Pankararu, Ítalo Martins, Ywyzar Tentehar
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

Suely (Iracema Pankararu) sonha com a floresta, porém, acorda na cidade. Dentro de seu apartamento, ela segura uma pequena planta. Floresta do Fim do Mundo parte do deslocamento dos indígenas Baniwa, das aldeias às grandes cidades no Amazonas. Ali, a protagonista trabalha numa empresa de reciclagem, enquanto Jennifer (Ywyzar Tentehar), com quem divide o apartamento, atende clientes numa loja. Nenhuma delas aparenta ter amigos, nem laços sólidos com a comunidade local. As duas mal interagem entre si.

A estética de solidão domina o curta-metragem, embora a forte melancolia nunca signifique passividade, pelo contrário. Em meio ao cotidiano repetitivo das duas mulheres, descobre-se que a natureza está cansada, e dispara suas ameaças a quem possa escutá-la (apenas Suely, no caso): “Nossa paciência está acabando. O tempo deles está acabando, e eles sabem disso”. No trabalho, até os fantasmas são cobertos de plástico, enquanto as máquinas de reciclagem efetuam barulhos assustadores. Com a força de seus ganchos metálicos, esmagam curiosas matérias vivas. Estamos próximos do imaginário da ficção científica.

Enquanto isso, num bar, a heroína encontra uma tristeza para se espelhar na sua. Jorge (Ítalo Martins, ainda embebido no pesar de Uma Baleia pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba) a ensina a dançar no salão escuro e vazio, onde se escuta unicamente a música tocando para os dois. Aqui, os espaços existem enquanto palcos para a performatividade da mulher serena, que ocupa tanto apartamentos (com motivos indígenas nas paredes) quanto paisagens naturais, manifestando a resiliência de quem não se abala com mais nada. No fundo, apenas a mulher introvertida está ciente do nosso prazo de validade enquanto civilização. Sua postura estoica (afinal, ela continua frequentando o trabalho e os bares) significa uma estranha forma de resistência.

Para um mundo deslocado, uma estética deslocada. A montagem de Lobo Mauro fragmenta a temporalidade, retornando às passagens iniciais para completar seu sentido. Assim, voltamos para escutar a mensagem integral de Jennifer à mãe, e também para contemplar o final da dança com Jorge, e descobrir a origem do misterioso fone de ouvido cor de rosa. Já a direção de fotografia de Guilherme Tostes brinca entre luz e sombra, deixando o rapaz explosivo num canto, obscurecido ao lado da jukebox. Adiante, a luz insinua mais do que revela a respeito dos segredos monstruosos no galpão de lixo. Por que, afinal, precisaríamos ver tudo? Por que o espectador não poderia passear a atenção pelo enquadramento de luz homogênea, e decidir por si mesmo onde repousar o olhar?

Assim, a artificialidade se justifica dentro de um projeto que brinca com a instalação, a performance e os sentidos amplos — sem intenção de se explicarem ao espectador. Aos poucos, Suely carrega consigo a floresta, como se a natureza a abraçasse e acompanhasse. É interessante nos depararmos com um cinema indígena tão descolado do naturalismo e do aspecto documental ao qual ainda costuma se associar nas produções brasileiras. “Acordei com vontade de atropelar o mundo”, confessa Jorge. Já Suely, em paz, aproveita o tempo que lhe resta. Se não pode combater a destruição do planeta, causada pelos vizinhos da cidade, então, pelo menos, que se divirta durante a noite. Há poesia mais bela do que uma natureza furiosa que, antes de exterminar a humanidade, pergunta à protagonista se ela já aprendeu a dançar?

Floresta do Fim do Mundo (2026)
8
Nota 8/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.