
A adolescente Lea (Frida Hornemann) se inscreve em um programa de calouros, nos moldes de The X Factor. É aprovada na primeira fase. Obtém sucesso na segunda, na terceira, na quarta etapas. Começa a viajar e conhecer outros participantes. Treina novas músicas e filma alguns vídeos sobre sua família, para apresentar na televisão. Pensa em como adequar o ritmo escolar às necessidades do reality show. Home Stories dedica tempo surpreendente a esta emissão, claramente inspirada em franquias conhecidas, embora não as mencione diretamente. Subentende, por algum momento, que o foco se encontraria na torcida pela vitória da garota.
Mas o que a diretora Eva Trobisch pensa a respeito deste talento filtrado pela ótica do entretenimento? Aprova a seleção televisiva, defende a fama instantânea, prometida aos cantores em ascensão? Critica a espetacularização da arte, ou as narrativas falsas sobre os concorrentes, forjadas em busca de maior identificação do público? Não se sabe. Parte considerável do orçamento deste longa-metragem é dedicada a reproduzir a lógica da emissão, etapa por etapa. Entretanto, a disputa atravessa a narrativa sem deixar marcas a longo prazo. Ora se anuncia como uma experiência fundamental, monopolizando as atenções da ficção, ora é esquecida, como se a autora nunca tivesse se interessado pelo programa de verdade.
Não é fácil compreender o que Trobisch teria a dizer acerca de seus graves temas abordados de passagem, sem aprofundamento.
Uma sensação semelhante perpassa a obra na totalidade. Estranha-se o senso de prioridades deste projeto alemão — ou melhor, a falta de senso de prioridades. A avó desaparece na floresta, porém, ninguém se importa realmente com o estranho acontecimento. Esperam muitíssimo até tomarem providências, apiedando-se com maior intensidade por um cavalo ferido. Em alguns instantes, a trama sugere que a renovação de um castelo, convertido em museu, corresponderia a um grande dilema moral e ético para a história do país. Depois, insinua que seria mera frivolidade da tia egocêntrica. Às vezes, desenha a figura de um pai raivoso, atirando copos com força contra uma mulher grávida, sem razão aparente. Depois, nenhuma outra passagem corrobora o temperamento intempestivo.
As incongruências continuam. No teatro da escola, Lea e a melhor amiga participam de uma performance envolvendo cadáveres, no intuito de refletir acerca das feridas do passado alemão, e da necessidade de não repetir erros de antigamente. Depois, a apresentação será esquecida. O primo beberrão e niilista incomoda muito a princípio, até o roteiro e a montagem optarem por transformá-lo num figurante, de importância ínfima. A avó efetua um grande discurso provocador acerca de seu passado operário, embora este histórico trabalhista nunca tivesse vindo à tona até então. A jornada acena a elementos que serão descartados assim que se passar ao capítulo seguinte. Os conflitos se sucedem e apagam os anteriores, ao invés de se conectarem.
Este fator se prova particularmente problemático num drama de estrutura coral, ou seja, com uma dezena de protagonistas destituídos de hierarquia. A autora busca equilibrar suas presenças, oferecendo no mínimo um dilema para cada um — até, como já vimos, hesitar quanto à melhor maneira de articulá-los em paralelo. Home Stories desperta a impressão de uma obra que provavelmente teve um roteiro muito mais extenso originalmente, além de um primeiro corte longuíssimo na montagem, até se aparar o máximo possível em busca de uma duração comercialmente viável. No caminho, a fluidez e parte do sentido se perdem.
Fica particularmente difícil perceber o que Trobisch teria a dizer acerca de seus graves temas abordados de passagem, sem aprofundamento: a herança do nazismo, a crise do patriarcado, os locais de memória na Alemanha contemporânea, as divergências políticas da classe média, a sexualidade de adolescentes, a falência econômica dos pequenos empreendedores. Falta foco à direção, ou talvez haja focos em excesso, para uma direção incapaz de decidir sobre o quê, afinal, gostaria de discutir. Citar meramente elementos urgentes ou relevantes não equivale a discuti-los, muito menos a investigar suas causas, variações e possíveis consequências. Logo, o abrangente mosaico transparece uma dispersão, ao invés da vontade de entrelaçar falhas do sistema enquanto partes de um mecanismo único.
Com o encaminhar da história, parte do sofrimento parece frívolo, de pouca justificativa ou interesse real por parte da direção. Embarca-se naquilo que, com o perdão do linguajar pouco elogioso, se chamaria popularmente de white people problems, ou problemas de gente branca, rica e europeia. Será que deveria autorizar a emissão a filmar no meu castelo? Seria um problema emprestar à amiga meu cavalo de corrida que não está sendo usado? Devo me preocupar com o vizinho, acusando a minha floresta de transmitir insetos à floresta dele? O hotel da avó nunca aparenta funcionar, de maneira verossímil, no dia a dia. Diante destes dilemas de personagens privilegiados, uma figura exclama: “Mas que bagunça, de verdade!” A consternação beira a paródia.


Mesmo a estética sustenta suas contradições. Ora demonstra intensa preocupação em fazer real, ou seja, mostrar o exame fatual de um cavalo com a pata machucada; o canto verídico da estudante; a nudez nada glamourizada dos pais de Lea. Os enquadramentos fixos, um tanto distanciados, aprofundam a sensação de rigor e distanciamento. Em contrapartida, adiante, certa sensualidade e senso de mistério invadem a trama — caso da floresta, filmada enquanto elemento sombrio, e da sugestão de traumas envolvidos ao possível aborto. A cineasta parece hesitar entre abordar esta burguesia como a coisa mais natural do mundo, ou um caso excepcional e grave.
“O que faz de você alguém especial?”. A pergunta, elaborada pelo produtor da competição musical, visa obter algum segredo ou revelação digno de atenção pela audiência. Lea não sabe como responder, e se irrita com a questão. Ninguém em sua família possui uma resposta certa para a provocação. O questionamento se estende à obra em geral, que às vezes acredita numa crônica da banalidade dos privilegiados, porém, a seguir, estima que estes personagens seriam realmente dignos de identificação, de pesar e de comoção. O resultado, perdido em termos de conceito e objetivos, resulta tão marcante quanto uma enésima versão de Fix You, entoada pela jovem competidora.




