
O documentário parte das melhores intenções. Diante do cortejo fúnebre do ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, o diretor Thiago Prado decide acompanhar os acontecimentos, registrando a importância do político para os cidadãos locais. Munido de uma câmera na mão, ele mergulha na aglomeração e começa a perguntar aos passantes o que o ícone representa para cada um deles.
As respostas são, de certo modo, previsíveis. Fala-se que ele representou um olhar igualitário, uma abertura à diversidade sexual e de gênero, uma recusa dos privilégios reservados aos ricos, uma fuga à concentração de poder. Pepe simbolizou o povo no poder, além da possibilidade de se manter humilde e firme aos princípios progressistas, mesmo no interior dos mecanismos viciados da política institucional. Em outras palavras, um exemplo para todos.
Não restam dúvidas quanto à sinceridade destas falas, nem à importância deste momento, e deste tema. Pode-se, em paralelo, destacar a importância de o cinema brasileiro observar outros exemplos bem-sucedidos da esquerda no poder, às vésperas de eleições presidenciais que se anunciam bastante conturbadas no nosso país. No entanto, algumas escolhas minimizam a potência da iniciativa.
Em primeiro lugar, o caráter retórico do discurso. Os criadores, admiradores de Mujica, solicitam a outros admiradores de Mujica que discorram a respeito de sua admiração a Mujica. Por isso, as falas são pouco esclarecedoras, e meramente valorativas. Nunca se dialoga com pessoas que situem o ex-presidente num contexto sociopolítico preciso. Jamais sabemos quem veio antes dele, quem o sucederia, nem as circunstâncias que permitiram a uma figura de exceção ascender ao maior cargo político do país. A esquerda segue forte após o Pepe? Ele formou sucessores? O partido está organizado? Suas conquistas estão consolidadas? Mistério. Em outras palavras, partindo do pressuposto que Pepe foi uma pessoa maravilhosa, chega-se à conclusão que Pepe foi uma pessoa maravilhosa. Não se extrai nenhum ensinamento ou reflexão a partir deste mergulho na nação vizinha.
Em segundo lugar, o dispositivo não soa preparado para a captação de som e imagens em meio à multidão. A câmera gira a esmo de um lado para o outro, sem saber o quê observar de fato. Partindo do pressuposto que a direção consiste numa seleção do olhar, a perspectiva deste curta soa atônita, indecisa, incapaz de se concentrar em algum ponto preciso. Olha-se para tudo, na dificuldade de determinar algum fragmento capaz de representar o todo.
Por isso, o curta-metragem transparece diversos problemas de montagem, sobretudo sonora. Os planos ruidosos são bruscamente interrompidos durante as palmas, sem transição de som para as cenas seguintes, ao passo que a articulação entre imagens soa ríspida, pouco fluida. Mesmo a correção de cor necessitaria ajustes. Resta o retrato carinhoso do ídolo, somado à disposição bem-intencionada de capturar um evento importante, ao vivo, e fazer parte do cortejo ao invés de somente mencioná-lo a posteriori. O afeto, neste caso, é inquestionável.




