
Eles dizem: “Você é demais pra mim
Você é inconveniente
Você é demais pra mim”
Então eles se afastam, fazem outros planos
Eu entendo, eu sou inconveniente
Te provoco, te faço ir embora
Eu sou demais para todo mundo”
Lorde, Liability
Grace (Jennifer Lawrence) deixa o bebê sozinho em casa e se aventura pela mata. Ela brinca com uma faca. Ameaça se jogar de um carro em movimento. Rasteja pelo chão uma, duas, três vezes. Tira as roupas em frente às crianças e mergulha na piscina. Bate a cabeça contra o espelho. Lambe o vidro da casa. Arranha violentamente o papel de parede com as unhas. Foge com o bebê pela floresta. Grita com o marido Jackson (Robert Pattinson). Pula em cima dele, exigindo sexo dentro do carro.
Ela diz estar muito bem, obrigado. No entanto, é visível para todos (inclusive o espectador) que a mulher enfrenta sérios problemas de saúde mental. Seria depressão pós-parto, transtorno bipolar? Não saberemos. Isso porque a protagonista permanece isolada com o filho recém-nascido e o marido numa casa afastada, em uma região agrícola dos Estados Unidos. Sem admitir a necessidade de cuidado, ela nunca vai ao médico, nem busca um diagnóstico. O filme foge à sistematização do estado de espírito da mulher. Ao invés de tentar entendê-lo, prefere sentir junto dela, na condição de cúmplice.
Às vezes o espetáculo do choque desperta tamanho encantamento que jamais permite enxergar os indivíduos por trás do conveniente rótulo de loucura.
Por isso, a diretora Lynne Ramsay, a partir da obra de Ariana Harwicz, prefere uma narrativa de excessos, onde a realidade se mistura à fantasia. Posto que a protagonista perde contato gradualmente com o real, o espectador também questiona se os conflitos em cena estão acontecendo somente na mente de Grace, ou para todos ao redor. Desenvolve-se um constante aspecto de pesadelo na narrativa — acentuado pela estrutura do casal ameaçado numa floresta, típico do cinema de terror. Incêndios nas redondezas e homens mascarados vigiando a casa acentuam a impressão de que uma tragédia ocorrerá a qualquer momento.
A cineasta se esforça em transmitir o senso de instabilidade às imagens. Os melhores aspectos de Morra, Amor decorrem da busca por uma linguagem da loucura, capaz de representar o mundo visto pelos olhos de alguém em surto. Por isso, o formato da imagem se fecha numa janela mais quadrada do que de costume, impedindo Grace de enxergar plenamente as pessoas e cenários ao redor. Em geral, as bordas são desfocadas, enquanto a profundidade de campo experimenta os extremos (infinita ou restrita demais, sem meios-termos). As cores saturadíssimas também acenam ao hiperrealismo, ou seja, uma desconexão do naturalismo em níveis e tons.
Jennifer Lawrence entrega-se à personagem sua franqueza e brutalidade habituais. A atriz se popularizou como uma espécie de beldade sem medo de ser vulgar ou atrapalhada — a corporeidade a acompanha tanto na condição de intérprete quanto de persona pública. Assim, ela não se mostra nada acanhada em cenas de sexo, masturbação ou automutilação. Rasteja, baba e lambe objetos sem o mínimo pudor ou vaidade. Isso não significa, necessariamente, um trabalho excelente: a atriz sempre demonstrou dificuldade em construir subentendidos, sutilezas, instantes de contemplação ou dubiedade no olhar. Nos instantes de performance, gritando, pulando ou jogando o corpo ao chão, ela cumpre plenamente o papel. Já no dia seguinte, quando a ressaca de tais ações afeta a heroína, não sentimos o peso de ressentimentos ou dores íntimas.
Robert Pattinson a acompanha no caráter febril, embora seja difícil se manter à altura de uma figura literalmente maníaca e histriônica. Conforme a narrativa afasta o marido da trama (ele precisa de respiro em relação à mulher-problema), também acaba por idealizá-lo. Gradualmente, ele se torna o sujeito sensato, bom pai, que busca ajuda médica e suporte da avó da criança, enquanto a esposa se limita à presença inconveniente, que o envergonha em público. A figura da mulher histérica, hormonal e incontrolável se encontra mais uma vez com o referencial de masculinidade percebida como sinônimo de sensatez e racionalidade — tudo isso em uma obra dirigida e escrita por mulheres.
Em paralelo, o roteiro sugere que a loucura não existe unicamente em Grace. O pai de Jackson (vivido por Nick Nolte) enfrenta a senilidade, devido à idade avançada. Assim, o filme se diverte em aproximar sogro e nora num percurso equivalente de desconexão com o mundo. As cenas de ambos são exageradas, físicas até demais (como toda a mise en scène), porém oferecem algum espelhamento e identificação à protagonista, sempre relegada à condição de agressora e vítima de si própria. Quando a sogra de Grace (interpretada por Sissy Spacek) anda pelas ruas escuras com uma espingarda na mão, começamos a ter um sentimento mais interessante de uma nação abandonada, violenta, incapaz de cuidar de si própria. Um aspecto próximo da distopia beira esta caracterização.
Muitas pessoas têm comparado Morra, Amor a mãe! (2017), outro filme envolvendo Jennifer Lawrence na condição de uma jovem mãe em cenário adverso. No entanto, trata-se de duas obras opostas em sua movimentação: enquanto o suspense de Darron Aronofsky apresentava uma protagonista perfeitamente sã, cercada por um universo de sujeitos perversos; no drama de Lynne Ramsay, a atriz encarna a figura de desequilibrada e violenta, enquanto o universo ao redor tenta lhe trazer de volta à sanidade. O primeiro filme se deleitava sadicamente com os abusos cometidos à mulher, já o segundo se coloca junto dela, na condição de parceiro atento. Os olhares e posturas da direção são totalmente distintos.


Isso não significa que a gente compreenda bem os sentimentos e emoções de Grace, pelo contrário. Ramsay se foca tanto na exterioridade que mantém a psicologia opaca, misteriosa. Duas horas após observarmos esta mulher, presente na totalidade das cenas, ainda não a compreendemos bem, nem entendemos sua luta interna. O filme não consegue representar este turbilhão para além de uma iconografia clássica da violência (a floresta em chamas, a decadência do corpo). Ao menos, Ramsay evita descrever sua protagonista enquanto mãe negligente ou dona de casa relapsa: mesmo em surto, a jovem ainda cumpre minimamente com suas tarefas, sem colocar os demais em perigo.
Logo, Grace é complexa, mas também hermética. Os excessos servem bem a caracterizar a intensidade desta personagem, porém, não bastam para descrever as motivações ou objetivos por trás de seus gestos. A aclamação de parte da crítica decorre muito desta impressão de coragem atribuída a qualquer ator numa entrega visceral — seja ela pertinente ou não, dotada de variedade ou não. Sim, Jennifer Lawrence faz muito, atua bastante, em termos de quantidade e esforço. Isso implicaria, necessariamente, numa atuação exemplar? Não podemos confundir a dificuldade com a qualidade. Às vezes o espetáculo do choque desperta tamanho encantamento que jamais permite enxergar os indivíduos por trás do conveniente rótulo de loucura.




