O Nó do Diabo (2025)

Crime e castigo

título original (ano)
O Nó do Diabo (2025)
país
Brasil
gênero
Terror
duração
18 minutos
direção
Igor Bezerra
elenco
Caio Marcel, Erik Cruz, Flávio Jhordy, Sérgio Tavares
visto em
12ª Mostra de Gostoso (2025)

Um assaltante mascarado invade uma casa de luxo. Aparentemente, ele tem todo o tempo do mundo para sua ação. O rapaz não precisa arrombar nenhuma porta, tampouco enfrenta o problema de algum alarme — o roteiro decide facilitar a sua tarefa. Mesmo assim, nós observamos o jovem pela primeira vez do lado de fora do imóvel, de longe, para deixar claro que não estamos com ele (portanto, não somos cúmplices, e sim, voyeurs). Um lento zoom-in se aproxima da cena do crime com curiosidade: o que ele fará a seguir? 

O diretor Igor Bezerra sabe muito bem construir uma atmosfera de perigo, enquanto se diverte em oferecer pistas falsas — vide a câmera de segurança que nunca resulta em perseguição, ou a bandeira brasileira na parede, sugerindo um confronto ideológico jamais explicitado. De qualquer modo, sabemos que algo grave vai acontecer. Devido à referência imediata às fábulas de Esopo — o livro se encontra convenientemente sobre uma bancada —, somos convidados a ler este percurso pelo viés fabular, o que implica na promessa de uma lição de moral no desfecho. Sabemos, portanto, que o macho alfa desta história será punido por sua infração.

O castigo não tarda a aparecer (o homem é o lobo do homem, de fato). Ao encontrar outros colegas ladrões, que assaltavam casas vizinhas — o acesso a estes domicílios é surpreendentemente inconsequente —, eles encontram sacos de dinheiro na floresta ao lado. Pensam na solução mais plausível ao estranho contexto: um policial teria escondido o produto de seu roubo ali. Ora, o trio não precisará de policiais, vigias de condomínios, nem moradores para lhes aplicar um corretivo. Neste caso, a ganância motiva os rapazes a se voltarem rapidamente uns contra os outros.

O projeto combina os prazeres extremos do horror com a polidez do suspense, revelando uma equipe em sintonia entre as funções de direção, fotografia, som, arte e montagem.

A velocidade desta escalada de tons poderia soar abrupta, porém, o cineasta conduz com impressionante segurança sua revanche fratricida. Seja pela fotografia segura e muito elegante, seja pelo ótimo trabalho de som, ou ainda pela composição bastante competente do elenco (Caio Marcel possui firmeza na voz e no olhar, digna dos líderes), o resultado impressiona pelo profissionalismo. É uma alegria nos deparar com o velocíssimo desenvolvimento do projeto Nós do Audiovisual que, em poucos anos, capacitou jovens para criarem audiovisual no alto nível exigido pelos nossos melhores festivais.

É certo que alguns excessos ou arestas poderiam ser aparados. O martelo surge convenientemente no chão, quando um amigo ataca o outro; e o plano de detalhe num frasco de vidro explicita, de maneira didática, algo que havia se tornado suficientemente claro no plano anterior. Mesmo a moral da história, introduzida numa longa imagem (“Não há honra entre ladrões”), pode ser questionada: por que esmiuçá-la a tal ponto, introduzindo-a tão cedo na narrativa? Uma vez que a frase é sublinhada junto ao espectador, já podemos antever os próximos passos. 

Mesmo a reiteração da imagem do Diabo pode diminuir a sua força — no cinema de gênero, uma criatura é muito mais impactante pelo que imaginamos dela do que por sua materialização. Em outras palavras, a curta aparição ao final teria mais impacto sem o ensaio fotográfico com o personagem durante os créditos finais. Já a utilização da máscara de animais remete demasiado a blockbusters recentes de terror (Você É o Próximo, Jogos Mortais: Jigsaw, Massacre no Texas, etc.). O título também poderia ser questionado, visto que o cinema brasileiro possui outro projeto homônimo de terror, bastante recente (2018). 

Mesmo assim, trata-se de detalhes perto das inúmeras qualidades da obra. O Nó do Diabo investe num terror sem concessões, orgulhoso das ferramentas do cinema de gênero, e bastante competente na condução da trama. Ele possui a duração exata ao curta-metragem, sem uma única cena excessiva. Além disso, pelo refinamento da sequência de abertura, solicita ao espectador que leve a sério a carnificina que seguirá depois. (É um prazer quando os cineastas percebem a enorme importância das primeiras e últimas cenas). O projeto combina os prazeres extremos do horror com a polidez do suspense, revelando uma equipe em sintonia entre as funções de direção, fotografia, som, arte e montagem.

O Nó do Diabo (2025)
8
Nota 8/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.