O Enigma de S. (2026)

Angústia

título original (ano)
O Enigma de S. (2026)
país
Brasil
linguagem
Experimental
duração
64 minutos
direção
Gustavo de Mattos Jahn
elenco
Raquel Villar, Juarez Nunes, Renan Rovida, Júlia Monteiro, Hernani Heffner, Raphael Janeiro, Drika de Oliveira
visto em
29ª Mostra de Tiradentes (2026)

Lúcia (Raquel Villar) é uma mulher acometida por alguma coisa. Ela sente um desconforto, uma angústia sem motivo aparente. Está certa de que esta sensação decorre de um sonho perturbador, que lhe deixou como lembrança apenas a primeira letra de uma palavra-chave: S. Seria sítio, saudade, sábado, superfície, samba, submarino? “Sinema”? Logo, ela se aventura sem rumo, em busca de pistas capazes de apaziguar tal desconforto. Inicialmente, soa solitária neste percurso, até encontrar uma série de personagens capazes de fornecer elementos de consideração.

O diretor Gustavo de Mattos Jahn expande a proposta, já bastante rarefeita, do curta-metragem Em Busca de S. (2025). Aposta inteiramente numa dilatação do tempo, numa sensação de incômodo, mas também de letargia. Filma longamente Lúcia dormindo, como se quisesse penetrar em sua cabeça para descobrir seus sonhos. Depois, retrata-a conforme caminha entre plantas. As dúvidas ocupam, na maior parte do tempo, seu universo íntimo, pouco traduzido em imagens, sons ou metáforas. Não fosse pela narração explicativa em off, seríamos meras testemunhas de uma mulher se deslocando sem paradeiro preciso pelo Rio de Janeiro. 

O resultado se prova arrastado, repetitivo, com recursos estéticos insuficientes para ocupar a jornada de Lúcia durante a integralidade da experiência.

Isso porque o longa-metragem depende excessivamente do texto para sugerir seu primeiro e único conflito narrativo: a procura por S. A divisão em capítulos nunca ajuda a organizar a trama, enquanto a montagem demonstra dificuldade em sugerir passagens de tempo e mudanças de espaço. Ignora-se a noção de um ponto de vista coerente, unificado: nem enxergamos o mundo pelo olhar desta mulher (ignoramos seus próximos passos, ou objetivos), nem a vemos como alguém próximo, amigo. Em geral, ela é espiada por uma perspectiva estranhamente voyeur (a câmera sobre seu corpo enquanto dorme, e avistando-a à distância conforme atravessa a rua). Assim, o espectador não se posiciona com ela, no sentido de cumplicidade, tampouco a conhece bem.

A narrativa nunca nos permite descobrir de fato a mulher que ocupa a integralidade do percurso, e motiva esta jornada de autodescoberta. Em consequência, Raquel Villar possui a tarefa curiosa de encarnar uma não-personagem, uma figura movida por profunda perturbação interna, ainda que desprovida de qualquer traço de psicologia ou subjetividade. Em que medida se relaciona com os homens ao redor? Possui relações familiares, afetos, vontades, preferências? Como opera o trabalho de botânica no dia a dia? Não sabemos. Existe uma abordagem fundamentalmente contraditória na decisão de registrar a mulher durante 64 minutos, e ainda mantê-la misteriosa, hermética. 

Talvez esta escolha decorra do fato que Lúcia constitui uma presença secundária em relação ao motivo verdadeiro: explorar os prazeres do cinema experimental. A autoria se torna prioritária numa obra cujo real interesse reside na possibilidade de fragmentar o olhar, suspender a imagem para introduzir um longo black, interromper caminhadas antes da chegada de qualquer ação por parte da heroína. Ela meramente recheia uma ânsia pela filmagem em si, pela captura da imagem pensada em termos de cores, luz, textura, profundidade de campo. Lúcia se assemelha à personagem de uma pintura campestre, servindo a valorizar a pincelada e uso de cores do artista plástico, em detrimento de sua condição de modelo num cenário determinado.

Em particular, O Enigma de S. retorna com insistência às ondas do mar. Acompanha a caminhada da botânica, e volta às águas. Um passeio entre as plantas, e mais praia. Jamais elabora a relação da heroína com este elemento em particular, que tampouco possui importância em sua busca por S. Existe elemento poético mais desgastado, no cinema independente e experimental, do que a exploração ad nauseum de registros genéricos e intercambiáveis das ondas do mar? Enquanto salto temporal e transição entre cenas, resulta numa ferramenta pouco inventiva — justamente em uma obra que deseja representar o invisível, encontrando formas materiais ao imponderável.

O resultado se prova arrastado, repetitivo e entorpecido, com recursos estéticos insuficientes para ocupar a jornada de Lúcia durante a integralidade da experiência. Curiosamente, pode-se falar em um curta-metragem que deu origem a um longa-metragem, e ainda aparentava se adequar melhor ao formato do curta. Nem a aparente brincadeira com o “Sinema”, enquanto chave iniciada em S, porta frutos: o encontro com pesquisadores reais, caso de Hernani Heffner, jamais esclarece a maneira como cinema em película responderia aos dilemas da protagonista, ou mesmo àqueles da própria direção. O aspecto físico dos rolos limita-se a um token de nostalgia, desprovido de relação real com qualquer reflexão sobre o cinema enquanto arte e produção cultural.

Por fim, a obra se destaca por alguns elementos isolados, caso da ponderação em off que se converte, subitamente, num diálogo intradiegético, continuado pela personagem. Entretanto, pensado em conjunto, O Enigma de S. se arrasta, gira em círculos. Perde a oportunidade de aproveitar a contento tanto o motivo narrativo de Lúcia, quanto as capacidades da estética documental. “Seria S como uma substância?”. “Talvez eu tenha me tornado S”, “Eu entendi que só a ternura que importava”. Lúcia começa a formular suas primeiras hipóteses quando o filme se encerra. Afinal, nunca foi um objetivo verdadeiro chegar à resolução desta investida retórica. O deslocamento da personagem constituía mera desculpa para o teste de algumas propostas de linguagem de efeito modesto.

O Enigma de S. (2026)
4
Nota 4/10

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