Mamántula (2023)

Mata-me de prazer

título original (ano)
Mamántula (2023)
país
Alemanha, Espanha
gênero
Terror, Ficção Científica, Fantasia, Erótico
duração
49 minutos
direção
Ion de Sosa
elenco
Moisés Richart, Marta Bassols, Lorena Iglesias, Kate Strong, Márcio Reolon, Adolfo Assor
visto em
9ª Mostra Quelly (2025)

A princípio, este pode parecer apenas um encontro gay às escondidas — uma pegação no mato, ou um banheirão inconsequente. Com um pequeno sorriso, o homem calvo atrai seus parceiros para um canto isolado, onde logo pratica sexo oral no parceiro. A intensidade e frequência da sucção aumenta, com generosos sons indicando a boca em ação. As vítimas gemem, se entregam. No dia seguinte, são encontradas na forma de uma pele vazia, asquerosa, misturada a secreções e viscosidades. As entranhas se foram, sugadas por este parceiro dedicado. 

As cenas de morte em Mamántula impressionam por alguns aspectos. Em primeiro lugar, porque as vítimas se entregam ao agressor, ignorando o destino trágico que as aguarda. De qualquer modo, o vilão nunca precisa correr atrás de ninguém, somente seduzir seus alvos. Em segundo lugar, porque essas pessoas cujas vísceras são literalmente sugadas pelo pênis aparentam ter o maior prazer de suas vidas, algo que jamais acreditavam ser possível. Devido ao teor (voluntariamente) exagerado das atuações, e ao trabalho sonoro comicamente acentuado, o monstro assassina suas vítimas de tanto prazer. Morreram durante o melhor orgasmo possível.

Existe um teor belo, e estranhamente poético, nestes encontros amorosos consensuais (e deliciosos para ambas as partes) entre predador e vítima.

Esse modus operandi original dos ataques suscita uma mistura de comicidade e choque diante do média-metragem. O diretor Ion de Sosa brinca com a ironia de o predador ser um Homem-Aranha, em conotação bastante diferente do habitual super-herói. Ao invés de usar sua teia para se pendurar em prédios e salvar vítimas, utiliza-as metaforicamente para atrair aqueles que pretende, de maneira bastante literal, devorar. O princípio da pele abandonada também dialoga com o conceito de corpo sem órgãos de Deleuze e Guattari, porém, desta vez, literalmente esvaziado, e destinado a saciar o corpo do dominante. A postura ativa no sexo gay se converte na possibilidade literal de incorporar o passivo — um canibalismo sexual, digamos.

Se o sexo entre homens adquire um caráter fantástico, associado inclusive a esferas verde-neon e conversas secretas entre aranhas animadas, a narrativa se equilibra com uma metade policial de ares bem mais comportados. O cineasta ancora tamanho delírio camp na estrutura de uma simples investigação policial por parte de duas mulheres perturbada pela cena do crime. Elas fazem perguntas, entrevistam testemunhas, conversam com médicos e especialistas em aranhas. A profunda seriedade diante do absurdo acrescenta uma camada de comicidade à trama.

Logo, o aspecto queer parasita igualmente a metade “séria”. As duas policiais começam a se relacionar amorosamente, numa noite de sedução filmada por uma belíssima luz direcional e branca, de flash, em ângulo inabitual em plongée, sugerindo que tenham sido vistas ou gravadas à revelia. As partes trash e clássico-narrativa se encontram nesta tentativa de tratar a insanidade com verossimilhança, conduzindo esta caçada mortal segundo as regras esperadas de séries procedurais e filmes de caça a serial killers dos anos 1990. O fetiche se completa, inclusive, nesta cinefilia que combina o gênero (no sentido de masculino, feminino, etc.) com os gêneros cinematográficos (a comédia, a paródia, o erótico, o horror, o policial, o suspense).

É possível que o enfrentamento final à criatura soe anticlimático. Os segmentos entre Mamántula e o namorado, interpretado pelo diretor brasileiro Márcio Reolon, aproximam-se da normalidade e rompem com o faz-de-conta delirante elaborado até então. De qualquer modo, uma vez que o real se insere nesta bolha de gozo e mortes, ela mata o prazer, estraga a diversão, e reduz a monstruosidade a uma pobre criatura, exposta publicamente. Nada arruína o fetiche tanto quanto esta intromissão do cotidiano. Nos trechos naturalistas, as luzes são ainda mais frias, e a condução para de brincar. De fato, as cenas de sexo, com asco e provocação, limitam-se à primeira metade da narrativa. Na segunda parte, o filme cutuca os limites de sua teia até rompê-la, para, então, arrumar a casa. De Sosa cria uma bagunça pelo gosto de suspendê-la e reordená-la em seguida.

Por fim, Mamántula transpira um homoerotismo tão voraz quanto grotesco. O humor decorre precisamente da ideia de um prazer insensato, incontrolável, que se busca noite após noite, em clara suspensão das regras sociais. O ataque do animal disfarçado de humano ilustra a busca tão comum por uma excitação sempre maior, tal qual uma droga. O êxtase coincide com o fim da vida, como se, uma vez conquistado o objetivo tão procurado (o clímax transcendental), não houvesse motivos para seguir em frente. Existe um teor belo, e estranhamente poético, nestes encontros amorosos consensuais (e deliciosos para ambas as partes) entre predador e vítima.

Mamántula (2023)
8
Nota 8/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.