O Sítio (2024)

Promessa de morte

título original (ano)
La Quinta (2024)
país
Argentina, Brasil, Chile, Espanha
gênero
Drama, Suspense
duração
98 minutos
direção
Silvina Schnicer
elenco
Valentín Salaverry, Milo Lis, Emma Cetrángolo, Sebastián Arzeno, Cecilia Rainero, Dario Levy, Juliana Muras, Alejandro Gigena
visto em
Cinemas

Em uma das cenas iniciais, uma garotinha pergunta ao irmão o que acontece se ela pular na piscina vazia. Ele explica que ela para de respirar, e morre. Adiante, um rato é exterminado diante do filho pequeno, horrorizado com a cena. Um pássaro também morre. O caseiro avisa que o comportamento violento de Martín, apaixonado pelo fogo, ainda gerará problemas sérios. Um ser humano é barbaramente atacado em seu esconderijo, e não sobrevive. À noite, o garoto sonha com os acontecimentos dos últimos dias, e grita: “Morte! Morte!”, tendo a irmãzinha como testemunha. Da primeira à última cena, a narrativa nos prepara para lidar com a finitude, vivenciada de maneira traumática por todos os familiares.

O Sítio mergulha no profícuo subgênero dos dramas a respeito de crianças confrontadas à morte, que vão de Cria Corvos e O Espírito da Colmeia a O Pântano — este último, uma referência inevitável para o cinema latino-americano das últimas décadas, além de modelo evidente para a diretora Silvina Schnicer. Trata-se de confrontar a inocência e desconhecimento dos pequenos ao mundo dos adultos, através de perdas traumáticas, geralmente concentradas em animais domésticos e familiares mais velhos. Em alguns casos, recorre-se às crianças perversas, que buscam ativamente a descoberta do poder de tirar a vida alheia. 

Em O Sítio, ninguém efetua o luto pelas inúmeras mortes ao redor. Questiona-se o discurso da autora a partir de seu apanhado nada otimista das relações humanas.

A narrativa demonstra bastante pressa em acumular tais indícios de violência. No mesmo dia em que os pais descobrem que a propriedade familiar foi invadida (por alguém que, aparentemente, viveu durante dias na residência), o obsessivo Martín experimenta atear fogo num ninho de marimbondos, correndo o risco de atear fogo em toda a mata ao redor. Logo se deduz que a cineasta constrói tal instante enquanto cena premonitória, preparando o terreno para um incêndio muito mais grave a seguir. Parte-se do princípio da gradação: uma única fagulha inicial que aumenta a cada momento, até a explosão no clímax. 

Na ânsia de embutir diversos indícios de agressão — frutos de um sistema falido e de uma sociedade punitiva e hipócrita, segundo o filme —, a narrativa nunca deixa tempo para tantos traumas surtirem efeito nos personagens. Logo, orquestra-se uma sucessão de gravidades inconsequentes: matam-se os animais, e se esquece dos mesmos no instante seguinte. A invasão na casa dos protagonistas jamais leva a qualquer investigação (própria, ou por parte dos policiais) para descobrir os autores do crime. O assassinato de um vizinho também será ocultado, e não levantará suspeitas. É relativamente fácil sair impune por suas ações nesta trama em que todos infringem a lei, por isso, toleram as infrações alheias.

Assim, Schnicer e o diretor de fotografia Iván Gierasinchuk se esforçam para aproximar o drama da linguagem do suspense psicológico. Isso implica numa sucessão de crianças caladas, no interior de cômodos inexplicavelmente escuros, mesmo de dia, quando a luz da janela serve para minimamente destacar os pequenos da escuridão circundante. Nas diversas caminhadas externas, durante a noite, mal se distinguem os personagens dos cenários. Revelações espantosas a respeito da construção ao lado penam a se discernir no enquadramento. Os criadores ainda associam o não-dito à escuridão e à noite, numa associação um tanto óbvia de significados — mesmo o terror mais criativo superou a obrigatoriedade da escuridão enquanto sintoma do mal.

Ao menos, as crianças e os atores experientes mostram-se bastante competentes, compondo um elenco coral de prestação homogênea. Ninguém se sobressai, nem positivamente, nem negativamente — uma característica louvável em obras corais como esta. Posto que o arsenal estético se mostra bastante opressor por si próprio (vide as reuniões sombrias com vizinhos; os banhos soturnos na piscina imunda; as reiteradas visitas à casa abandonada), não é preciso reforçar, através das atuações, a sensação de medo e paranoia. Apesar da sensação geral de passividade (ou de conformismo, como preferir), os atores demonstram certo horror contido nos olhos, que condiz com as intenções da cineasta.

Neste dispositivo, cabe a cada um traçar o limite entre uma presença verossímil de símbolos e metáforas, e uma sobrecarga excessivamente demonstrativa de temores (a “possessão demoníaca” do filho se contorcendo na cama; os olhares bizarros da menina face a outro garoto perverso). Enquanto os adultos questionam a legitimidade de comprar armas e transformar a região num condomínio vigiado (com ecos de O Som ao Redor), os pequenos ainda acreditam na necessidade de solucionar sozinhos suas experiências de finitude. Por isso, o ambicioso desfecho alterna três narrativas em paralelo (1. A garota, 2. Os dois irmãos e 3. Os adultos), focando-se neste pragmatismo ilusório da solução de traumas.

Isso porque, em O Sítio, ninguém efetua o luto pelas inúmeras mortes ao redor. Esconde-se o assassinato, oculta-se o destino do passarinho, deixa-se o rato sem vida no chão. A esposa solicita ao marido que prontamente resolva qualquer problema existente na propriedade, para que possa dormir em paz — simples assim. Mata-se e morre-se bastante ao longo desta trama sucinta, embora ninguém consiga lidar de fato com o ocorrido, e nem tenha a coragem de conversar a respeito. O grito dos adultos fica preso à garganta, enquanto os pequenos, pelo menos, buscam uma migalha de acolhimento num abraço coletivo. Experimenta-se o término da vida sem nada aprender, de fato, com a morte.

Isso talvez nos leve a questionar o discurso da autora a partir de seu apanhado nada otimista das relações humanas. Algo semelhante ocorria em Tigre (outro filme devedor à estética de O Pântano), no sentido de se expor falhas sociais e psicológicas sem investigar origens, transformações, alternativas às mesmas. Parte-se da constatação desoladora da falência social (no caso de O Sítio, a existência de crianças psicopatas acobertadas por adultos hipócritas), evitando investigar o peso político de tais atos numa sociedade ampla. Em ambos os filmes, as ações ocorrem em meios isolados, fechados sobre si próprios, nos quais a barbárie pode ser praticada em relativa impunidade e inconsequência. Assim, levanta-se a dúvida acerca do limite entre a crítica destas ações, e certa banalização das mesmas. Afinal, o que separa esteticamente o questionamento de nossos personagens falhos e a condescendência com seus delitos?

O Sítio (2024)
6
Nota 6/10

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