
A primeira reação ao curta-metragem talvez seja de choque: trata-se de um videoclipe? A montagem fragmentada, o som limpíssimo da gravação em estúdio, e a coreografia no interior de um ônibus despertam a impressão de que o filme possa estar deslocado numa competição reservada ao cinema narrativo. Logo, o teor pop se acalma para revelar a história de Vitor (o músico Hynoto) e Katlyn (Júlia Mattos), dois jovens da periferia de Contagem.
O diretor Gabriel Marcos brinca de subverter clichês clássicos do romance. Quando a menina deixa cair seus papéis no chão, esperando que o galã os recolha, o encontro termina numa briga entre ambos. A insistência em acompanhar os dois protagonistas em paralelo também desperta a sensação de que, mais cedo ou mais tarde, se tornarão namorados. No entanto, descobrimos a homossexualidade da menina. Nota-se um prazer saudável, e bem-humorado, em manipular as expectativas do espectador, a partir de nosso longo treinamento diante do cinema clássico norte-americano.
Em seguida, a jornada alterna entre o drama de formação, as cenas musicais e o naturalismo engajado. O título, bastante próximo de No Coração do Mundo, o posiciona como primo mais novo dos vizinhos da Filmes de Plástico, enquanto o encontro dos jovens pelos corredores de um trabalho mal remunerado remetem diretamente ao belo Lapso, de Caroline Cavalcanti. O aspecto queer e a intromissão assumida do gênero musical lhe conferem a personalidade necessária para se distinguir (um pouco) dos referenciais.
Infelizmente, algumas escolhas prejudicam o resultado, desde problemas de sincronia nas cenas musicais, até o caráter didático de algumas falas a respeito de nossos amores (repetidas no final, de modo redundante), passando por pequenas escolhas de direção (a mãe confinada ao mesmo canto da sala). Algumas sequências, a exemplo da confusão com a colega chamada de “Mãe”, parecem desengonçadas em termos de mise en scène, enquanto se pode apontar a velocidade excessiva com que se passa de uma briga feroz à amizade profunda, em nível “Deixa eu ser família pra você, e você pra mim”.
Logo, podem-se apontar excessos. No entanto, No Início do Mundo é um filme vibrante, sem medo de se arriscar, de combinar gêneros distintos, de romper com percursos conhecidos. Em meio a tantas ficções seguras e acadêmicas, ou documentários meramente explicativos, curtas-metragens como o de Gabriel Marcos são aqueles que se destacam, de fato, numa seleção. Nota-se a vontade de fazer cinema, e de experimentar com formas e rumos, algo que nos faz acreditar bastante no percurso do cineasta. Às vezes, os filmes mais vigorosos são aqueles com diversas arestas a aparar, porém, com mais acertos no modo de representar uma juventude repleta de potencial.





