
Four Minus Three constitui, na terminologia do audiovisual, um caso exemplar de “filme de personagem”. Isso significa que, do início ao fim, a história segue Barbara (Valerie Pachner), que ocupa a integralidade das cenas e a maioria absoluta das imagens. Em detalhes, a câmera testemunha seus sentimentos de dúvida quando recebe a ligação apontando o possível acidente sofrido pelos familiares. Descobre o desespero dela ao se confirmar o falecimento do marido e das duas crianças pequenas. Presencia os choros, os gritos, a revolta. Acompanha, passo a passo, as fases do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
A narrativa adapta o livro de Barbara Pachl-Eberhart, baseado em sua experiência real. É importante, ao diretor Adrian Goiginger, respeitar o material de origem, assim como comprovar ao espectador sua busca por intérpretes fisicamente semelhantes às pessoas verídicas (conforme atestam as fotografias na conclusão). Logo, o projeto sustenta uma aparência solene, sepulcral, por lidar não apenas com a vivência íntima de outra pessoa, mas também com uma tragédia envolvendo a perda de crianças. Há espaço para liberdades e respiros, contanto que nunca desviem a atenção da protagonista. Esta seria, em outras palavras, uma biografia autorizada, oficial.
Four Minus Three negocia constantemente entre as convenções acadêmicas e uma forma de respiro e liberdade em relação ao imaginário do luto.
Deste modo, vaidades de direção estão ausentes da mise en scène. Nenhum enquadramento, nenhuma escolha de iluminação ou profundidade de campo chama atenção para a astúcia do diretor, ou o preciosismo da direção de fotografia. O trabalho de som combina o naturalismo de falas e ruídos com a trilha sonora mais convencional possível ao melodrama: melodia instrumental de pianos tristes, composições de cordas mais intensas nos ápices emocionais. Adota-se uma cartilha clássica em termos de construção de linguagem. Nem a montagem busca fricções e subentendidos, nem a direção exige de seu elenco qualquer movimento contrário à finalidade evidente de cada cena. Nota-se uma economia de sentidos, e um pragmatismo na condução desta jornada sentimental.
Felizmente, Valerie Pachner possui recursos de sobra para atribuir variação à mater dolorosa. Nas mãos de uma intérprete menos qualificada, a personagem beiraria a chantagem emocional. Aqui, Barbara tem direito a inquietações, que evoluem a estados de choro ou indignação mais intensos. Chega ao riso, ao alívio, à trégua com os acontecimentos. Oscila entre o furor e a apatia, entre a ira e o contentamento. Há espaço tanto para cenas de uma angústia convencional (a mulher que abraça o computador enquanto assiste a vídeos dos filhos na piscina) quanto para metáforas mais elaboradas e, portanto, de maior interessante (o abraço no homem recém-conhecido, vestindo a blusa preferida do falecido, e interpretando o papel do marido com quem ela se comunica pela última vez).
Logo, Four Minus Three negocia constantemente entre as convenções acadêmicas e uma forma de respiro e liberdade em relação ao imaginário do luto. A produção austríaca-alemã se sai muito melhor quando foge do aspecto comportado, e da homenagem à mulher sofredora. As cenas em que explora a libido agressiva de Barbara em relação aos homens (flertando com Friedrich e com um rapaz no show de música), enquanto forma de produzir novas sensações, mergulha numa corporeidade interessante, libertando a heroína da condição de mãe e esposa. A tendência a transformar estes instantes em encontros tragicômicos, que nunca atingem o gozo, também aprofunda a complexidade da sexualidade face à dor.
Algo semelhante ocorre com a exploração de símbolos, sobretudo relacionados à profissão de palhaço. A sequência de releitura do número efetuado pelo marido, empregando um balão vermelho, produz belo efeito poético, ao passo que o encontro silencioso com um palhaço idoso resulta numa das melhores cenas do longa-metragem. Há certa pureza nesta encenação-dentro-da-encenação, um teor lúdico que se confronta muito bem à dor naturalista da personagem central. As lágrimas de Barbara, devidamente maquiada e vestida de palhaça, se tornam ainda mais flagrantes devido ao contexto de alegria pressuposto à personagem cômica (a contradição do palhaço triste, que tanto interessa às óperas e ao teatro clássico).
Em contrapartida, certos lugares-comuns da reconstrução de si resultam menos inspirados. A chegada de Friedrich (Hanno Koffler) à rotina de Barbara soa providencial, acessória, em especial quando o homem forte comprova sua capacidade de cortar lenha e cuidar dela, quando ninguém mais o faz. O elogio à virilidade tradicional (a mulher precisaria ser auxiliada por um sujeito musculoso) diminui os esforços da protagonista, que caminhava muito bem sozinha. Os constantes flashbacks sobre o cotidiano feliz do casal, incluindo brincadeiras com as crianças, reforça o carinho da heroína, porém, soa como mero artifício para aprofundar o pesar e o teor emotivo da experiência. As lembranças nunca são representadas, ou sublimadas por meio de metáforas contemporâneas — prefere-se simplesmente voltar ao passado e apontar que constituíam um núcleo feliz.


O mesmo pode ser dito das cenas-padrão em dramas a respeito da perda de familiares: o retorno repentino ao trabalho, motivando desconfiança e desaprovação dos colegas; a crise desesperada de choro em posição fetal; a arrumação dos brinquedos dos pequenos, até se deparar com a pelúcia preferida da filha. Em paralelo, os diálogos a respeito de uma crença no retorno da garota (ou seja, uma mistura de negação e barganha) apontam para o suspense, ou um possível conteúdo sobrenatural, jamais concretizado em imagens. Há uma quantidade excessiva de elementos em cena, talvez no intuito de contemplar diversas passagens detalhadas pelo livro de origem. Ao invés de abreviar passagens e suprimir conflitos, aceleram-se as guinadas na vida de Barbara.
Entre choros e dores, restará sobretudo a sequência excepcional de um velório e enterro com palhaços, amigos de Heli (Robert Stadlober), interpretando uma canção apreciada pelo falecido. A ideia de celebrar os mortos, de festejar sua existência, ao invés de meramente lamentá-la, nunca contamina o drama na totalidade, porém oferece um bem-vindo respiro à dor da protagonista. Quando a tristeza é invadida por balões, cores, música e sorrisos, Goiginger encontra o equilíbrio ideal para respeitar os sentimentos da mulher, sem limitá-la à condição de vítima das circunstâncias. Elabora um cinema simples, respeitoso, pouco afeito às invenções e ao arroubos autorais. Mesmo assim, no aspecto humano e empático, desenha um retrato feminino comovente.




