
Aparentemente, na cidade de Itatira (CE), um estranho fenômeno afetou as crianças. De repente, os alunos de uma escola foram tomados por uma espécie de surto, que teria durado alguns dias. Em virtude do espanto generalizado, o caso ganhou os jornais nacionais, que especularam a respeito de uma manifestação sobrenatural. Mas o que houve, exatamente? Quanto tempo duraram os acontecimentos, e de que maneira a situação se normalizou? O que teriam a dizer as vítimas e seus familiares? Isso foi destrinchado, documentado? Como interpretar os vídeos clandestinos registrando os fatos?
Não sabemos. O longa-metragem demonstra um pudor incompreensível em dissecar seu tema de estudo. A equipe nunca conversa com as pessoas diretamente afetadas, nem com autoridades ou especialistas. Prefere entrevistar o padre, que fornece explicações bastante vagas das ações; além de outros moradores implicados de maneira secundária no dilema central. O diretor André Luís Garcia contenta-se com as informações que os habitantes estiverem dispostos a lhe fornecer — e elas não são muitas. Enquanto isso, evita efetuar qualquer investigação por conta própria acerca da possível “assombração”.
Partindo dos fenômenos de Itatira, o filme deseja mostrar e ocultar; revelar e apenas sugerir; comprovar e aludir. Implora que acreditemos no que não vemos.
Assim, o projeto corrobora uma única versão dos fatos, em oposição a desvendá-los ou buscar compreendê-los. O discurso se dá por satisfeito com um punhado de depoimentos protocolares, alguns delas meramente apresentando o funcionamento da cidade, tal qual um vídeo institucional: “Não temos grandes latifundiários em Itatira […] É através disso que o município se mantém”. Outra voz sugere que, na cidade, o natural e o sobrenatural sempre andaram de mãos dadas. Este teria sido um tema fascinante, caso o documentário estivesse disposto a averiguar de que outras maneiras este entrelaçamento determina o funcionamento local. Ora, jamais descobrimos o histórico transcendental da região, para além de rápidas menções a figuras do folclore.
Além disso, outro fator determina a experiência do filme: a escolha por ocultar o vídeo que supostamente comprovaria os eventos passados na escola. Um fragmento extremamente veloz sugere uma movimentação das crianças, logo interrompidas pela montagem. Pela brevidade das imagens, poderia se tratar igualmente dos jovens se levantando para ir embora, após a fala do padre. Outra minúscula inserção indica uma criança sentada, com a cabeça baixa. Talvez ela estivesse passando mal, orando, ou ainda levando uma bronca. Nada nestas amplas sugestões atesta uma presença sobrenatural ali.
Mas por que os autores ocultam seu principal material de arquivo? É possível que o tenham feito para preservar a identidade das crianças, ou para se distinguirem do sensacionalismo dos jornais. Estas seriam justificativas plausíveis, embora nenhuma delas esteja, de fato, no filme. Simplesmente se esconde a única materialidade do episódio. Logo, o resultado deixa a impressão de um true crime que esconde o crime, ao invés de enfrentá-lo, ou ainda de um found footage que nunca revela a filmagem encontrada. A direção insiste na existência fatual desta ocorrência, e nos solicita, imagem após imagem, depoimento após depoimento, que acreditemos no discurso — porque sim.
A utilização do cinema enquanto prova de verdade sempre foi muito contestada, afinal, qualquer posicionamento de uma câmera, escolha de enquadramento ou construção sonora implica numa representação necessariamente parcial e enviesada do mundo. No entanto, Itatira busca funcionar, ao mesmo tempo, enquanto prova dos fatos e alusão modesta e respeitosa aos mesmos. Deseja mostrar e ocultar; revelar e apenas sugerir; comprovar e aludir. Implora que acreditemos no que não vemos, que confiemos nas vozes de desconhecidos, que rejeitemos a gravação revoltante de um episódio invisível. É verdade, confie em mim, suplica cada cena deste projeto. E por que deveríamos confiar?
Face à disposição dos fatos e ao agenciamento particular de imagem e som, as crianças poderiam ter igualmente visto um dragão, experimentado drogas alucinógenas ou efetuado um pacto demoníaco. Tanto faz. Qualquer descoberta do que se passou na cidade virá de uma pesquisa pessoal do espectador, posto que, 70 minutos depois, a narrativa preserva as mesmas dúvidas que sustentava a princípio. Já a sinopse oficial não corresponde, de modo nenhum, à narrativa audiovisual: “Após a morte acidental de um jovem durante uma brincadeira, seu espírito começa a ser visto nos corredores da escola, desencadeando uma série de eventos inexplicáveis”. Ora, assistimos ao mesmo filme?
Ironicamente, a direção demonstra interesse profundo e nulo em seu objeto de estudo. Ao invés de apostar na tradicional representação pela ausência (encontrando imagens metafóricas que indiquem o ocorrido, ou dialoguem com sua gravidade), simplesmente se distancia e interrompe as entrevistas cada vez que ameaçam se aprofundar. A abordagem soa como um médico legista incapaz de encarar um cadáver, um cirurgião com aflição ao sangue. Uma vez confrontada ao cerne de sua atividade, vira os olhos.
Isso se traduz na montagem interrompendo as falas, literalmente, para revelar uma interminável sucessão de paisagens. Grutas, florestas, céus estrelados, troncos de árvore. Menciona-se o fenômeno na escola; corta-se; vamos para o céu à noite. A narrativa descreve o fenômeno enquanto “feminino ferido” e, ao invés de esmiuçar a interessante alegação (Somente meninas foram afetadas? O que significaria esta interpretação?), volta às genéricas imagens de transição da flora circundante. Estes trechos poderiam ser reordenados, sem qualquer prejuízo ao resultado. Servem menos como distanciamento crítico, ou representação metafórica, do que uma forma de desvio do olhar. Este incômodo atravessa a iniciativa na totalidade: a impressão de um cinema com medo de olhar.


Em paralelo, a captação efetuada tanto dos depoimentos quanto da natureza é prejudicada pela textura digital de baixa qualidade, pixelizada, dessaturando algumas imagens ao limite do preto e branco. Os movimentos de câmera varrem o horizonte aos solavancos (a imagem “flickando”), enquanto o excesso de câmeras lentas desperta a impressão de uma obra letárgica, arrastada. Trata-se de um anticlímax ao pressuposto de fenômenos paranormais, na forma de enxertos e redundâncias (algumas imagens são literalmente repetidas) para se atingir a duração mínima do longa-metragem. Estamos mais próximos do terreno do sonho, ou do mockumentary, do que dos documentários metalinguísticos visando provar a capacidade de falsear imagens (em estilo Terra Deu, Terra Come).
Ao final, resta a impressão de que os criadores não dispunham de material suficiente para um longa-metragem — nem em termos de imagens e sons, nem em investigação e pesquisa de seu próprio tema. A obra interessa, sobretudo, enquanto sintoma da comunicação em tempos de fake news, quando se sugere uma ocorrência gravíssima e espetacular, embora não se apresente nenhum indício verossímil capaz de validar a tese. Precisamos acreditar porque queremos, porque talvez seja deliciosa a ideia de uma cidade assombrada, de crianças possuídas, de fenômenos inexplicáveis. Ora, talvez estes casos sejam menos misteriosos do que mal estudados, pouco questionados e escassamente representados — em termos cinematográficos, éticos e morais.


