Isabel (2026)

Wine people problems

título original (ano)
Isabel (2026)
país
Brasil, França
gênero
Drama, Comédia
duração
85 minutos
direção
Gabe Klinger
elenco
Marina Person, Caio Horowicz, John Ortiz, Marat Descartes, Michelle Ellyse, Clarisse Abujamra, Giovanna Nader, Plínio Soares
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

Isabel (Marina Person) está cansada de trabalhar no restaurante premiadíssimo onde ocupa o posto de sommelier. Ela sente que seus vinhos brasileiros e imperfeitos não são devidamente apreciados. Enxerga o chefe como um burocrata, avesso à verdadeira arte das bebidas. Despreza a colega que se tornou youtuber de vinhos e faz propaganda nas redes sociais para grandes empresas. Percebe-se enquanto resistência do modo artesanal de preparar vinhos — ela mesma pisa nas uvas no fundo do quintal, junto ao namorado. A heroína encarnaria a resistência em um mundo opressor.

O longa-metragem concorda com ela. O diretor Gabe Klinger (co-autor do roteiro, ao lado de Person) concentra-se na mulher cuja única preocupação no mundo reside em seus vinhos. Cena após cena, ela pensa exclusivamente em si própria: e se eu abrir meu próprio bar? E se eu levar as garrafas pouco apreciadas de volta para casa? O companheiro enfrenta um grave problema familiar na França, porém, esta questão não lhe interessa muito. O melhor amigo (Caio Horowicz) pode ser prejudicado pelos desmandos de Isabel no restaurante, no entanto, ela minimiza os riscos. 

A protagonista preocupa-se somente em abrir seu negócio de vinhos. Ela possui conhecimento nulo em administração, em gestão de equipe, além de carecer dos fundos necessários. Mas qual é o problema? Basta querer, certo? Convenientemente, os locais à disposição surgem diante dela, vazios, com os proprietários verbalizando o desespero para vender. Assim, num passe de mágica, a sommelier adquire um espaço. Trata-se de um contexto mágico, providencial. Todas as pessoas ao redor de Isabel existem unicamente para ela: o amigo não transparece dilemas próprios; a colega americana manifesta-se para lhe dar a réplica. O namorado, uma vez afastado do roteiro, não faz falta à heroína, nem ao filme.

A obra nunca percebe o quão próxima se encontra da caricatura da esquerda caviar, que estima salvar o mundo por beber vinho orgânico, enquanto despreza o lixeiro na rua.

Os criadores aparentam estimar que Isabel seria uma figura divertidíssima, porque levemente atrapalhada, sonhadora, diferente da média. Apesar da filmagem em 16 mm, emulando um estilo granulado antigo, pode-se falar numa visão ultracontemporânea da sociedade, baseada em pessoas egocêntricas, precisando provar o seu valor aos demais pela imagem e pelo status. É possível que os filmes de Noah Baumbach (Frances Ha, em particular), e as empreitadas recentes de Olivier Assayas (Tempo Suspenso) tenham servido de horizonte para esta dinâmica obsessiva do eu, dos meus problemas, minhas angústias, minhas vontades. A sociedade ao redor, caso exista de fato, que lide com seus próprios dilemas. Quero o meu bar, e só isso importa. 

Esta persona à frente da trama poderia ser representada por um universo crítico e satírico. Entretanto, apesar do humor evidente, o afeto por Isabel se mostra seríssimo — e a percepção dela enquanto figura “marginal”, também. Na hora de abrir o bar, escolhe-se rapidamente o nome: Os Rejeitados, em referência aos vinhos indesejados do restaurante de grife, mas também a si próprios. A comédia dramática adora enxergar a mulher enquanto combatente, resistente, uma voz das minorias contra o sistema. Logo ela, que ocupa uma casa grande e confortável, nunca sofre com problemas financeiros ou nenhuma outra obrigação para além do cumprimento dos próprios desejos. Ela, que pode se dar ao luxo de oferecer gratuitamente todo o seu estoque aos passantes na rua, deixando dezenas de garrafas vazias, soltas, para os funcionários da limpeza pública coletarem, uma por uma, diante do olhar impassível de Isabel. Uma rejeitada.

Ora, esta obra nunca percebe o quão próxima se encontra de uma caricatura da esquerda caviar, cirandeira, ensimesmada, que estima salvar o mundo por beber vinho orgânico, enquanto despreza o lixeiro na rua. Acredita possuir valores e ideais melhores que seus conterrâneos por beber álcool brasileiro, enquanto o melhor amigo perde o emprego. Alguns anos atrás, Transe, de Carolina Jabor e Anne Pinheiro Guimarães, tornou-se o alvo principal dos ataques da direita (e de parte considerável da esquerda) diante desta versão do progressismo enquanto somatória de valores pessoais, destinados à melhoria de mim mesmo. Agora, Isabel se filia ao grupo, enquanto retrato tragicômico da burguesia bem-pensante, acreditando falar a partir de um lugar de exclusão. 

Enquanto a sommelier luta pela apreciação de suas uvas imperfeitas, mas cheias de personalidade, o mesmo festival de Berlim apresenta outras imagens brasileiras, radicalmente diferentes, das periferias: os motoristas via aplicativo e as donas de casa de Nosso Segredo, o garoto efeminado e desprezado pelo pai em Feito Pipa, a mulher vítima de abuso conjugal em Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, as crianças da cidade de menor IDH do Brasil em A Fabulosa Máquina do Tempo. Entretanto, — quem diria? —, a única personagem a se reivindicar enquanto marginalizada e combatente em nome dos excluídos é ela, a solitária heroína de classe média-alta.

Logo, com a desculpa do humor quirky, o projeto se dedica a uma série de passagens atrapalhadas enquanto direção e montagem, e de impacto questionável na trama. A briga repentina dos pais durante a inauguração do bar; a embriaguez dela na hora de trabalhar; a descoberta de que — vejam só — ela precisaria pagar contas para sustentar o novo empreendimento, resolvem-se mal em termos de fotografia e montagem. (Isabel nunca havia arcado com suas próprias despesas anteriormente?). Em paralelo, quando observa novos comércios nada populares abrindo no centro, apontando para a evidente gentrificação de São Paulo, a protagonista se exclama, felicíssima: “Precisamos de mais lugares assim no bairro!”

A narrativa se encerra de modo fácil, inconsequente, a exemplo de tudo na vida da mulher até então. Os comércios abrem como fecham, por geração espontânea. Os clientes vêm e vão. Os investidores aparecem e somem. Ela não precisa se preocupar, porque nada a ameaça, na realidade, no dia seguinte. “Talvez o que eu precise mais é descobrir o que eu quero”, argumenta. “Eu tenho um sonho melhor para a minha vida”. De fato. Enquanto a sommelier tenta se encontrar, seu namorado lida com a saúde de parentes em outro país. O melhor amigo, sabe-se lá como se sustentará. Para Isabel, a manhã seguinte trará um dia como os demais. Ela provavelmente acordará, e recomeçará sua produção de vinhos artesanais. A luta continua. 

Isabel (2026)
2
Nota 2/10

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