Iván & Hadoum (2026)

O patrão e a sindicalista

título original (ano)
Iván & Hadoum (2026)
país
Espanha, Alemanha, Bélgica
gênero
Romance, Drama
duração
101 minutos
direção
Ian de la Rosa
elenco
Silver Chicón, Herminia Loh, Úrsula Díaz Manzano, Esperanza Guardado, Cisco Lara, Nico Montoya
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

O ponto de partida de Ivan & Hadoum se filia a diversas premissas clássicas do cinema. Um homem poderoso, ligado ao alto controle da empresa onde trabalha, apaixona-se por uma funcionária. Ela possui raízes humildes, e acompanha os demais funcionários nas exigências por direitos trabalhistas. Logo, a aproximação entre eles obriga o herói a escolher entre o amor e o capital; entre a nova pretendente e sua própria família, de quem herda o cargo. Enquanto casal, eles representam um mundo inconciliável, devido à barreira intransponível da luta de classes. 

Em contrapartida, os moldes do amor ainda mais forte porque impossível se adequam à realidade contemporânea espanhola. No caso, o rapaz é jovem, e acaba de ascender a um cargo de gestão. Enfrenta a resistência das operárias, que veem com maus olhos sua promoção graças às relações familiares, em detrimento do mérito. Certo, ele ainda não detém o capital, apesar de defender os interesses daquele que concentram a renda. Posto que aspira à direção desta gigantesca produtora de frutas e legumes, precisa apoiar as decisões dos chefes. Ela, por sua vez, nunca é vista liderando movimentos pela greve, mesmo que se prove solidária à causa. O diretor Ian de la Rosa atenua o maniqueísmo e a simetria típicos do modelo Romeu e Julieta, em busca de uma versão mais plausível e naturalista.

A percepção de identidades, subjetividades e corpos marginalizados enquanto cotidianos, comuns, desperta interesse em si própria.

Outro fator distingue consideravelmente os dois protagonistas dos cânones habituais do romance audiovisual: Iván (Silver Chicón) é um homem trans, chamado pejorativamente de “híbrido” pelos empregados cisgênero. É conhecido pelos vizinhos desde a infância, enquanto ainda se apresentava como mulher, razão pela qual sua masculinidade precisa ser testada e comprovada demais. Já Hadoum (Herminia Loh) é uma mulher de ascendência marroquina, e cultura originalmente muçulmana. Ambos representam figuras de exceção nas categorias normalmente esperadas de homem e mulher enquanto ideais de paixão, atratividade e protagonismo no cinema.

Em consequência, os rumos adotados pelo casal constituem, ao mesmo tempo, um percurso esperado e raro; convencional, mas também de enfrentamento às convenções. Não há nada particularmente ousado em conceber o amor impossível de um rapaz por uma garota, cujas famílias desaprovam a união, especialmente em contextos econômicos distintos. (Aliás, parte considerável do imaginário novelesco decorre de tal estrutura). Entretanto, a afetividade de corpos e subjetividades trans, vistos enquanto sujeitos desejantes e desejáveis, em posição de comando numa empresa, gozando de certo poderio econômico, destoa de tantos retratos de homens e mulheres trans enquanto meras vítimas ou algozes de um sistema de exclusão.

Entenda-se: Ian de la Rosa, ele próprio um cineasta trans, jamais ignora os fatores de preconceito que afetam a percepção de Iván enquanto “homem como os outros”. Em contrapartida, este não é o motor que move a narrativa, nem a justificativa para a existência do personagem na trama. Seus impasses dizem respeito ao amor, e à necessidade de concordar com regras exploradoras dos patrões, embora, no fundo, as considere absurdas. Trata-se de dilemas universais, relacionados a qualquer contexto capitalista. A origem marroquina de Hadoum tampouco a define, nem a limita. Seus traços culturais estão presentes, porém, as demandas de trabalho, de relacionamento, e o sonho de fuga daquela cidadezinha se fazem prioritários.

Chega-se, portanto, a um questionamento fundamental no que diz respeito à representação queer: por que indivíduos LGBTQIA+ não teriam direito aos mesmos chavões do amor romântico? Aos mesmos lugares-comuns, às promessas de amor infinito, às paixões à primeira vista, tais quais sempre foram descritas pelo audiovisual clássico na aproximação entre duas pessoas cis, de gêneros opostos? O aspecto um tanto comportado, e mesmo previsível, da atração e repulsa entre os protagonistas, reveste-se de um valor particular quando se percebe a dificuldade do cinema em retratar homens trans com naturalidade e simplicidade, para além da identidade de gênero. 

Deste modo, a atenção do diretor à cicatriz no peito do ator, e também à delicada cena de sexo, constitui um gesto excepcional. O corpo trans não seria “errado”, vergonhoso, tabu, e sim, digno de carinho, de nudez ao se banhar na praia, em registro idêntico àquele da namorada cis. O autor nem oculta a corporeidade de seu protagonista, nem a explora para finalidade de choque e confronto. Ele opta, por exemplo, por um enquadramento aberto e distanciado quando ambos se banham no mar. Nota-se o respeito, e também certo despojamento, na construção destes personagens e de suas imagens. 

Ivan & Hadoum se passa numa sociedade dotada de preconceitos transfóbicos e xenofóbicos, porém, onde ambos os personagens já escutaram tais insultos antes, e as provocações se mesclam com a aprovação carinhosa da família dele, ou com a tolerância tácita do núcleo familiar dela. As violências nunca impedem a concretização de certa aparência de funcionalidade cotidiana. O roteiro não se volta a um momento especial na vida de ambos, mas a um recorte que, caso fosse efetuado anos antes e anos depois, dificilmente traria mudanças significativas em termos de conteúdo. A percepção de identidades, subjetividades e corpos marginalizados enquanto cotidianos, comuns, desperta interesse em si própria.

Por isso, não se espanta que o longa-metragem ainda ceda à promessa de amor nos segundos finais, nem na redenção do herói por seus maus atos no âmbito trabalhista. Salva-se o dia graças a um otimismo mágico, idealista. O cinema cis-hétero sempre aceitou as soluções de crença inabalável num futuro melhor — por que as garotas muçulmanas e os rapazes trans não poderiam fazer o mesmo? No século XXI, o cinema pode oferecer aos espectadores LGBTQIA+ imagens nas quais se espelhar: sugestões de um futuro possível, de uma inserção progressiva e verossímil nas famílias tradicionais, no mercado de trabalho, na cultura local. Os filmes a respeito de figuras gays, lésbicas, transexuais e travestis não se voltam mais ao público pressuposto cis-hétero, enquanto alerta da existência alheia e solicitação encarecida de compaixão. Agora uma parcela da produção acredita que, do outro lado da tela, haja muitos Iváns e muitas Hadoums, interessados em se enxergar no cinema, como raramente ocorre. Por isso, a simplicidade da obra se revela especial, e politicamente relevante.

Iván & Hadoum (2026)
7
Nota 7/10

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