Fronteriza (2025)

A terceira margem do rio

título original (ano)
Fronteriza (2025)
país
Brasil, Paraguai
gênero
Drama
duração
20 minutos
direção
Rosa Caldeira, Nay Mendl
elenco
Nay Mendl, Diegoló
visto em
9ª Mostra Quelly (2025)

O curta-metragem parte de uma metáfora potente. Ao analisar a fronteira entre países, ele pensa em paralelo as fronteiras entre identidades (homem e mulher, cis e trans, e todas as possibilidades entre estes). A linha imaginária demarcando Brasil, Argentina e Paraguai funciona como elemento para discutir o pertencimento de Lucca (o diretor Nay Mendl), rapaz brasileiro em busca do pai que o abandonou para morar em terras paraguaias. Neste percurso, encontra seu alter-ego, Diego (Diegoló), que se anuncia como possível irmão biológico encontrado, por acaso, no país vizinho.

Como se percebe, o caráter fortemente documental se conecta com um elemento fabular. A narração relembra o espectador da lenda de dois irmãos criados em margens distintas de um rio, condenados a se admirarem à distância, diariamente. Através deste relato, Mendl e o diretor Rosa Caldeira condicionam nosso olhar à fraternidade entre os protagonistas, ao invés de um possível romance que poderia surgir do contato inesperado. Afinal, eles se identificam de imediato em meio à multidão, atraindo-se por meio de um contato magnético. 

Fronteriza se sobressai através do contato amigável entre pessoas e nações, entendendo-se e tateando-se com um misto de curiosidade e pudor.

O naturalismo permite, sem dúvida, alto grau de romantização a respeito do caráter reparador dos encontros. Enquanto se filma o diretor filmando com uma câmera caseira (caso em que a aparência documental se assume enquanto ficcionalização metalinguística), a montagem incorpora imagens de aparência caseira e improvisada. Isso se percebe, por exemplo, quando Lucca segura, em uma das mãos, as fotografias familiares, e, na outra, a câmera que registra estas mesmas fotos. Este também é um projeto sobre o ato de produzir imagens (de si e dos demais).

Os melhores momentos decorrem da interação bastante afetuosa entre Lucca e Diego, quando se observam dormir, ou se ajudam a literalmente atravessar a Ponte da Amizade. As conversas entre os rapazes soam espontâneas, desprovidas de amarras de um roteiro predeterminado. É possível crer na afinidade entre os protagonistas graças à preciosa atenção dos diretores aos detalhes cotidianos. Quando se concentra em minúcias do dia a dia, o resultado se fortalece.

Em contrapartida, alguns recursos da narração em off soam convenientes demais. Os criadores apostam em frágeis perguntas retóricas de Lucca ao pai ausente, enquanto forma de informar o espectador a respeito desta separação na infância. “Será que foi aqui que você decidiu que não ia mais voltar?”, “Será que você vai me reconhecer?”. A retórica afetuosa à la Petra Costa transparece o aspecto formulaico de um projeto que, com exceção destes fragmentos, transborda de naturalidade.

Por fim, Fronteriza se sobressai através do contato amigável entre pessoas e nações, entendendo-se e tateando-se com um misto de curiosidade e pudor. O elemento da língua guarani coroa esta representação da alteridade — a possibilidade de encontrar um outro de nós nos territórios que ainda não desbravamos. O espelhamento, no caso, não ocorre entre homens trans, mas entre rapazes abandonados pelo pai.

Logo, os cineastas colocam o dilema familiar acima dos conflitos relacionados à identidade de gênero. Encaminham-se, deste modo, à tão aguardada fase do nosso cinema, na qual vivências LGBTQIA+ serão abordadas por seus problemas universais com a família, o trabalho, os problemas financeiros, etc, ao invés de soarem como eternos porta-vozes de dilemas relacionados ao gênero e sexualidade. Aqui, a transexualidade de Lucca constitui uma não-questão, sabiamente esquivada pelo rapaz durante uma pergunta íntima. Os diretores começam a deslocar o olhar para espaços mais amplos, literalmente.

Fronteriza (2025)
7
Nota 7/10

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