
Olívio é um garoto no espectro autista. Sua principal forma de comunicação ocorre através da dança, embora as habilidades de sociabilização sejam restritas. Por isso, ele permanece dias inteiros preso dentro do quarto, apesar dos esforços da mãe. Um dia, a amiga dela lhe apresenta a biodança, uma modalidade permitindo se expressar por meio do movimento e canalizar energias. Uma única tentativa do herói nesta aula, e — bingo! — os problemas acabaram. Ele se mostra confiante, capaz de se apresentar em público, e de ignorar a forte luz no rosto, o som alto e as pessoas o observando.
É difícil não observar este curta-metragem enquanto peça institucional da biodança, em sua solução milagrosa a um conflito crônico. (Neste sentido, desempenha o mesmo papel que O Espaço Infinito proporcionava à constelação familiar). Por mais que se compreenda a busca por melhorias na vida do rapaz, a forma como tal transformação se apresenta transparece uma facilidade inverossímil. Seria importante compreender outros aspectos do garoto: sua relação com a música, o dia a dia para além da dança, a capacidade de aprendizado na escola, a amizade rompida com o único colega.
Ora, o roteiro prefere reduzir todos os dilemas de Olívio a uma sequência de diálogos explicativos entre a mãe e sua amiga. Elas explicam o fracasso no teste de dança clássica, o afastamento da amizade, e todas as outras informações de que o espectador necessita. Teria sido muito mais instigante assistir a estes momentos do que simplesmente escutar dados sobre eles, pela fala de terceiros. O texto possui a tendência a colocar na boca dos personagens tudo aquilo que os autores pretendem dizer, com uma clareza e autoconsciência improváveis para adultos estafados, em busca de alternativas.
“A dança é tudo para mim, mãe! Eu não posso desistir dos meus sonhos por medo de tentar!”. Mesmo a clareza do garoto soa repentina, marcada por uma eloquência que ele não demonstrava até então. Assim, No Compasso do Coração se prova mais interessado em apresentar a solução do que compreender o conflito, e criar o devido contexto para a identificação do espectador com os personagens. Restam algumas cenas de luz estourada demais (a dança inicial, pela perspectiva interna do garoto), enquanto outras carecem de luz (a compra da mandioca), sem falar na fragmentação excessiva da dança final pela montagem. As belas intenções estão em desnível com os recursos empregados para materializá-las em imagens e sons.




