
O ponto de partida de Ivan & Hadoum se filia a diversas premissas clássicas do cinema. Um homem poderoso, ligado ao alto controle da empresa onde trabalha, apaixona-se por uma funcionária. Ela possui raízes humildes, e acompanha os demais funcionários nas exigências por direitos trabalhistas. Logo, a aproximação entre eles obriga o herói a escolher entre o amor e o capital; entre a nova pretendente e sua própria família, de quem herda o cargo. Enquanto casal, eles representam um mundo inconciliável, devido à barreira intransponível da luta de classes.
Em contrapartida, os moldes do amor ainda mais forte porque impossível se adequam à realidade contemporânea espanhola. No caso, o rapaz é jovem, e acaba de ascender a um cargo de gestão. Enfrenta a resistência das operárias, que veem com maus olhos sua promoção graças às relações familiares, em detrimento do mérito. Certo, ele ainda não detém o capital, apesar de defender os interesses daquele que concentram a renda. Posto que aspira à direção desta gigantesca produtora de frutas e legumes, precisa apoiar as decisões dos chefes. Ela, por sua vez, nunca é vista liderando movimentos pela greve, mesmo que se prove solidária à causa. O diretor Ian de la Rosa atenua o maniqueísmo e a simetria típicos do modelo Romeu e Julieta, em busca de uma versão mais plausível e naturalista.
A percepção de identidades, subjetividades e corpos marginalizados enquanto cotidianos, comuns, desperta interesse em si própria.
Outro fator distingue consideravelmente os dois protagonistas dos cânones habituais do romance audiovisual: Iván (Silver Chicón) é um homem trans, chamado pejorativamente de “híbrido” pelos empregados cisgênero. É conhecido pelos vizinhos desde a infância, enquanto ainda se apresentava como mulher, razão pela qual sua masculinidade precisa ser testada e comprovada demais. Já Hadoum (Herminia Loh) é uma mulher de ascendência marroquina, e cultura originalmente muçulmana. Ambos representam figuras de exceção nas categorias normalmente esperadas de homem e mulher enquanto ideais de paixão, atratividade e protagonismo no cinema.
Em consequência, os rumos adotados pelo casal constituem, ao mesmo tempo, um percurso esperado e raro; convencional, mas também de enfrentamento às convenções. Não há nada particularmente ousado em conceber o amor impossível de um rapaz por uma garota, cujas famílias desaprovam a união, especialmente em contextos econômicos distintos. (Aliás, parte considerável do imaginário novelesco decorre de tal estrutura). Entretanto, a afetividade de corpos e subjetividades trans, vistos enquanto sujeitos desejantes e desejáveis, em posição de comando numa empresa, gozando de certo poderio econômico, destoa de tantos retratos de homens e mulheres trans enquanto meras vítimas ou algozes de um sistema de exclusão.
Entenda-se: Ian de la Rosa, ele próprio um cineasta trans, jamais ignora os fatores de preconceito que afetam a percepção de Iván enquanto “homem como os outros”. Em contrapartida, este não é o motor que move a narrativa, nem a justificativa para a existência do personagem na trama. Seus impasses dizem respeito ao amor, e à necessidade de concordar com regras exploradoras dos patrões, embora, no fundo, as considere absurdas. Trata-se de dilemas universais, relacionados a qualquer contexto capitalista. A origem marroquina de Hadoum tampouco a define, nem a limita. Seus traços culturais estão presentes, porém, as demandas de trabalho, de relacionamento, e o sonho de fuga daquela cidadezinha se fazem prioritários.
Chega-se, portanto, a um questionamento fundamental no que diz respeito à representação queer: por que indivíduos LGBTQIA+ não teriam direito aos mesmos chavões do amor romântico? Aos mesmos lugares-comuns, às promessas de amor infinito, às paixões à primeira vista, tais quais sempre foram descritas pelo audiovisual clássico na aproximação entre duas pessoas cis, de gêneros opostos? O aspecto um tanto comportado, e mesmo previsível, da atração e repulsa entre os protagonistas, reveste-se de um valor particular quando se percebe a dificuldade do cinema em retratar homens trans com naturalidade e simplicidade, para além da identidade de gênero.
Deste modo, a atenção do diretor à cicatriz no peito do ator, e também à delicada cena de sexo, constitui um gesto excepcional. O corpo trans não seria “errado”, vergonhoso, tabu, e sim, digno de carinho, de nudez ao se banhar na praia, em registro idêntico àquele da namorada cis. O autor nem oculta a corporeidade de seu protagonista, nem a explora para finalidade de choque e confronto. Ele opta, por exemplo, por um enquadramento aberto e distanciado quando ambos se banham no mar. Nota-se o respeito, e também certo despojamento, na construção destes personagens e de suas imagens.
Ivan & Hadoum se passa numa sociedade dotada de preconceitos transfóbicos e xenofóbicos, porém, onde ambos os personagens já escutaram tais insultos antes, e as provocações se mesclam com a aprovação carinhosa da família dele, ou com a tolerância tácita do núcleo familiar dela. As violências nunca impedem a concretização de certa aparência de funcionalidade cotidiana. O roteiro não se volta a um momento especial na vida de ambos, mas a um recorte que, caso fosse efetuado anos antes e anos depois, dificilmente traria mudanças significativas em termos de conteúdo. A percepção de identidades, subjetividades e corpos marginalizados enquanto cotidianos, comuns, desperta interesse em si própria.
Por isso, não se espanta que o longa-metragem ainda ceda à promessa de amor nos segundos finais, nem na redenção do herói por seus maus atos no âmbito trabalhista. Salva-se o dia graças a um otimismo mágico, idealista. O cinema cis-hétero sempre aceitou as soluções de crença inabalável num futuro melhor — por que as garotas muçulmanas e os rapazes trans não poderiam fazer o mesmo? No século XXI, o cinema pode oferecer aos espectadores LGBTQIA+ imagens nas quais se espelhar: sugestões de um futuro possível, de uma inserção progressiva e verossímil nas famílias tradicionais, no mercado de trabalho, na cultura local. Os filmes a respeito de figuras gays, lésbicas, transexuais e travestis não se voltam mais ao público pressuposto cis-hétero, enquanto alerta da existência alheia e solicitação encarecida de compaixão. Agora uma parcela da produção acredita que, do outro lado da tela, haja muitos Iváns e muitas Hadoums, interessados em se enxergar no cinema, como raramente ocorre. Por isso, a simplicidade da obra se revela especial, e politicamente relevante.




