
Do nascimento à morte, passando pelos momentos mais marcantes da carreira. Este longa-metragem se inicia com a infância de Charles Aznavourian, filho de pais armênios, ambos artistas, perseguidos durante a ocupação nazista na França. Acompanha, em seguida, as primeiras parcerias musicais, as críticas à voz rouca, a mentoria de Edith Piaf, a decisão de seguir carreira solo, e alguns fracassos, até a descoberta da “fórmula Aznavour”, nas palavras do artista, que possibilitou o reconhecimento nos palcos e no cinema. Encerra-se com o falecimento do cantor e o atestado de sua importância na cultura francesa.
Assim como incontáveis filmes biográficos, Monsieur Aznavour se considera responsável ou, mais do que isso, obrigado, a abraçar todos os pontos importantes de uma extensa trajetória. Transparece certo caráter reverencial em relação ao protagonista, estimando-se na função de lembrar cada canção famosa (La Bohème, Emmène-Moi, Hier Encore, She, Comme Ils Disent, etc.), pontuar as relações familiares, amorosas e artísticas. Os diretores Mehdi Idir e Grand Corps Malade adotam uma trajetória descritiva, cronológica e linear. Estimam ser preciso resumir Aznavour, explicando-o tanto aos conhecedores quanto aos não-conhecedores.
Um filme competente em retratar tantas passagens pessoais, porém incapaz de privilegiar um destes episódios em detrimento dos outros. Trata-se de uma obra correta, previsível, acadêmica, embora pouco criativa ou ousada.
Este sentimento é comum, embora esteja longe de constituir uma obviedade. As melhores biografias são aquelas que evitam a armadilha da completude, concentrando-se num momento específico da vida, ou em alguns dias da carreira, capazes de ecoar tudo o que veio antes, e sugerir o que viria depois. Acreditam na capacidade de representação, justamente, sem necessitar de uma reconstituição fiel dos fatos. Este cinema da recriação tal qual (servindo-se de próteses no nariz, e reprodução fiel dos gestos no palco) soa como uma forma de cinema de frágil crença no papel criativo da arte. Deduz que a vida precisa ser imitada, diminuindo ao máximo a distância do original. Ignora uma evidência: uma persona pública pode dar origem a uma criação inesperada por parte dos cineastas, ou uma evocação, mesmo uma transgressão das formas. Aznavour, assim como qualquer outro grande artista, não se limita a uma coletânea de canções e acontecimentos.
Mesmo assim, o roteiro deste filme francês tenta embutir o máximo de fatos, o que implica numa sucessão velocíssima de reviravoltas. O genocídio armênio, a invasão nazista, o fim da Segunda Guerra, um primeiro amor, um segundo amor, um terceiro amor, o período nos Estados Unidos, no Canadá, de volta à França, etc. No terço inicial, em particular, os acontecimentos se sucedem em ritmo espantoso (talvez uma premissa tão descritiva se acomodasse melhor no formato da minissérie). Percebe-se a delicada tarefa da edição para: 1. Manter a duração dentro de um formato comercialmente aceitável; e 2. Chegar o quanto antes à fase de sucesso musical, que de fato motiva dos fãs do cantor a investirem no ingresso do cinema.
Curiosamente, o discurso privilegia a perspectiva de Aznavour enquanto exímio negociador, e homem dedicado a conquistar o sucesso a qualquer preço. Minimiza a defesa de seu talento, da voz singular, da reverberação popular de suas letras. Para o roteiro, importa sublinhar a disposição do protagonista em se mudar para qualquer país, ou se aproximar de qualquer parceiro, que lhe pudesse proporcionar a tão desejada fama. Nesta passagem, romantiza-se (ou, pelo menos, tolera-se) o abandono de tantas esposas e filhos pelo caminho, seguindo a ótica de que a dedicação à música seria incompatível com obrigações paternas. O filme se mostra bastante conivente com as irresponsabilidades conjugais e familiares do artista.
Pelo menos, Tahar Rahim não o interpreta de modo excessivamente elogioso, e o filme evita caracterizá-lo como melhor de sua função. Aliás, para uma narrativa biográfica tão tradicional, a perspectiva se mostra surpreendentemente neutra, fugindo aos elogios efusivos. Caso os dois cineastas sejam fãs inveterados de Aznavour, tal apreciação não se transmite à obra, de vertente fatual e objetificante. O ator prefere um olhar obstinado e um sorriso maroto, sobretudo na hora de negociar contratos, salários e quantidades de shows. O roteiro dedica mais tempo à apresentação da astúcia do que à criação de letras, ou ao desenvolvimento de melodias. Como de praxe nas biografias musicais, a relação com os fãs está ausente.


Algumas participações secundárias se sobressaem em meio ao percurso do cantor. No papel de Edith Piaf, Marie-Julie Baup está excelente entre malícia e provocações, entre grosserias e conselhos válidos ao jovem amigo. É difícil prestar atenção em qualquer outro personagem quando a Môme se encontra em cena — de modo que, uma vez retirada da história, ela faz falta graças à capacidade de tensionar a relação de Aznavour com sua própria arte. A relação com o pai parece terna e comovente, ainda que apressada. Aparentemente, o filho pretendia vingar, nos palcos, um senso de inferioridade dos pais, que jamais obtiveram sucesso, além da repressão ao povo armênio. Em contrapartida, estas indicações nunca são aprofundadas pelos autores.
Resta o impressionante trabalho de maquiagem e figurino, que transforma Rahim no cantor, com o qual guarda mínimas semelhanças físicas. O trabalho de som prefere a dublagem à aproximação da voz do autor no timbre característico do cantor. Deste modo, quando as canções se iniciam, torna-se evidente que a textura vocal não decorre do sujeito que conversava com amigos e namoradas minutos atrás — mas esta seria uma liberdade artística esperada desta forma de narrativa. O projeto se encerra na condição de um aluno esforçado, competente em se lembrar de tantas passagens pessoais, porém incapaz de privilegiar um destes episódios em detrimento dos outros. Trata-se de uma obra correta, previsível, acadêmica, embora pouco criativa ou ousada. Por que ainda se considera adequado fazer filmes comportados a respeito de pessoas não comportadas, ou obras de radicalidade nula para pessoas vistas como radicais? Vai saber.




