Lar (2025)

Meu filme, minhas intenções

título original (ano)
Lar (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
76 minutos
direção
Leandro Wenceslau
visto em
Cinemas

“Os filmes servem para muitas coisas. São gestos simples e complexos, que podem revelar muito de quem realmente somos. Para mim, lar é isso: um lugar interno de conforto e desafio…”. Este trecho poderia sair de uma crítica de cinema, mas vem do narrador de Lar, analisando o próprio projeto. Aqui, esta voz generosa introduz a ideia inicial, as dificuldades de produção (“Por muito tempo, eu achei que tivesse me desconectado do propósito pessoal de fazer este filme”), os objetivos, e a avaliação final de onde chegou. 

Logo, o espectador não tem muito trabalho a efetuar, posto que a obra se interpreta sozinha. Lar é apenas um dos inúmeros projetos recentes que se apoiam numa narração em off, na qual o cineasta e/ou personagem se apresenta (“Eu cresci em um ambiente diferente, mas era normal para mim”), e então narra seu trajeto ao público. Caso alguém não tenha compreendido, explica-se: “Acompanhamos três famílias durante ciclos de filmagens”, no intuito de “montar um quebra-cabeça de ausências e incompreensões”, entendendo o núcleo familiar enquanto “compromisso de amor e cuidado”.

Por um lado, Lar encanta pela perspectiva de valorizar o cotidiano. Por outro lado, a linguagem pedagógica parece duvidar da nossa capacidade de compreensão.

O eu-lírico também descreve seu relacionamento com outro homem, a decisão de adotar uma criança, e as dificuldades do processo legal. Pensando enquanto forma de comunicação, o documentário representa um monólogo, uma ruminação interna — dialogando ricamente consigo mesmo, interrogando-se, para oferecer, em seguida, a resposta dos próprios questionamentos. Ao espectador, cabe a função de voyeur da intimidade alheia, como se espiássemos o diário íntimo que foi deixado, sorrateiramente, sobre o móvel ao lado da cama. A intimidade é oferecida aos nossos olhos, porém em condição de discrição e distanciamento. 

Pelo menos, os fragmentos que testemunhamos são ótimos. O roteiro alterna com rapidez entre várias crianças e lares, dificultando a tarefa inicial de compreender qual criança pertence a qual núcleo, e quais adultos interagem entre si. Isso porque muitos deles são vistos de maneira isolada, a princípio: um garoto acorda, pula a janela e vai jogar bola; o rapaz de 17 anos conversa com outro na cama; o adulto faz um bolo em casa. Para além da montagem, que os aproxima, quem interage com quem no cotidiano? Mesmo o tema da obra soa opaco à primeira vista: seria uma narrativa a respeito de famílias homoafetivas? De crianças adotadas, em geral? Da experiência em abrigos?

Aos poucos, o organograma se desenha, e os debates se aprofundam o suficiente: todos os temas mencionados acima soam importantes ao cineasta Leandro Wenceslau, embora nenhum assuma o protagonismo absoluto. Demais questões entram em cena: as famílias interraciais, os direitos e entraves aos pais homoafetivos, além das experiências traumáticas em lares adotivos, que levam diversas crianças a retornarem aos abrigos. A delicadeza dos laços humanos se converte num conflito vasto, capaz de unir os núcleos filmados ao longo dos anos. No entanto, os dilemas permanecem no domínio da palavra, mais uma vez: não enxergamos a luta por direitos, nem a reivindicação de direitos para garotos negros, ou ainda a necessidade de retornar ao abrigo. Fala-se de um problema distante das imagens, alheio aos olhos e sentidos, cujo distanciamento impede que as conversas se convertam em melodramas.

Pelo contrário, a direção de fotografia de Ícaro Moreno privilegia os gestos cotidianos: pai e filho jogando videogame, avós e neto comparando o tamanho das mãos, o jogo de futebol no quintal. A opção pelo quadro fixo, cuidadosamente composto, permite observar interações tão espontâneas quanto, ironicamente, condicionadas (há óbvio grau de ficcionalização no menino pulando a janela). Os melhores instantes provêm de certa rigidez e elegância do olhar, capaz de captar instantes preciosos (o rapaz mais velho, encorajando o menino a não se sentir culpado pelo histórico familiar), distantes de qualquer sentimentalismo barato. Acredita-se num afeto manifestado no cotidiano, e visível nestas cenas de almoço e conversas na sala de estar. 

Em contrapartida, a polidez da imagem (e da montagem imagética) não acompanha aquela do som. Lar traz escolhas curiosas de montagem de som e de trilha sonora. Primeiro, investe numa espécie de tema central, com uma palavra-mantra (algum termo indígena?) martelado incontáveis vezes na banda sonora, da primeira à última cena, sem se esclarecer (seria a palavra “lar” em outra língua?). Depois, proporciona saltos bruscos de qualidade e volume de som entre uma cena à outra, demonstrando pouco cuidado com a mixagem e a finalização sonora. A qualidade da captação, entre falas e sons ambientes, revela um desnível que chama atenção excessiva a si próprio. 

Logo, o resultado soa desigual: por um lado, encanta pela perspectiva de valorizar o cotidiano, tornando os laços mais importantes do que os problemas do passado. O documentário nem ignora os conflitos pessoais de pais e filhos, nem os explora para fim de entretenimento. Existe uma disposição bastante louvável em normalizar relações homoafetivas, e lares com crianças adotadas, de modo a se tornarem indistintas de quaisquer famílias cis-heteronormativas, ou formada exclusivamente por crianças biológicas. A banalidade destas cenas se converte em propósito, ou seja, num posicionamento político valioso por parte da direção. 

Por outro lado, seja pela organização dispersa dos núcleos narrativos, pelos temas amplos até demais (numa obra de duração sucinta), e pelas escolhas quase contraditórias de imagem e som, resta um desnível na proposta, como se vontades contrárias, e linguagens de difícil convivência, convivessem forçosamente no interior da narrativa. A linguagem pedagógica, esmiuçada em excesso, sela esta relação ambígua com o espectador, a quem se permite ver, porém, sem acreditar de fato na nossa capacidade de compreensão — por isso, a necessidade de explicar tu-di-nho.

Por que os novos filmes nos supõem tão iletrados, tão carentes de um diretor-professor que nos pegue pela mão e nos conduza por este caminho — já bastante acessível em si mesmo? A febre das narrações didáticas em off equivale ao fenômeno dos finais explicados de vídeos em redes sociais — quando se disseca significados que jamais solicitariam tamanho esforço, e que privam o espectador de elaborar os sentidos sozinho. A bela discussão a respeito de lares, famílias e convivências se torna menos chamativa do que as escolhas, questionáveis e múltiplas, da ordem da estética cinematográfica.

Lar (2025)
6
Nota 6/10

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