
Parte considerável deste documentário se passa em bares do Rio de Janeiro. Os amigos se provocam e contam piadas, enquanto relembram episódios engraçados ou constrangedores um do outro. A cerveja está sempre nas mão e nas palavras destes personagens. Moacyr Luz, Embaixador Dessa Cidade se constrói na forma de uma celebração boêmia do músico e compositor. O filme não somente registra as festas e encontros do protagonista, mas comemora com ele, participando ativamente da folia.
Por isso, a câmera se posiciona junto à mesa no bar, em frente à roda de amigos na feira, ou no beco onde o personagem pede sua bênção a Pixinguinha. Ninguém se sente obrigado a abordar nenhum tópico em particular, seja para rememorar a trajetória do artista, seja para cumprir com pontos previstos pelo roteiro. A diretora Tarsilla Alves decide adaptar generosamente a sua câmera ao mundo do biografado — nunca o contrário. Ela frequenta os espaços importantes para ele, e se aproxima das pessoas que atravessaram sua vida. Então, capta a interação bastante espontânea que ocorre entre as duplas e trios.
O documentário se beneficia, portanto, desta leveza rara para uma obra de pretensa celebração da vida e obra de um artista. Somem os elogios efusivos de colegas, as recordações dos maiores sucessos da carreira, assim como a necessidade de compreender o momento atual de Moacyr enquanto fruto de uma evolução constante. A cineasta foge às armadilhas da hagiografia, assim como se esquiva da responsabilidade de explicar seu personagem ao público. O discurso não o resume a uma trajetória profissional, nem se limita a uma sucessão de fatos e verbos.
Quem diria que o grande músico também poderia ser o malandro do bar? Ao invés de colocar seu protagonista num pedestal, Tarsilla Alves se esforça em aproximá-lo de cada um de nós.
Logo, o filme dispensa a cronologia e a linearidade. Nunca perde tempo justificando as raízes do protagonista, detalhando a sua infância e outros passos esperados do documentário convencional. Chega a ser um alívio encontrar uma perspectiva tão horizontal, e aberta ao tempo presente, quanto esta. Trata-se de um filme com Moacyr, ao invés de um filme sobre Moacyr, o que faz toda a diferença no resultado. Poucos diretores estão dispostos a captar o acaso, e preparados (em termos estéticos e narrativos) para apreender a magia da banalidade. No entanto, a direção de fotografia, o som e, sobretudo, a montagem, despertam a impressão de um grupo de criadores em total sintonia com seu biografado.
O próprio Moacyr Luz contribui bastante à empreitada, é claro. Simpático, piadista, dotado de senso de autoparódia, ele menciona tanto as conquistas quanto os fracassos musicais. Lembra os sucessos e derrotas com as mulheres. Brinca consigo, com a cidade que tanto ama, com os amigos queridos. Nada parece sagrado — e, neste aspecto, ele se torna o avesso de tantos filmes solenes e sepulcrais, que se atribuem a tarefa de honrar a grandiosidade da pessoa amada. Aqui, o espectador também se senta no botequim e integra a gozação — o que jamais implica em deboche ou desrespeito. Moacyr provoca somente aqueles com quem se importa de fato.
Em consequência, o documentário soa apropriado no sentido de incorporar, em seu estilo e ritmo, a malandragem essencial à representação do artista. A sessão no cinema foi marcada por inúmeras gargalhadas, fruto do texto afiado, e de inúmeras histórias de bastidores generosamente compartilhadas pelos participantes. Nem a presença luxuosa de cânones da música brasileira — Maria Bethânia, Fafá de Belém, Zeca Pagodinho, Jards Macalé — força o resultado no sentido da idealização, tamanho o interesse da cineasta de dialogar com estas pessoas de igual para igual. Os convidados são acomodados literalmente numa mesa de bar, e despidos da obrigação de canonizarem o colega de profissão.
Já a música de Moacyr Luz — Moa, para os próximos — se insere de maneira natural, quase corriqueira. Não é preciso apontar a genialidade de letras, pois a equipe acredita na capacidade do público em perceber o valor destas criações por conta própria. Outro reconforto neste projeto decorre desta fé da cineasta e sua equipe na inteligência do espectador. Estima-se que somos capazes tanto de compreender os revezes do alcoolismo (jamais abordado enquanto tal), quanto de buscar demais informações por conta própria. O documentário recusa o formato do roteiro Wikipédia.


Em paralelo, a autora utiliza pouquíssimo material de arquivo (outra raridade no subgênero dos documentários musicais) para privilegiar as captações contemporâneas e autorais. Neste sentido, encontram-se gravações competentes, profissionais, com atenção particular ao tratamento sonoro, e reflexão precisa em termos de luz e profundidade de campo. Nota-se uma atenção constante, através da câmera discretamente móvel durante as entrevistas (no caso da fala com Zeca Pagodinho, por exemplo) e na iniciativa de alterar imediatamente a profundidade de campo quando três pessoas se alternam no enquadramento. A fotografia joga muito bem com seus personagens.
Moacyr Luz, Embaixador Dessa Cidade se encerra no instante em que o protagonista termina um show — não numa casa de espetáculos famosa, mas num bar simples, junto aos colegas e público. O homem que lutou muito para conquistar o reconhecimento, tendo se apresentado a meia dúzia de pessoas, agora motiva filas imensas, que dão a volta no quarteirão, conforme a montagem sublinha num corte simples. O filme desperta um constante senso de ironia ao sugerir um talento tão notável quanto descontraído — a poesia do sujeito comum. Quem diria que o grande músico também poderia ser o malandro do bar? Que o marido amoroso também seria o mulherengo? Que o gênio das letras seria o piadista? Ao invés de colocar seu protagonista num pedestal, Tarsilla Alves se esforça em aproximá-lo de cada um de nós. Nesta identificação, reside a força de sua obra.




