Nina Roza (2026)

O objeto da arte

título original (ano)
Nina Roza (2026)
país
Canadá, Itália, Bulgária, Bélgica
gênero
Drama
duração
103 minutos
direção
Geneviève Dulude-de Celles
elenco
Galin Stoev, Ekaterina Stanina, Sofia Stanina, Chiara Caselli, Michelle Tzontchev
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

Quando uma criança desenha excepcionalmente bem, a quem recaem os méritos por sua façanha? Se uma garotinha nunca fez aulas de pintura e, mesmo assim, pinta quadros de nível profissional, como interpretar o seu gesto? Em especial, de que forma devem ser tratadas a família, as obras de arte e a própria jovem artista? Seriam um milagre? Uma farsa? Valeria a pena investir no prodígio, sabendo que não necessariamente teria vocação para uma carreira a longo prazo, ou viria a desenvolver um estilo próprio? Estas perguntas servem como ponto de partida para Nina Roza, drama onde os quadros de uma pequena búlgara encantam galeristas e compradores de arte.

Entretanto, o projeto vai além. A partir do caso excepcional e um tanto misterioso, começa a elaborar perguntas de teor amplo, mesmo universal. A diretora Geneviève Dulude-de Celles se interroga a respeito da obra de arte enquanto mercadoria, e de nossas obrigações morais em relação à representação do outro. De que maneira os pais da pequena Nina (interpretada pelas gêmeas Ekaterina Stanina e Sofia Stanina) deveriam se portar em relação a ela? E os galeristas, os curadores, os compradores? Surge um debate, mais complexo do que pareceria a princípio, a respeito da postura arrogante de certa elite em pressupor que a pobre menina obviamente adoraria se mudar para a Itália e “ter uma vida melhor”. O salvacionismo europeu opera a todo valor.

Felizmente, a premissa bem adequada a um melodrama familiar se mantém bastante sóbria em termos de atuação e direção.

Mas vamos por partes. A protagonista deste longa-metragem não é a garotinha, e sim, Mihail (Galin Stoev), curador encarregado de investigar a veracidade deste talento excepcional. Ela não estaria recebendo ajuda de adultos? Não seria tudo um grande golpe para a família pobre ganhar algum dinheiro? (O desprezo oriundo dos países ricos ataca novamente). Por isso, viaja do Canadá, onde reside, até sua Bulgária natal. A desculpa deste inesperado trabalho de detetive implica, na verdade, num retorno forçado ao país que não frequenta há 28 anos. Há uma óbvia conveniência neste dispositivo de reconexão com suas raízes, obrigando o herói a conversar novamente com a irmã distante enquanto questiona seu ponto de vista em relação à arte.

Felizmente, a premissa bem adequada a um melodrama familiar se mantém bastante sóbria em termos de atuação e direção. Galin Stoev sabe sugerir desconforto através de mínimas expressões, deixando que o caráter extremo das circunstâncias fale por ele. Graças à aparência meio estoica, meio interiorizada do protagonista, desaparece a noção de um homem virtuoso, um justiceiro lutando pela integridade do mercado ou pelo bem-estar de Nina. Ele mesmo aparenta não saber ao certo o que está fazendo na cidadezinha do interior de seu país. Neste caso, o sujeito tem muito mais a aprender do que a ensinar. Assim, seus preconceitos começam a ruir, um por um, conforme conhece os familiares de Nina e se vê carinhosamente acolhido enquanto búlgaro mais uma vez.

Já a cineasta opta por uma condução crua, um tanto bruta, na qual os olhares dizem mais do que as palavras. O reencontro com a irmã terá pouquíssimo afeto, e nunca esclarecerá os motivos reais da disputa familiar de quase três décadas atrás. A crise inicial da filha Rose (ou Roza, em búlgaro — o que motiva metade do título) tampouco se traduz numa explicação desta em relação aos motivos que a levaram a romper com o namorado. A autora nunca se sente na obrigação de contar tudo, acreditando em nossa capacidade, enquanto espectadores, de deduzir sentidos ou projetar nas lacunas nossas próprias vivências relacionadas aos temas trabalhados. Assim, o público se vê menos passivo, convidado a participar das descobertas e inquisições.

Nina Roza surpreende pela escolha de diversos close-ups, extremamente próximos do rosto dos atores (vide imagem abaixo). Embora a escolha favoreça a nuance das expressões, ela provoca um sentimento de claustrofobia enquanto diminui a importância dos espaços. Apenas na Bulgária, uma vez que Mihail enfim respira, a direção de fotografia nos permite, igualmente, contemplar a paisagem que nem mesmo o herói reconhece. Durante uma festa, regada a álcool regional e coroada com canções do país, percebe-se o primeiro instante de liberdade de um sujeito, até então, excessivamente contido e introvertido. Além disso, a granulação das imagens transparece uma tendência particular ao cinema canadense (de Montreal, sobretudo) que tanto gosta de explorar a textura da película (seja de fato pelo trabalho com esse material, ou pela reprodução do efeito digitalmente). Alguém está pesquisando essa recorrência curiosa?

Conforme o herói explora as geografias e a si mesmo, o público também conhece um pouco desta Bulgária longe da capital e dos cartões postais. Contrariamente à percepção italiana de um local paupérrimo e necessitado de auxílio, Dulude-de Celles retrata o campo enquanto terra de pessoas acolhedoras e informais. A perspectiva a respeito do povoado se mostra tão amistosa que o resultado poderia ser lido, em partes, enquanto peça turística visando destacar uma nação vibrante, humana e repleta de talentos escondidos — por acaso, todos os adultos pintam ou fazem artesanato pela região. A habitual oposição cidade-campo pende, neste caso, em favor do último.

Por fim, o longa-metragem se destaca graças a algumas belezas simples, porém eficazes, caso do “dueto” imaginário de Mihail cantando uma música a capella, acompanhado da gravação feminina sussurrada, ou da descoberta da ovelha perdida em meio à cidade — numa alusão do próprio visitante. O filme jamais aposta em sentimentalismo, nem mesmo numa conciliação entre as partes por meio do afeto. Prefere uma saída naturalista, que não resolve a sina de ninguém, porém lança ao espectador a contradição dos gestos de cada um. A jornada do curador se encerra em tom agridoce, conquistando uma parte de seus objetivos, porém, frustrando-os em outros. Graças a esta solução, que não tem nada a ensinar, mas bastante a debater, o drama tende a ressoar junto ao espectador após a sessão.

Nina Roza (2026)
7
Nota 7/10

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