
O drama de Nosso Segredo se parece, na verdade, com um suspense. Enquanto a família ao centro da trama lida com uma perda recente, da qual pouco se fala, percebem-se acontecimentos estranhos, inexplicáveis, no interior do lar. Com quem o pequeno Tutu (Efraim Santos) conversa, através do encanamento? Do que Guto (Flip) foge todas as noites? Por que Grazi (Jéssica Gaspar) mantém os olhos perdidos? O que explica que a televisão continue ligada, mesmo com o cabo retirado da tomada? Por que incomoda a presença eventual de Lêda (Gláucia Vandeveld), a quem tentam proibir o acesso à casa? O que leva estes familiares a encararem o teto? O que seria o líquido alaranjado escorrendo pelos cantos da parede?
Fora da residência de classe-média, o mundo também instiga a meia-dúzia de protagonistas. Um passageiro (Mateus Aleluia) da corrida via aplicativo provoca o motorista Gilson (Robert Frank) a respeito do envelhecimento e do trabalho. O caminhão de lixo, parado em frente ao veículo, parece ter alguma mensagem cifrada a transmitir. Em seu primeiro longa-metragem como cineasta, Grace Passô instaura uma atmosfera de enigma, por trás da aparência de um retrato familiar cotidiano. Decifra-me ou devoro-te, convida o roteiro. De fato, a noção de devorar será justificada adiante. Enquanto isso, o núcleo convive como se nada tivesse acontecido. Cuidam das tarefas domésticas, comparecem ao trabalho, assistem à televisão, escutam música. A naturalidade soa forçada: evidentemente, há um conflito que evitam mencionar.
Nosso Segredo equilibra-se entre o naturalismo e uma fantasia obscura. A impossibilidade de efetuar o luto implica numa transformação física dos espaços.
Cabe ao garotinho a função de olhos da casa, testemunhando todas as ações, embora compreenda pouco do que presencia. Mesmo assim, é ele quem dispara as frases realmente importantes: “Tia, a vida é tão difícil!”. “O mundo é injusto?”. Suas considerações são dispensadas, com frequência, enquanto aleatoriedades da imaginação infantil. Em outros momentos, os adultos retrucam: “O tempo agita as coisas. O tempo é bom”. Precisamente, com o desenrolar da narrativa, sem pressa, Passô apresenta cada um dos personagens, em suas maneiras distintas de reagirem ao trauma recente (internalizando-o ou externalizando-o, reprimindo-o ou agredindo os demais). O terço final reserva surpresas, capazes de canalizar tantos indícios de estranhamento plantados até então.
Assim, Nosso Segredo equilibra-se entre o naturalismo e uma fantasia obscura. Pode se assemelhar, em princípio, à dinâmica dos afetos de Marte Um (2022) — pela afinidade com o núcleo mineiro de quem a diretora costuma fazer parte — até revelar uma predileção bastante autoral por algo mais inquietante e visceral. Quem assistiu aos excelentes República (2020) e Vaga Carne (2019), deve antecipar este gosto pelo imponderável, pelo confronto do corpo face aos absurdos do mundo. Aqui, a impossibilidade de efetuar o luto coletivamente implica numa transformação física dos espaços. O lar termina por obrigá-los a expressar aquilo que se encontrava reservado. O que não vira palavra, vira sintoma, sugere a psicanálise. Neste caso, o sintoma adquire grandes proporções.
Os espaços, precisamente, constituem um personagem à parte. A casa ocupa o papel de protagonista, tanto quanto mãe, tios e filhos. A impecável direção de arte de Lucas Osório constrói uma casa verossímil — pão e café em cima da mesa, a pilha de papéis ao canto, alguns objetos fora de lugar, apesar da evidente arrumação geral. É possível acreditar no quintal com as plantas, nos fones de ouvido largados em algum canto, na decoração do banheiro utilizado por duas pessoas ao mesmo tempo. É preciso, em primeiro lugar, acreditar fielmente naquela vida ordinária, para em seguida mergulharmos em seu aspecto fantástico. A magia solicita, antes de tudo, nossa crença e empatia com as figuras presentes. A direção de arte cuida desta imersão com esmero.
Já as atuações se mostram coesas, livres de vaidades, de poses ou bravatas. Passô trabalha o núcleo enquanto conjunto homogêneo, evitando as catarses ocasionais, de modo a concentrar toda a expiação de sentimentos naquele clímax. Logo, trabalha algo muito mais completo: a expressão contida de alguém que obviamente tem algo a dizer, o afeto represado do tio incapaz de se manifestar, o cansaço no rosto da mãe esforçada em seguir em frente. Os não-ditos se tornam palpáveis, percebidos na ternura comovente dos olhos de Robert Frank, ou no cuidado das plantas por Marisa Revert. Mesmo a adolescência é tratada com carinho: acolhe-se o namorado deixado de lado (Juan Queiroz) e o jovem que se revolta (Flip), sem saber ao certo contra o quê. Percebe-se com clareza quando a direção possui interesse genuíno por seus personagens.
Ao final, a configuração de uma família negra se torna essencial e também desimportante — tamanha cumplicidade durante a corrida de carro ocorre apenas devido à compreensão tácita entre dois homens negros, enquanto o tratamento desdenhoso do jovem no hospital se deve à sua raça. Os familiares se confrontam, em última instância, a um adversário “que só faz mal para quem é branco”. Passô sabe exatamente em quais passagens frisar as especificidades sociais de uma família negra, e quando sugerir ritos de passagem universais (“A saudade é uma herança nossa”). Deste modo, nem ignora tensões raciais evidentes (a incômoda presença de Lêda em casa), nem as converte em motor de conflito para a trama.


Em consequência, chega-se ao importante momento no qual se multiplicam as representações de famílias negras, criadas por autores e autoras negro(a)s, inserindo naturalmente estas vivências em meio a uma série de outros dilemas que possuam. O micro e o macro são indissociáveis. A diretora debuta no longa-metragem com uma obra surpreendentemente segura, madura, ciente tanto de sua capacidade de abraçar o real quanto da necessidade de incorporar certo grão de absurdo, capaz de representar movimentos internos mais complexos. Descreve uma dezena de figuras plausíveis, movidas por personalidades e objetivos próprios, até atingir um mosaico de tamanha complexidade que seria difícil até aos autores mais experientes.
Ela termina por construir uma obra de notável organicidade, onde cada departamento artístico trabalha em sintonia, sublinhando as qualidades dos demais. Impossível destacar um único fator que chame a atenção para si próprio, ou um único ator e atriz que se destaque. Difícil separar uma cena em particular, um movimento de câmera ou uso de trilha sonora específico. Apenas as grandes obras nos apresentam personagens inéditos como se fossem velhos conhecidos, e estranhezas da fantasia como se não passassem de uma obviedade naquele contexto (afinal, todos os indícios estavam presentes). Os melhores filmes dominam o agenciamento de tempo, do espaço e do ponto de vista. São exatamente estes elementos que fascinam dentro da casa tão impossível quanto verossímil de Nosso Segredo.




