Home Stories (2026)

"O que tem de especial em você?"

título Original (ano)
Etwas ganz Besonderes (2026)
país
Alemanha
gênero
Drama
duração
116 minutos
direção
Eva Trobisch
elenco
Frida Hornemann, Max Riemelt, Eva Löbau, Gina Henkel, Rahel Ohm, Peter René Lüdecke, Florian Geißelmann, Yvon Sable Moltzen, Ida Fischer
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

A adolescente Lea (Frida Hornemann) se inscreve em um programa de calouros, nos moldes de The X Factor. É aprovada na primeira fase. Obtém sucesso na segunda, na terceira, na quarta etapas. Começa a viajar e conhecer outros participantes. Treina novas músicas e filma alguns vídeos sobre sua família, para apresentar na televisão. Pensa em como adequar o ritmo escolar às necessidades do reality show. Home Stories dedica tempo surpreendente a esta emissão, claramente inspirada em franquias conhecidas, embora não as mencione diretamente. Subentende, por algum momento, que o foco se encontraria na torcida pela vitória da garota.

Mas o que a diretora Eva Trobisch pensa a respeito deste talento filtrado pela ótica do entretenimento? Aprova a seleção televisiva, defende a fama instantânea, prometida aos cantores em ascensão? Critica a espetacularização da arte, ou as narrativas falsas sobre os concorrentes, forjadas em busca de maior identificação do público? Não se sabe. Parte considerável do orçamento deste longa-metragem é dedicada a reproduzir a lógica da emissão, etapa por etapa. Entretanto, a disputa atravessa a narrativa sem deixar marcas a longo prazo. Ora se anuncia como uma experiência fundamental, monopolizando as atenções da ficção, ora é esquecida, como se a autora nunca tivesse se interessado pelo programa de verdade.

Não é fácil compreender o que Trobisch teria a dizer acerca de seus graves temas abordados de passagem, sem aprofundamento.

Uma sensação semelhante perpassa a obra na totalidade. Estranha-se o senso de prioridades deste projeto alemão — ou melhor, a falta de senso de prioridades. A avó desaparece na floresta, porém, ninguém se importa realmente com o estranho acontecimento. Esperam muitíssimo até tomarem providências, apiedando-se com maior intensidade por um cavalo ferido. Em alguns instantes, a trama sugere que a renovação de um castelo, convertido em museu,  corresponderia a um grande dilema moral e ético para a história do país. Depois, insinua que seria mera frivolidade da tia egocêntrica. Às vezes, desenha a figura de um pai raivoso, atirando copos com força contra uma mulher grávida, sem razão aparente. Depois, nenhuma outra passagem corrobora o temperamento intempestivo.

As incongruências continuam. No teatro da escola, Lea e a melhor amiga participam de uma performance envolvendo cadáveres, no intuito de refletir acerca das feridas do passado alemão, e da necessidade de não repetir erros de antigamente. Depois, a apresentação será esquecida. O primo beberrão e niilista incomoda muito a princípio, até o roteiro e a montagem optarem por transformá-lo num figurante, de importância ínfima. A avó efetua um grande discurso provocador acerca de seu passado operário, embora este histórico trabalhista nunca tivesse vindo à tona até então. A jornada acena a elementos que serão descartados assim que se passar ao capítulo seguinte. Os conflitos se sucedem e apagam os anteriores, ao invés de se conectarem.

Este fator se prova particularmente problemático num drama de estrutura coral, ou seja, com uma dezena de protagonistas destituídos de hierarquia. A autora busca equilibrar suas presenças, oferecendo no mínimo um dilema para cada um — até, como já vimos, hesitar quanto à melhor maneira de articulá-los em paralelo. Home Stories desperta a impressão de uma obra que provavelmente teve um roteiro muito mais extenso originalmente, além de um primeiro corte longuíssimo na montagem, até se aparar o máximo possível em busca de uma duração comercialmente viável. No caminho, a fluidez e parte do sentido se perdem. 

Fica particularmente difícil perceber o que Trobisch teria a dizer acerca de seus graves temas abordados de passagem, sem aprofundamento: a herança do nazismo, a crise do patriarcado, os locais de memória na Alemanha contemporânea, as divergências políticas da classe média, a sexualidade de adolescentes, a falência econômica dos pequenos empreendedores. Falta foco à direção, ou talvez haja focos em excesso, para uma direção incapaz de decidir sobre o quê, afinal, gostaria de discutir. Citar meramente elementos urgentes ou relevantes não equivale a discuti-los, muito menos a investigar suas causas, variações e possíveis consequências. Logo, o abrangente mosaico transparece uma dispersão, ao invés da vontade de entrelaçar falhas do sistema enquanto partes de um mecanismo único.

Com o encaminhar da história, parte do sofrimento parece frívolo, de pouca justificativa ou interesse real por parte da direção. Embarca-se naquilo que, com o perdão do linguajar pouco elogioso, se chamaria popularmente de white people problems, ou problemas de gente branca, rica e europeia. Será que deveria autorizar a emissão a filmar no meu castelo? Seria um problema emprestar à amiga meu cavalo de corrida que não está sendo usado? Devo me preocupar com o vizinho, acusando a minha floresta de transmitir insetos à floresta dele? O hotel da avó nunca aparenta funcionar, de maneira verossímil, no dia a dia. Diante destes dilemas de personagens privilegiados, uma figura exclama: “Mas que bagunça, de verdade!” A consternação beira a paródia.

Mesmo a estética sustenta suas contradições. Ora demonstra intensa preocupação em fazer real, ou seja, mostrar o exame fatual de um cavalo com a pata machucada; o canto verídico da estudante; a nudez nada glamourizada dos pais de Lea. Os enquadramentos fixos, um tanto distanciados, aprofundam a sensação de rigor e distanciamento. Em contrapartida, adiante, certa sensualidade e senso de mistério invadem a trama — caso da floresta, filmada enquanto elemento sombrio, e da sugestão de traumas envolvidos ao possível aborto. A cineasta parece hesitar entre abordar esta burguesia como a coisa mais natural do mundo, ou um caso excepcional e grave.

“O que faz de você alguém especial?”. A pergunta, elaborada pelo produtor da competição musical, visa obter algum segredo ou revelação digno de atenção pela audiência. Lea não sabe como responder, e se irrita com a questão. Ninguém em sua família possui uma resposta certa para a provocação. O questionamento se estende à obra em geral, que às vezes acredita numa crônica da banalidade dos privilegiados, porém, a seguir, estima que estes personagens seriam realmente dignos de identificação, de pesar e de comoção. O resultado, perdido em termos de conceito e objetivos, resulta tão marcante quanto uma enésima versão de Fix You, entoada pela jovem competidora.

Home Stories (2026)
4
Nota 4/10

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