
Maya, Me Dê um Título parte de um conceito bastante original. O diretor Michel Gondry decide presentear sua filha com pequenas animações sem stop motion, elaboradas com cartolina e papel, a partir de temas escolhidos pela garotinha. Esta seria uma forma de uni-los, mesmo que à distância. (Parte considerável do projeto deriva deste sentimento misto de carinho, culpa e ressentimento de um pai divorciado, tentando se aproximar da filha com quem não passa tanto tempo quanto gostaria).
Assim, ela aceita as regras do jogo na condição curiosa de proponente — um misto de produtora de uma obra de encomenda, além de espectadora de um cinema pensado sob medida para seus gostos. A noção que o público possa ter tamanho controle sobre o filme exibido já provoca um tremor nas relações espectatoriais comuns. Aqui, cabe ao cineasta cumprir os desejos dela, e Maya o corrige quando não sente que a história se encaminha a rumos de seu agrado. Gondry efetua as obras para ela em diversos sentidos do termo: enquanto oferenda, mas também na função de funcionário, buscando agradar a uma chefe tão engenhosa quanto temperamental. A certa altura da dinâmica, ela se recusa a receber novos desenhos, despertando uma crise real no artista. Para que serviria um animador, sem animar?
A comédia de fantasia apresenta uma criatividade alucinante, na qual a aventura constitui uma finalidade em si própria.
As interações com a filha misturam uma pluralidade de elementos e registros de imagem. Por trás do dispositivo lúdico, movido pela simples dinâmica repetida, esconde-se impressionante sofisticação de linguagem e estética. Em primeiro lugar, por fundir o documentário, a ficção roteirizada, a animação e incontáveis camadas de metaficção. Isso significa que o pai anima a si mesmo animando outras propostas, enquanto a filha, dentro das narrativas, começa a fabular por conta própria. Há gravações da própria menina sugerindo seus títulos, no interior de uma casa-estúdio, utilizando objetos cenográficos previstos para a filmagem. Ela se torna, ao mesmo tempo, espontânea e dirigida, proativa e controlada. (O desejo de preservá-la em imagens, e conceber a própria filha em animação, serve como maneira simbólica de criá-la de novo, ditando os rumos da vida da pequena. Nestas invenções, quem dá à luz a Maya é o pai).
Em segundo lugar, por estabelecer um diálogo fértil entre a voz descritiva em off e a escrita à mão da mesma narração sobre os desenhos, em papel recortado. Gondry elabora um projeto intermediário entre o filme infantil e o livro infantil, possibilitando ler as intervenções fantasistas do narrador (Pierre Niney) como quem folheia uma publicação para pequenos leitores. Enquanto isso, explica aos pequenos como funciona o cinema de animação quadro a quadro, de modo que possam reproduzir sozinhos, posteriormente, com seus recortes e telefones celulares. Ao contrário da busca por imersão, o cineasta propõe um distanciamento, revelando os bastidores do processo e democratizando o audiovisual enquanto elaboração manual. Cinema é jogo, brincadeira e aprendizado.
Em terceiro lugar, Maya, Me Dê um Título se converte numa homenagem à manufatura. Gondry elabora manualmente os recortes, assim como os movimentos de seus personagens. Dentro de cada pequena história, os personagens também modificam o mundo graças a um pequeno gesto das mãos. Por exemplo, a bateria do papai desperta um terremoto, um frasco de ketchup tinge as águas do mundo inteiro de vermelho, e um preparo de picles diminui a dimensão da criança, até a mini-Maya mergulhar pelos encanamentos da cidade. Existe uma louvável sensação de faça-você-mesmo, de artesanato, raramente associada à custosa e complexa arte do cinema. O autor poderia apostar simplesmente nas filmagens digitais com celulares, mas prefere imaginar o cinema do papel colado, o apocalipse de cartolina e cola.
Nesta busca por uma concepção conjunta (os filmes são assinados “de papai”, associando-o ao vínculo com Maya), o longa-metragem introduz de maneira inesperadamente eficaz os conceitos básicos do cinema — o desenvolvimento de uma história, os conflitos, os flashbacks, a montagem paralela (vide os personagens se exercitando enquanto a prisão é sequestrada). Gondry encontra uma maneira clara, porém nada tradicional, de apresentar aos pequenos a arte enquanto profissão e elaboração. Ele foge ao tradicional elogio da magia do cinema, do encantamento providencial da arte, preferindo demonstrar o passo a passo da elaboração da obra. Ao invés de se encantar com o brinquedo, decide abri-lo para revelar o funcionamento de sua engrenagem interna.
Como consequência, a comédia de fantasia apresenta uma criatividade alucinante, na qual a aventura constitui uma finalidade em si própria. Não se requer de Maya, nem das ficções-dentro-da-ficção, que sejam coerentes, que proponham um arco coeso, único, direcionado a uma mensagem específica. Eles preferem delirar, porque a animação e a lógica infantil o possibilitam. Deste modo, meninas escalam prédios durante terremotos, metrôs dão acesso ao centro da Terra, 250 bilhões de batatas fritas são lançadas ao mar, cavalos são cortados em quatro, e as pérolas do oceano permitem aos peixes falar (até demais). O caráter simplificado dos recortes e dos movimentos favorece tamanha ousadia — quanto mais naturalista e profissional fosse a animação, maior seria a expectativa de uma história igualmente “séria”.


Gondry anima para uma criança, em registro próximo àquele que uma criança também faria. Neste sentido, não se converte num enésimo adulto pensando naquilo que os pequenos deveriam aprender e saber. Ele se senta ao nível de Maya e dos pequenos — novamente, não são os espectadores mirins que precisam ascender ao registro audiovisual, mas este que se esforça para alcançá-los onde estão. (Curiosamente, neste projeto feito por um pai à filha, desaparece o paternalismo do storytelling). Maya, Me Dê um Título funciona como os álbuns de colorir nos quais os alunos rabiscam fora da linha, com cores não-naturalistas — e são incentivadas a tal gesto. Surge, portanto, uma inesperada ode à ruptura das normas — inclusive, do cinema de animação polido, bom moço, intensamente computadorizado.
Por fim, a obra pode soar pequena, caseira, como se esperaria do presente artesanal de um pai à filha. Ora, o gesto transparece uma complexidade ímpar, além da raríssima ousadia para o circuito comercial. Este será, sem dúvida, um dos filmes mais surpreendentes e inventivos do ano, explorando da melhor maneira as possibilidades do cinema de baixíssimo orçamento. Além disso, prova que a obra confessional e autobiográfica não precisa carregar o teor de autoimportância percebido em tantos filmes semelhantes, nos quais a homenagem se converte em peso, em solenidade. Gondry efetua um gesto rebelde, quase inconsequente, respondendo somente a uma lógica própria. Demonstra, desta forma, do que o cinema é capaz quando se inspira na fértil imaginação dos pequenos.




