Hasta Siempre, Pepe Mujica (2025)

Um olhar na multidão

titulo original (ano)
Hasta Siempre, Pepe Mujica (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
19 minutos
direção
Thiago Prado
visto em
8ª Mostra de Fama (2025)

O documentário parte das melhores intenções. Diante do cortejo fúnebre do ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, o diretor Thiago Prado decide acompanhar os acontecimentos, registrando a importância do político para os cidadãos locais. Munido de uma câmera na mão, ele mergulha na aglomeração e começa a perguntar aos passantes o que o ícone representa para cada um deles.

As respostas são, de certo modo, previsíveis. Fala-se que ele representou um olhar igualitário, uma abertura à diversidade sexual e de gênero, uma recusa dos privilégios reservados aos ricos, uma fuga à concentração de poder. Pepe simbolizou o povo no poder, além da possibilidade de se manter humilde e firme aos princípios progressistas, mesmo no interior dos mecanismos viciados da política institucional. Em outras palavras, um exemplo para todos.

Não restam dúvidas quanto à sinceridade destas falas, nem à importância deste momento, e deste tema. Pode-se, em paralelo, destacar a importância de o cinema brasileiro observar outros exemplos bem-sucedidos da esquerda no poder, às vésperas de eleições presidenciais que se anunciam bastante conturbadas no nosso país. No entanto, algumas escolhas minimizam a potência da iniciativa.

Em primeiro lugar, o caráter retórico do discurso. Os criadores, admiradores de Mujica, solicitam a outros admiradores de Mujica que discorram a respeito de sua admiração a Mujica. Por isso, as falas são pouco esclarecedoras, e meramente valorativas. Nunca se dialoga com pessoas que situem o ex-presidente num contexto sociopolítico preciso. Jamais sabemos quem veio antes dele, quem o sucederia, nem as circunstâncias que permitiram a uma figura de exceção ascender ao maior cargo político do país. A esquerda segue forte após o Pepe? Ele formou sucessores? O partido está organizado? Suas conquistas estão consolidadas? Mistério. Em outras palavras, partindo do pressuposto que Pepe foi uma pessoa maravilhosa, chega-se à conclusão que Pepe foi uma pessoa maravilhosa. Não se extrai nenhum ensinamento ou reflexão a partir deste mergulho na nação vizinha. 

Em segundo lugar, o dispositivo não soa preparado para a captação de som e imagens em meio à multidão. A câmera gira a esmo de um lado para o outro, sem saber o quê observar de fato. Partindo do pressuposto que a direção consiste numa seleção do olhar, a perspectiva deste curta soa atônita, indecisa, incapaz de se concentrar em algum ponto preciso. Olha-se para tudo, na dificuldade de determinar algum fragmento capaz de representar o todo.

Por isso, o curta-metragem transparece diversos problemas de montagem, sobretudo sonora. Os planos ruidosos são bruscamente interrompidos durante as palmas, sem transição de som para as cenas seguintes, ao passo que a articulação entre imagens soa ríspida, pouco fluida. Mesmo a correção de cor necessitaria ajustes. Resta o retrato carinhoso do ídolo, somado à disposição bem-intencionada de capturar um evento importante, ao vivo, e fazer parte do cortejo ao invés de somente mencioná-lo a posteriori. O afeto, neste caso, é inquestionável. 

Hasta Siempre, Pepe Mujica (2025)
4
Nota 4/10

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