
Faz de conta que estamos num futuro bem distante — o ano de 2222, por que não? O mundo é regido por uma “máquina que nos controla desde o nascimento”. As pessoas têm a capacidade de viajar no tempo, embora a principal arma do governo inimigo seja o poder do esquecimento. Sem se lembrar do que lhes ocorre, os adultos são incapazes de resistir. Cabe a uma garotinha (Maria Sofia), curiosamente imune à amnésia programada, contar histórias e alertar a população a respeito de sua opressão. Nasce uma revolucionária.
Esta fábula iluminista brinca, portanto, de criar o problema para vender a solução. Imagina um adversário poderoso, somente para empoderar a garota responsável por salvar aos pais e ao resto da nação. Nada mau como horizonte simbólico: em oposição a tantas crianças-heroínas dotadas de raios-lasers e poderes bélicos, esta super-heroína é capaz de se lembrar. Ela assimila a arte e se comunica em rimas. “Eu só sei contar histórias!”, ela argumenta ao pai. “É só disso que a gente precisa”, responde o homem (David Santos). O maniqueísmo, desta vez, é utilizado enquanto medida de reparação simbólica.
O diretor Wagner Nogueira Mendes possui o desafio de construir um mundo em colapso a partir de orçamento limitado, na duração sucinta de um curta-metragem. Em consequência, efetua algumas escolhas inteligentes: primeiro, assume o aspecto caseiro da produção, enquanto linguagem. A tenda onde Kaira se esconde possui a aparência de algo que a própria criança poderia ter feito, a partir de objetos domésticos comuns (o que soa como convite para outras crianças imaginarem cenários semelhantes). Parte considerável do humor e da ternura decorre de uma direção de arte que nunca tenta se passar por uma fantasia ostensiva, pelo contrário. O filme brinca tanto quanto a garota.
Segundo, os criadores restringem a ação à tenda, sugerindo o caos através de diálogos. Nesta forma de representação pela ausência, os objetos e conversas precisam ilustrar um perigo que nunca se materializa, de fato, nas imagens e sons. Quando precisa sair do local, seja por escolha criativa ou orçamento limitado (ou ambos), a menina se vê convertida numa bela animação, que lhe permite viajar ao passado. As cores, texturas e volumes do segmento animado dialogam muito bem com este aspecto faça-você-mesmo do live action. O mundo infantil proporciona oportunidades ilimitadas de invenção.
Certo, é possível que algumas descrições do início, a respeito da máquina e da Cronos, soem apressadas demais, e algumas idas e vindas do pai também mereceriam algum espaço para contemplação. O filme tem pressa, e provavelmente precisaria de mais tempo para acomodar tantas vontades e deslocamentos. Mesmo assim, promove um interessante recurso à diversão analógica, dispensando celulares e virtualidades, em oposição ao mundo mais diretamente tecnológico dos opositores. Kaira e o Temporal ainda nos reserva uma comovente cena na qual a menina precisa educar o pai amnésico, compartilhando com ele a história que o próprio adulto havia lhe contado. O conceito de transmissão de conhecimento enquanto verdadeira arma constitui uma preciosa ideia deste projeto.






