
Que imagem da Amazônia habita nossas salas de cinema? Talvez esta seja uma das questões mais importantes para o audiovisual brasileiro este ano, em termos de discurso e representação. Em poucas oportunidades tivemos tantos longas-metragens situados prioritariamente neste espaço, tanto os nacionais (O Último Azul, Perrengue Fashion, O Diário de Pilar na Amazônia) quanto estrangeiros (Anaconda). Entretanto, não bastam as florestas e povos originários figurarem nas ficções — é preciso refletir acerca da maneira como são abordados, e a partir de qual ponto de vista.
A fantasia infantojuvenil O Diário de Pilar na Amazônia parte do ímpeto de ativismo ambiental por parte da garota cujo nome estampa o título. Graças a uma rede mágica, ela se teletransporta à região Norte, onde enfrenta madeireiros, faz amizade com povos indígenas e descobre entidades como o Boto, o Curupira, a Mãe da Mata, etc. Através dos olhos ingênuos dela, pretende-se informar em simultâneo o espectador, que se pressupõe ignorante em todos os temas abordados. Por isso, aqui, como nas demais obras citadas, persiste certo didatismo — uma infantilização e simplificação da realidade, visando melhor assimilação.
O intuito dos diretores Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put, partindo dos livros de Flávia Lins e Silva, é nobre e justificável. Buscam sensibilizar os pequenos a respeito dos graves crimes cometidos contra o meio ambiente, além da existência de poderes econômicos destruindo a natureza em localidades nem sempre noticiadas pelos veículos nacionais. Assim, encontram uma maneira de adaptar à linguagem infantil questões de política, através da figura de uma super-heroína destemida, apoiada pelos familiares e pelos amigos em seu combate ambiental. A política se traduz em aventura, fantasia, jornada mágica.
Preserva-se a Amazônia enquanto ideal de aventura exótica e turística. Um território distante, exótico, repleto de magias e novidades. Parte-se da “civilização” rumo à vida “selvagem”.
Em contrapartida, alguns aspectos do projeto despertam questionamento. Os protagonistas da obra são crianças cariocas, que viajam à região Norte para ajudar os pobres moradores locais, cujas casas são queimadas. Embora Pilar (Lina Flor) e seu melhor amigo Breno (Miguel Soares) tenham as melhores intenções, eles desconhecem por completo o local onde chegam. Mesmo assim, as crianças indígenas e negras precisam da ajuda dos brancos salvadores sudestinos para vencerem suas batalhas pessoais. Na hora do ataque aos inimigos, são as crianças brancas que utilizam armas indígenas, ao invés dos próprios habitantes da floresta e arredores.
Algo semelhante ocorre em Perrengue Fashion, no qual influenciadores brancos se veem numa passagem involuntária pela Amazônia. Descobrem a natureza, o meio ambiente, a importância de uma vida saudável e comunitária. Humanizam-se, e retornam a Rio de Janeiro e São Paulo com energias renovadas. Em Anaconda, norte-americanos vêm ao Brasil (na verdade, as filmagens ocorreram na Austrália) para desenvolverem um filme sobre cobras gigantes. Voltam ao seu país com a certeza de que a experiência os transformou: amigos distantes se reaproximaram, e os vilões locais foram combatidos. Dos exemplos citados, apenas O Último Azul conta com personagens amazônicos, pelo ponto de vista dos próprios (mesmo que tenham sido convidados atores sudestinos para interpretarem estes papéis).
Em geral, preserva-se a Amazônia enquanto ideal de aventura exótica e turística. Um território distante, exótico, repleto de magias e novidades. Parte-se da “civilização” rumo à vida “selvagem”, representando uma realidade distante. O único personagem que pretende permanecer nesta região, após a viagem, é o filho branco salvador de Perrengue Fashion, vivendo numa colônia sustentável, habitada exclusivamente por sudestinos e estrangeiros. Os amazônidas continuam ausentes das tramas a respeito de suas vidas. São os gentis hóspedes que explicam como se come o açaí, qual peixe prolifera nas águas, o poder curativo das plantas, o perigo dos garimpeiros e madeireiros. Então, os protagonistas vindos de fora assumem o controle da redenção alheia e podem retornar à sua rotina em São Paulo e Rio de Janeiro, na condição de virtuosos aventureiros.
Sugere-se, desta maneira, que os moradores locais nunca seriam capazes de se defender sozinhos. Ainda são vistos como frágeis, pouco proativos, carentes da intervenção externa. Traduz-se à geopolítica doméstica uma lógica colonialista que o cinema norte-americano sempre imputou às nossas terras, quando algum musculoso herói vem ao México, Colômbia e mesmo Brasil para desmontar esquemas de tráfico e salvar o mundo. No caso de O Diário da Pilar na Amazônia, festeja-se que os protagonistas sejam crianças, e que a liderança provenha de uma garota. Entretanto, mesmo o imaginário dos vilões remete a piratas antiquados, tatuados, cegos de um olho, rindo maleficamente ao som de rock. Em pleno 2025, ainda associamos marcas no rosto ou deficiências enquanto algo amedrontador, sombrio, a evitar?
A ludicidade infantil pretende justificar a maioria destas licenças em relação ao real, assim como as lacunas de posicionamento político. Em determinados momentos, o longa-metragem se presta a uma concretização dos mitos (caso do Curupira), em outros, opta por animais estranhamente digitais, criados a partir de efeitos de baixa qualidade, e de função narrativa duvidosa (o roteiro nunca sabe como ocupar o gato Samba durante a jornada). Ora acredita numa dívida com o real, quando convida atores indígenas para representarem moradores dos povos locais, ora aposta nestes vilões caricatos e atrapalhados, malvados porque sim, e contentes em sua perversidade gratuita. Não seria possível sugerir, dentro da linguagem infantil, o óbvio intuito de ganhos financeiros a partir de tais atividades? Mesmo que Marcelo Adnet esteja excelente, como de costume, nas tiradas cômicas de aparência improvisada, seu personagem apenas aprofunda o maniqueísmo redutor.
Logo, terminamos com uma Amazônia povoada por bichos digitais, dominada pelo sotaque carioca em todos os cantos. Assim que embarcam na empolgante epopeia, as crianças se esquecem dos pais e pessoas queridas que povoaram seu caminho. Não sentem saudades, não pensam nas próprias casas. A jornada se torna uma finalidade em si própria, um parêntese apartado de viabilidades reais. Por isso, pouco importa se as casas serão reconstruídas, se alguém se feriu no incêndio (tanto neste ataque criminoso, quanto naquele, bastante semelhante, em Perrengue Fashion). Afinal, a narrativa se dedica à virtude das crianças brancas do Rio de Janeiro, não à sobrevivência e bem-estar destes figurantes vitimizados, destituídos de voz e personalidade, da região Amazônia. É urgente atribuir protagonismo a atores e personagens deste local, fazendo da Amazônia uma finalidade, não um meio para a humanização dos corajosos visitantes.



